BRASIL BRILHA NO FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE XANGAI COM MOSTRA EXCLUSIVA E CONCORRENTE NA PREMIAÇÃO PRINCIPAL

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DIPLOMACIA CULTURAL

Como parte do Ano Cultural Brasil-China, mostra especial divulga nove produções recentes do cinema nacional

Cartaz do Festival Internacional de Cinema de Xangai ocupa espaços urbanos da cidade refletindo a dimensão do evento no cotidiano da metrópole chinesa. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

O Brasil ampliou sua presença no Festival Internacional de Cinema de Xangai com o lançamento da Mostra Focus Brazil, que reúne nove filmes e integra uma estratégia de internacionalização do audiovisual nacional e expansão de coproduções no mercado asiático.

Considerado o maior da China, o Festival de Xangai é um dos principais do circuito mundial, apresentando mais de 2 mil filmes de mais de 100 países entre 12 e 21 de junho, além de um dos maiores mercados de negócios do setor audiovisual global.

Integrado ao circuito oficial da Federação Internacional de Associações de Produtores de Filmes (FIAPF), o evento funciona como uma das principais plataformas de circulação de obras, negociação de direitos e articulação de coproduções no mercado asiático.

A programação brasileira foi lançada no Fotografiska Xangai, durante a abertura da Mostra Focus Brazil, dentro do Ano Cultural Brasil-China, iniciativa bilateral que prevê ações conjuntas em cinema, televisão, música e economia criativa.

 

A delegação brasileira reúne cerca de 44 representantes oficiais do setor audiovisual, incluindo produtoras, distribuidoras e agentes de comercialização internacional, além de profissionais convidados para rodadas de negócios e encontros de mercado.

Entre os filmes brasileiros selecionados estão “O Deserto de Luíza”, “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo”, “Herança de Narcisa”, “Para Vigo Me Voy!”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “Coração das Trevas”, “Papaya”, “Feito Pipa” e “A Hora da Estrela”, distribuídos em mostras competitivas e paralelas do festival.
Mostra Focus Brazil, reúne produções brasileiras na programação do Festival Internacional de Cinema de Xangai.
Mostra Focus Brazil reúne produções brasileiras na programação do Festival Internacional de Cinema de Xangai. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

A estratégia de internacionalização do cinema brasileiro

Durante a cobertura do festival, o Brasil de Fato acompanhou atividades da programação em Xangai, incluindo sessões de mercado, encontros entre produtores e exibições da Mostra Focus Brazil, que busca ampliar a circulação do cinema brasileiro no circuito asiático.

A participação ocorre em um momento de expansão da presença brasileira em festivais internacionais, com foco em vendas, coprodução e distribuição em mercados estratégicos fora da Europa e dos Estados Unidos.

A missão é coordenada pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual (SAV), órgão responsável pelas políticas federais de fomento, incentivo à produção e internacionalização do audiovisual brasileiro.

Em entrevista ao Brasil de Fato durante o lançamento da Mostra, a secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Gonzaga, destacou o caráter simbólico e estratégico da presença brasileira no evento.

“Hoje é o Dia do Cinema Brasileiro, essa paixão nacional, assim como o futebol. É muito importante esse momento que estamos vivendo aqui em Xangai, porque a gente consegue mostrar para o público chinês um pouco mais da cultura brasileira e a importância que o audiovisual tem na construção da nossa identidade e na forma como mostramos o Brasil no exterior.”

“O Brasil é um país do futebol, mas também é um país do cinema, e estar aqui comemorando isso em um festival como Xangai, com uma presença tão forte do Brasil, inclusive na competição, é muito significativo para todos nós”, seguiu.

Segundo ela, a delegação brasileira reúne profissionais de diferentes áreas do setor audiovisual em um movimento de fortalecimento da presença internacional.

“Está sendo muito bonito comemorar aqui em Xangai com uma delegação de cerca de 80 profissionais, em um ano em que o Brasil tem uma presença muito forte no festival, não só na mostra paralela, mas também na competição oficial.”

E conclui destacando o alcance simbólico da participação brasileira.

“Estamos todos muito felizes de poder celebrar o Dia do Cinema Brasileiro aqui em Xangai, mostrando nossas histórias e levando nossa cultura para o mundo.”

Atriz Nina Prado, intérprete de Luiza em O Deserto de Luiza, durante entrevista ao Brasil de Fato no Festival Internacional de Cinema de Xangai.
Atriz Nina Prado, intérprete de Luiza em O Deserto de Luiza, durante entrevista ao Brasil de Fato no Festival Internacional de Cinema de Xangai. | Crédito: Bruno Falci / Brasil de Fato

O filme “Deserto de Luiza” disputa o Cálice de Ouro

Único título brasileiro na Competição Principal (Golden Goblet / Cálice de Ouro) do Festival Internacional de Cinema de Xangai, dedicada a longas-metragens de diversos países, “O Deserto de Luiza” recebe grande prestígio no evento.

A presença na competição principal coloca o longa em um dos espaços de maior visibilidade do festival, em um mercado considerado estratégico para o audiovisual global, especialmente o chinês, um dos maiores do mundo em público e bilheteria.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o roteirista e diretor Alan Minas descreve o ponto de partida da criação.

“Essa narrativa conta a história de uma adolescente de 15 anos, a Luíza, que é muito tímida, está vivendo sua primeira paixão e começa a descobrir também o seu talento como desenhista. É uma fase muito intensa da vida dela, de descobertas e transformações.”

O diretor explica que o drama da personagem se intensifica a partir de uma crise familiar.

“Ao mesmo tempo, a mãe dela tem um surto psicótico e isso muda completamente a dinâmica da família. A Luíza passa a ser a principal cuidadora, enquanto o pai se afasta e a irmã mais nova vai morar com a tia.”

Ele destaca que essa inversão de papéis é o eixo central do filme.

“Ela acaba assumindo um papel que não deveria ser dela, o de cuidar da própria mãe. É um processo de amadurecimento muito forte, quase forçado pelas circunstâncias.”

Durante o festival, a equipe do filme também acompanhou exibições e atividades da Competição Principal em Xangai, em meio à estreia internacional da produção em um dos principais mercados do cinema mundial.

A atriz Nina Prado, de 16 anos, que interpreta Luíza, relata sua trajetória no teatro antes de chegar ao cinema:

“Eu comecei no teatro com quatro anos de idade, porque meu irmão já fazia teatro e isso acabou me influenciando muito desde cedo. Foi um caminho natural para mim.”

Ela explica que a experiência precoce a levou a atuar com pessoas mais velhas.

“Como não tinha turma da minha idade, eu sempre atuei com pessoas mais velhas, e isso acabou me fazendo amadurecer mais rápido dentro do teatro e também como pessoa.”

Sobre a transição para o audiovisual, ela detalha: “No fim de 2022, eu decidi que queria ir além do teatro e entrar também no audiovisual, porque sempre foi uma paixão minha expandir esses caminhos e entender outras formas de atuação.”

Ela conta como chegou ao papel da protagonista:

“Em 2023 eu fiz teste para a Luíza, depois fiz para a Bia, e depois de um tempo acabei voltando para o teste da própria Luíza. Foi um processo longo, mas muito especial, porque eu me identifiquei muito com a personagem.”

E resume a complexidade da personagem:

“A Luíza é uma menina muito tímida, mas muito forte ao mesmo tempo, que enfrenta situações muito difíceis na adolescência e dentro da família, e vai descobrindo a vida de uma forma muito intensa.”

Animação brasileira propõe distopia no Rio

O filme “Coração das Trevas”, dirigido por Rogério Nunes, integra a seleção brasileira na Mostra Focus Brazil e amplia o conjunto de gêneros apresentados pelo país no Festival Internacional de Cinema de Xangai, como uma animação de ficção científica ambientada em um Rio de Janeiro distópico.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor explica que a obra é uma adaptação livre do clássico “The Heart of Darkness”, transposto para um futuro próximo marcado por violência urbana e estruturas policiais em colapso.

Ele detalha o enredo central.

“O filme conta a história de um tenente da Polícia Militar do Rio de Janeiro que recebe a missão de encontrar um capitão que desapareceu dentro de uma favela. É uma narrativa de busca, mas também de tensão e colapso urbano.”

O diretor comenta ainda a mudança de percepção sobre o próprio filme.

“Quando comecei o projeto, achava que estava fazendo um filme de aventura, mas depois das primeiras exibições percebi que o resultado final é muito mais próximo de um filme de terror.”

Riofilme e a política de internacionalização

Empresa pública de audiovisual da cidade do Rio de Janeiro, a RioFilme é responsável pelo fomento, investimento e estratégias de internacionalização do setor cinematográfico carioca e integra a presença brasileira no festival.

Em entrevista, o produtor e presidente da instituição, Leonardo Edy, destacou a estratégia de expansão internacional do audiovisual da capital fluminense:

“A gente está aqui no Festival Internacional de Xangai e no mercado para trazer um pouco do que é o Rio de Janeiro, para mostrar nossas produtoras, nossas empresas de infraestrutura e também o potencial da cidade como destino de filmagens e coproduções.”

Ele detalha a nova política de investimentos.

“A gente está inaugurando uma linha inédita de investimento em coprodução minoritária internacional, que permite ao Rio participar de produções feitas fora do Brasil, fortalecendo essa troca com outros países.”

Segundo ele, o objetivo é consolidar o Rio como polo global do audiovisual.

“É um projeto de internacionalização do audiovisual do cinema carioca, que passa por estar presente em mercados internacionais e também por trazer esses parceiros para dentro dos nossos eventos.”

E destaca a integração entre festivais e mercado.

“A gente participa de eventos no mundo inteiro e também traz essas conexões para o Festival do Rio e o Rio2C, fechando um ciclo de circulação e retorno dessas parcerias.”

Por fim, reforça a presença de produções cariocas no festival.

“Três filmes são investimentos da RioFilme, e “O Deserto de Luiza” está entre eles na competição aqui em Xangai.”

Mais do que uma vitrine de exibição, a presença brasileira em Xangai se articula em encontros de mercado, rodadas de negócios e estratégias de circulação internacional, com foco na ampliação da distribuição de filmes brasileiros e na abertura de novas parcerias de coprodução.

A Mostra Focus Brazil reúne obras de diferentes gêneros e linguagens, reforçando a diversidade da produção audiovisual do país.

A presença do Brasil em Xangai ocorre em um contexto de intensificação das relações culturais entre Brasil e China, com o audiovisual assumindo papel central nas estratégias de cooperação internacional.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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