Cerimedo atuou como assessor de Milei (2023) e Bolsonaro (2022), participou de campanhas onde a tônica era o uso intensivo de bots e trolls

A tragédia de Fernando Cerimedo recebeu pouco destaque na mídia brasileira.
Trata-se de um estrategista político argentino, conhecido por assessorar campanhas de direita na América Latina (Javier Milei e, mais recentemente, Rodrigo Paz, na Bolívia).
Sua ex-companheira, a ativista Nadia Beller, sofreu um atentado armado numa área comercial de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Dois homens disfarçados de entregadores aproximaram-se dela na entrada de um hotel e atiraram, atingindo-a três vezes. Ela sobreviveu e ficou hospitalizada. Estava grávida do próprio Cerimedo (La Tercera).
Logo após o ataque, Nadia Beller disparou a falar. Contou como o ex-companheiro armou o atentado. O motivo: ela “sabia demais” sobre seus esquemas.
Seu relato é a maior bomba deflagrada até agora contra a ultradireita latino-americana. Sobre a Bolívia, foi taxativa: “Quem governa não é Rodrigo Paz, é Fernando Cerimedo”. Contou que ele tinha um escritório dentro do Palácio de Governo, mesmo sem cargo oficial, e comandava um grupo “de elite” da polícia, que respondia apenas a ele (La Nacion).
Disse ter provas de esquemas irregulares envolvendo importação e distribuição de diesel, gasolina e ouro, com sobrepreço por litro de combustível e uso de “testas de ferro” (Nodal).
Ou seja, o caso deixou de ser apenas o atentado contra ela e transformou-se em uma denúncia mais ampla: a captura do Estado boliviano por Cerimedo e a corrupção no setor de combustíveis.
Como Cerimedo operava
Cerimedo atuou como assessor de Javier Milei (2023) e de Jair Bolsonaro (2022), participou dos plebiscitos no Chile e das campanhas de Rodrigo Paz, na Bolívia, e de Nasry Asfura, em Honduras.
Uma fazenda de bots é uma operação coordenada de milhares de contas falsas ou automatizadas, que agem em conjunto para simular engajamento real. O objetivo, nas palavras do próprio Cerimedo, era “mentir para o algoritmo”: fazer com que plataformas como X, Instagram, Facebook e TikTok interpretassem um conteúdo como relevante e passassem a distribuí-lo organicamente para mais usuários.
Ele próprio admitiu ter administrado cerca de 50 mil contas criadas artificialmente só na Argentina durante a campanha de Milei. Disse também que cada “fazenda” individual conseguia reunir entre 1.000 e 2.000 perfis ativos por vez — o número variava conforme o tempo que as contas conseguiam operar antes de serem detectadas e banidas pelas próprias redes.
Nas redes, circularam relatos sobre uma queda perceptível de curtidas, compartilhamentos e engajamento em conteúdos ligados a Milei logo depois da apreensão e da desativação da estrutura — uma correlação observada, ainda sem dados independentes que comprovem a relação de causa e efeito.