CHICO SCIENCE E JOSUÉ DE CASTRO: COMO O AUTOR DE ‘GEOGRAFIA DA FOME’ INFLUENCIOU O MANGUEBEAT

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NAÇÃO ZUMBI

Médico recifense pioneiro no combate à miséria foi exilado pela ditadura e segue uma referência essencial para o Brasil

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Josué de Castro e a sua influência no Nação Zumbi | Crédito: Reprodução

Dia 5 de setembro marca o nascimento do recifense Josué de Castro, que se destacou mundialmente por seu ativismo pioneiro no combate à fome. O médico e geógrafo foi presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 1952, e recebeu o Prêmio Internacional da Paz, em 1954.

Lúcio Maia, guitarrista e um dos fundadores da banda recifense Nação Zumbi, do movimento Manguebeat, em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, explica a importância do desenvolvimento teórico de Josué de Castro para a banda. O músico conta que eles ensaiavam no quintal da casa da sua mãe, onde passava o chamado Rio Doce. Aquele ecossistema influenciou a forma de pensar e criar do grupo.

“O mangue era nossa realidade, o lugar onde a gente vivia. Em um ensaio, o Chico [Science] chegou e fez esse comentário: ‘A gente vai fazer mangue’.”

“E a gente ficou sem entender o que era aquilo, e ele foi explicando: ‘A gente devia transformar as nossas influências, como se catalisassem tudo no mangue, porque o mangue é um dos ecossistemas mais ricos que existe no planeta’. Então, ele achou essa metáfora muito conveniente para a gente começar uma ideia musical. Foi quando o Chico descobriu ‘Geografia da Fome’ do Josué de Castro”, contextualizou o Maia.

Josué foi deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) na década de 1950 e responsável pela Campanha Nacional de Merenda Escolar, além de ter participado da fundação da Associação Mundial de Luta contra a Fome.

Para Maia, a atuação de Castro colocava-o na mira das críticas de uma elite econômica da sua época. Ele lembra que o político se exilou na França a partir da ditadura civil-militar no Brasil.

“A fome é um modelo político aplicado nesses 500 anos de Brasil. A fome é uma arma de controle que a gente ainda vai sentir por muitos anos ainda, talvez pelo resto da existência”, lamenta o músico.

Outra obra de Josué de Castro citada por Maia como referência para o Nação Zumbi foi o livro “Homem Caranguejo”. “Chico se identificou demais com essa ideia do homem-caranguejo, e aquilo se acopla exatamente com essa analogia: de onde a gente veio, o que a gente significava para aquele lugar e qual a forma que a gente queria passar para o mundo. Mesmo com o pé na lama, você pode estar conectado com todas as outras vibrações universais, sabe? Então foi esse o nosso conceito principal de quando a gente lançou ‘Da Lama ao Caos’. Josué, basicamente, é o nosso farol, de ter catalisado o que a gente queria dizer desde o começo.”

Ainda durante a conversa, Lúcio Maia comentou a precoce morte de seu parceiro de banda, Chico Science. “Ele perdeu a vida muito cedo. Chico não viu nada da vida. Ele ainda poderia contribuir. Quantas coisas ele ainda traria de ideia! E isso me deixa com muita tristeza. Foi um baque, foi uma perda irreparável. Eu acho que o mínimo que a gente poderia ter feito foi o que a gente fez, ter dado continuidade.”

Editado por: Gia Matheus Almeida

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