CEUTA: COMO O GOVERNO ESPANHOL TEM LIDADO COM O TESTE DE FOGO NA SUA POLÍTICA MIGRATÓRIA
afinsophia 06/08/2026 0
UNIÃO EUROPEIA
Episódio em que milhares de marroquinos cruzaram fronteira a nado decorre de histórico diplomático e mobiliza debates
- SÃO PAULO (SP)
- ANDRÉ LUCENA
A entrada de milhares de imigrantes marroquinos através da cidade de Ceuta, na Espanha, tornou-se o principal problema político do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao lado dos incêndios que atingem o país por conta das ondas de calor extremo. Mas, se no plano climático as decisões de Madrid têm repercussão interna, a crise migratória deflagrada na semana passada tem refletido na relação da Espanha com países fronteiriços na Europa, bem como com o Marrocos. No episódio da semana passada, 141 pessoas morreram.
Ainda assim, parte da opinião pública espanhola vem questionando a legitimidade do argumento do Marrocos, lembrando uma crise migratória semelhante em Ceuta, em 2021, em que o governo do país do norte da África teria facilitado o avanço de imigrantes.
Em meio à divergência diplomática, também pesa o fato de que o governo espanhol sugeriu um projeto de lei que pode conceder a nacionalidade espanhola aos saraauís que nasceram quando o Saara Ocidental ainda vivia sob tutela de Madrid. Além disso, Sánchez fez uma visita recente ao presidente da Argélia, Abdelmayid Tebún, em um gesto de reaproximação, desagradando o governo marroquino.
Nadir coloca na conta uma decisão recente da Suprema Corte espanhola, tomada em julho, que proibiu a devolução imediata de migrantes interceptados pelo mar. A medida não impede que se faça deportação, mas serviria como um sinal de flexibilização.
“A decisão foi crucial. A interpretação foi feita, de certa maneira, como uma luz verde para se levar milhares de imigrantes a arriscarem a chegada por via marítima”, avalia Nadir. Na Espanha, Sánchez argumenta que redes de tráfico humano teriam instrumentalizado a decisão.
A situação tem servido como uma espécie de teste de liderança para Sánchez, não apenas do ponto de vista da política interna espanhola, como no contexto europeu. “Sánchez tem sido uma liderança muito influente na Europa, dado o seu posicionamento pelos direitos humanos, pelo respeito ao direito internacional, sobre o genocídio em Gaza e a guerra contra o Irã. Ele teve audácia para enfrentar o governo norte-americano e, também, uma direita pró-guerra”, avalia Nadir.
Até agora, o premiê tem rebatido as críticas da direita europeia mais radical, mas, ao mesmo tempo, tem sido instado a pensar, estrategicamente, a sua política de fronteiras mais abertas.