LUIS NASSIF: VEM AÍ UM NOVO INQUÉRITO DE LAVAGEM DE DINHEIRO DOS BOLSONARO

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O pedido para vincular a “vaquinha do Pix” ao caso Master tem lógica investigativa, embora ainda dependa de comprovação documental.

Reprodução Redes Sociais

Há duas dores de cabeça imediatas para a família Bolsonaro. A primeira, já conhecida, é a investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A segunda tem potencial igualmente explosivo: a apuração sobre a arrecadação de Jair Bolsonaro, estimada entre R$ 24 milhões e R$ 26,2 milhões, atribuída por ele a contribuições via Pix de apoiadores.

O levantamento financeiro do Coaf e da Polícia Federal foi incorporado ao Inquérito 4995, o chamado inquérito do “tarifaço”, relatado por Alexandre de Moraes. Foi com base nesse material que a PF indiciou Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro em agosto de 2025. O enquadramento principal, contudo, foi outro: coação no curso do processo e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito. A lavagem de dinheiro aparece como indício a alimentar a apuração sobre organização criminosa — ainda não como acusação fechada e autônoma sobre as doações.

O relatório da PF ampliou o quadro financeiro. Desde 2023, Bolsonaro teria recebido R$ 44 milhões, quase metade — R$ 20,7 milhões — por Pix. Apenas entre março de 2023 e fevereiro de 2024, foram movimentados R$ 30,5 milhões, com R$ 19,3 milhões em Pix distribuídos em mais de 1,2 milhão de lançamentos. O volume e o fracionamento das operações formam um padrão que a inteligência financeira costuma tratar como sinal de alerta: muitos pagamentos pequenos podem tanto refletir mobilização popular real quanto funcionar como cortina de fumaça para diluir a rastreabilidade.

No caso de Eduardo Bolsonaro, a PF registrou ainda uma operação de câmbio de R$ 1,6 milhão para uma conta no Wells Fargo, nos Estados Unidos. O relatório também apontou que os R$ 2 milhões repassados a Michelle Bolsonaro teriam sido omitidos por Jair Bolsonaro em depoimento.

O desfecho processual mais recente veio agora. A Procuradoria-Geral da República não aderiu à tese de simplesmente costurar todos esses elementos ao Inquérito 4995 (que investiga a coerção sobre o STF por Eduardo Bolsonaro). Diante disso, Alexandre de Moraes determinou o desentranhamento da notícia-crime e seu envio à Presidência do Supremo Tribunal Federal, para análise de eventual conexão com o inquérito já existente ou livre distribuição. Caberá ao ministro Edson Fachin decidir se a questão será encaminhada ao ministro André Mendonça, relator do inquérito do caso Master.

O próprio autor da denúncia, o deputado Lindbergh Farias, já havia pedido a integração dos dados das investigações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro, além de um relatório da Polícia Federal cruzando possíveis fraudes do Master com os fatos do Inquérito 4995.

Talvez o ponto mais incômodo esteja no destino de parte dos recursos arrecadados. Valores apresentados publicamente como doações para pagamento de multas e despesas jurídicas teriam sido aplicados em renda fixa — CDBs e RDBs —, somando cerca de R$ 17 milhões. Ou seja: o dinheiro que entrava sob a narrativa da urgência política saía como investimento financeiro. A defesa respondeu que os valores foram aplicados justamente para preservar o montante e evitar gastos indevidos.

O pedido para vincular a “vaquinha do Pix” ao caso Master tem lógica investigativa, embora ainda dependa de comprovação documental. Os fluxos coexistem entre dezembro de 2024 e meados de 2025, mas o achado mais relevante não é a coincidência temporal. É o possível encontro dos destinos.

De um lado, a narrativa pública das doações populares. De outro, um canal financeiro envolvendo Master, fundo no Texas e remessas aos Estados Unidos. Em março de 2025, esse circuito coincide com a ida de Eduardo Bolsonaro aos EUA para articular pressões contra autoridades brasileiras e defender o tarifaço.

Pix e Master, até aqui, não se encontram necessariamente na origem. A hipótese investigativa é mais sofisticada: eles podem se encontrar no destino — a operação Eduardo.

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