LUIS NASSIF: QUAL A LÓGICA DA IMPRENSA, NA CAMPANHA PRÓ- FLÁVIO BOLSONARO?
afinsophia 28/08/2026 0
É um método que, de tão primário, torna-se humilhante para o jornalismo. Como se pôde chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada?

Não resta a menor dúvida sobre a ação articulada dos grandes veículos de mídia em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro. As digitais estão evidentes na tentativa de criar um falso escândalo — o chamado caso Lulinha — e equipará-lo artificialmente às investigações sobre Flávio Bolsonaro.
Trata-se de uma farsa explícita, alimentada pelo ministro André Mendonça e endossada acriticamente pela imprensa.
É um método que, de tão primário, torna-se humilhante para o jornalismo brasileiro. Como se pôde chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada?
Para além da miopia conjuntural, quais razões explicam esse alinhamento? Entremos no campo das hipóteses explicativas:
Hipótese 1 — A ameaça externa e o compliance da geopolítica
Conforme detalhei no artigo “A imprensa na guerra híbrida”, uma das hipóteses é a pressão do Departamento de Estado norte-americano.
Em novembro de 2017, no julgamento do ex-presidente da CBF José Maria Marin e de outros dirigentes em Nova York, o argentino Alejandro Burzaco, ex-presidente da Torneos y Competencias e delator da Justiça americana, afirmou sob juramento que Globo, Televisa e Torneos teriam participado de um pagamento de US$ 15 milhões a Julio Grondona, então vice-presidente da FIFA e presidente da AFA. Segundo Burzaco, o pagamento estava relacionado à obtenção de direitos de mídia das Copas do Mundo de 2026 e 2030.
Agora, com as medidas de Donald Trump convertendo empresas norte-americanas em braços diretos da geopolítica de Washington, elevou-se drasticamente o risco sobre as empresas de mídia brasileiras. Como escrevi no artigo:
“Uma reunião entre o Departamento de Estado e executivos; uma audiência parlamentar; uma carta de congressistas; uma declaração pública de Rubio; uma investigação da USTR; ou simplesmente a pergunta de um funcionário americano — ‘sua companhia está financiando organizações envolvidas na censura de cidadãos americanos?’ — pode bastar para que departamentos jurídicos recomendem suspender publicidade. Não seria uma sanção formal. Seria compliance induzido pelo Estado”.
Hipótese 2 — O fator Faria Lima e a grande lavanderia financeira
A gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central abriu as comportas para dois tipos de negócios:
O segundo foi a transformação de parcela do mercado em uma engrenagem de lavagem de dinheiro, atendendo tanto ao crime organizado quanto à blindagem de ganhos fiscais e financeiros de pessoas físicas e jurídicas.
A defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro se prenderia, assim, à preservação dessa imensa lavanderia.
Hipótese 3 — O banquete das privatizações e os grandes negócios com o Estado
A aliança com grandes bancos de investimento mira os grandes negócios com o patrimônio público: a liquidação e privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Hipótese 4 – enfraquecimento preventivo
É uma velha tática. A campanha visa ou derrotar Lula ou, na melhor das hipóteses, registrar um Lula vitorioso, porém enfraquecido.
Seja qual for a combinação de motivos, a atual campanha eleitoral é a pá de cal em qualquer veleidade da grande imprensa de resgatar o papel do jornalismo em meio à barafunda de desinformação das redes sociais. Veículos como The New York Times, Financial Times, The Times, El País e The Guardian mantiveram princípios básicos: apuro da notícia, rigor de análise, respeito à relevância factual e recusa a embarcar em fake news primárias — exatamente o oposto do que faz a mídia brasileira ao inflar o falso caso Lulinha.
O jornalismo passa a ser tratado como mero instrumento temporário para viabilizar o próximo salto corporativo do grupo. Cumprida essa etapa, descarta-se a verdade e o próprio jornalismo por desnecessário.
Lula no Jornal Nacional
Um exemplo de como o jornalismo da Globo não respeita nem jornalistas experientes. A maior parte da entrevista de Lula ao Jornal Nacional foi sobre as fake news distribuídas pela Polícia Federal. Todas as perguntas versavam sobre escândalos. Nenhuma sobre planos de governo.
Depois, na avaliação dos jornalistas de O Globo, saiu esse primor.
Thomas Traumann (Nota 2): “Desacostumado a entrevistas duras, o presidente Lula passou a maior parte do tempo na defensiva, respondendo sobre casos de corrupção envolvendo seu filho e ex-chefe de gabinete. Encerrou se perdendo no tempo das considerações finais”
E não havia a alternativa para Lula desconsiderar o baixíssimo nível das perguntas.
