TV GGN: MÉDICO BRASILEIRO DA FLOTILHA DETALHA TORTURA SOFRIDA NAS MÃOS DE ISRAEL

0
Sem-titulo-16

Em relato à TV GGN, pediatra expõe a barbárie no projeto sionista e lamenta que em Israel “estupradores viraram heróis nacionais”

O pediatra brasileiro Cássio Pelegrini, colaborador do coletivo Sou Vozes em Movimento, foi um dos ativistas sequestrados pela Marinha de Israel em águas internacionais durante a mais recente missão da Global Sumud Flotilla. O comboio transportava ajuda humanitária à Faixa de Gaza quando foi interceptado violentamente longe da costa. De volta a São Paulo, com uma costela fraturada e marcas de agressão pelo corpo, o médico concedeu uma entrevista exclusiva ao GGN.

No relato, Pelegrini detalha a violência sofrida por ele, outros brasileiros e centenas de ativistas do mundo inteiro: espancamentos, humilhações, celas superlotadas e sem saneamento, simulação de execuções e relatos de violência sexual dentro das instalações militares israelenses. O pediatra também denuncia o “apagamento” midiático do conflito e o desamparo institucional sofrido após o retorno dos sobreviventes ao Brasil.

Confira a entrevista na íntegra, realizada pelos jornalistas Icaro Brum e Lourdes Nassif:

GGN: Cássio, estar na Flotilha neste momento histórico de Gaza é um ato de imensa cidadania e coragem. Como foi a abordagem israelense em alto-mar? O que de fato aconteceu naquele momento?

Cássio Pelegrini: Israel sente muito a pressão que a flotilha impõe em termos diplomáticos, por ser uma missão de ajuda humanitária e de solidariedade política. Esta foi a maior flotilha que já existiu. No começo, tínhamos cerca de 70 barcos; no final, éramos 50. Descobrimos que a Marinha israelense não tem capacidade de interceptar tantos barcos simultaneamente. Por isso, começaram a agir muito longe da costa de Gaza ou do território israelense. A primeira interceptação aconteceu no dia 30 de abril, ainda na zona de busca e resgate da Grécia. A segunda foi dividida entre os dias 18 e 19 de maio.

Por segurança, nós transmitíamos tudo ao vivo e usávamos um rastreador para que o público seguisse cada embarcação. Eu estava no penúltimo barco interceptado. O que aparece nos vídeos divulgados vai até esse momento da abordagem, além do vídeo do ministro Itamar Ben-Gvir abusando de alguns ativistas. Mas o pior não é a abordagem no momento em que eles chegam. O pior aconteceu nos três ou quatro dias seguintes, quando ficamos sob tortura, sem nenhum registro oficial de migração em Israel ou na Palestina ocupada. Foi ali que ocorreram as piores violações de direitos humanos.

GGN: Vocês ficaram presos e sem comunicação logo após a captura?

Cássio Pelegrini: Ficamos totalmente sem comunicação. Por segurança, nós jogamos todos os nossos celulares e computadores no mar antes da abordagem. Sabemos que Israel tem tecnologia para interceptar dados, então fizemos isso para proteger nossos familiares e companheiros. No meu caso, fui levado primeiro para um navio militar e, depois, para um navio-prisão — eram três deles no total. Eles confiscaram nossos passaportes e roubaram todos os nossos pertences. Não sobrou nada. Saímos de lá apenas com o passaporte e uma roupa de prisão fornecida por eles: um agasalho pesado entregue de propósito para nos fazer passar calor extremo no meio do deserto.

GGN: Foram quatro dias no navio? Vocês foram mantidos em alto-mar nesses navios-prisão antes de serem levados para Israel? Como foi a rotina de agressões ali dentro?

Cássio Pelegrini: Sim. Eles começaram a interceptar os barcos nos dias 18 e 19, focando primeiro nas embarcações que tinham mais cidadãos da Turquia, sendo ainda mais violentos com esses ativistas. No meu caso, após sair do navio militar e chegar ao navio-prisão, passei por uma verificação de passaporte e fui colocado em uma sala escura. Lá, cinco soldados começaram a me chutar e a me golpear com armas. Ainda tenho marcas dessas coronhadas nas costas e estou com uma costela fraturada. Quebraram meus óculos e molharam minhas roupas, sendo que fazia muito frio à noite em alto-mar.

Quando entrei no navio-prisão, a cena era distópica. Uma companheira me reconheceu, veio falar comigo e, quando avisei que estava com a costela fraturada, ela respondeu: “Tem muita gente aqui na mesma situação”. Havia outros seis médicos presos comigo, incluindo a irmã da presidente da Irlanda, a Dra. Margaret Connolly. Uma ortopedista. Começamos a examinar os ativistas para identificar as fraturas. Tudo o que tínhamos para aliviar a dor era a água e o pão congelado que nos davam como alimento. Usávamos os pães congelados como compressas em cima dos ferimentos.

Pouco tempo depois, os soldados entraram com escudos, jogando bombas sonoras e de fumaça. Alvejaram com balas de borracha os pés de um ativista que já tinha um ferimento por tiro no outro pé; esse segundo impacto causou uma fratura grave e ele precisou passar por cirurgias. A noite foi um pesadelo: éramos 188 pessoas espremidas em três contêineres. Não havia espaço e ninguém conseguia se acomodar por causa das dores e fraturas. No dia seguinte, organizamos uma coleta de dados para repassar aos advogados assim que tivéssemos contato. Só no meu navio-prisão, contabilizamos 35 fraturas, 22 pessoas com lesões de taser na região cefálica — sem contar os choques em outras partes do corpo — e 10 casos de violência sexual.

Chegamos à terra no dia 20. Antes de desembarcar, fomos obrigados a ficar quatro horas sob o sol, ajoelhados e com a cabeça no chão, enquanto tocavam o hino de Israel repetidamente 72 vezes. Fomos levados para um deck perto do navio onde havia uma tenda pequena. Ali, sofri outra sessão de espancamento. Eu gritava que estava com a costela quebrada, mas eles continuavam batendo. Fomos divididos em grupos de 10 pessoas enquanto os soldados tocavam músicas da banda Scorpions e riam; essa é uma das cenas que aparecem no vídeo do Ben-Gvir. Periodicamente, escolhiam alguém do grupo e levavam para dentro daquela tenda para bater ou estuprar. Eu conseguia ouvir os gritos das pessoas sendo violentadas sexualmente.

Depois, passamos por um processo de migração. No caminho, o policial que me escoltava oferecia o enforca-gato que prendia meus braços para que outros policiais apertassem ainda mais, cortando a circulação das minhas mãos. Ele me batia nas costas e me obrigava a repetir frases em hebraico. Quando finalmente sentei diante do delegado, exigi atendimento médico e a presença do consulado e de advogados. Há um grupo de advogados palestinos que defende os ativistas da flotilha, mas como eles demoraram a chegar, os agentes preencheram um formulário no computador em hebraico e me entregaram para outra policial. Como ela era baixa e não queria levantar o braço para me conduzir, me obrigou a andar basicamente ajoelhado.

Fui jogado em um camburão, um ônibus-prisão com celas minúsculas que mal cabiam duas pessoas. Ouvíamos cachorros latindo e pessoas gritando lá fora enquanto rodávamos por horas no deserto. Tive muito medo de ser levado para o centro de detenção de Sde Teiman, local que ficou famoso pelo caso documentado de estupro contra um prisioneiro palestino. Naquela ocasião, a promotora que divulgou o vídeo foi alvo de revolta da população israelense, e os militares estupradores viraram heróis nacionais, indo a programas de TV. Recentemente, a Corte de Justiça retirou as queixas contra eles e o próprio Ben-Gvir se encontrou com eles. Nós nunca sabíamos para onde estávamos sendo levados.

Colocaram 19 pessoas em uma cela de aproximadamente 3 ou 5 m². Comecei a examinar novos companheiros vindos de outros barcos e a identificar mais fraturas. Eles nos levaram para uma sala onde fomos obrigados a assistir a telas com cenas de pessoas sendo torturadas e decapitadas, enquanto os guardas diziam: “Esses aí são o Hamas, os seus amigos”. Depois, mesmo algemados nas mãos e nos pés, nos obrigavam a correr, o que fazia com que o metal das algemas ferisse gravemente nossos tornozelos. Tivemos que agarrar um colchão e uma coberta para entrar na cela onde passaríamos a noite — um espaço improvisado com lonas e cercado por arame farpado, sem banheiro e sem água corrente.

No meio da noite, um ativista cardiopata começou a ter dor torácica. Chamei os carcereiros para relatar a urgência e avisei que eu era médico. Eles simplesmente zombaram e disseram: “You’re not a doctor, you’re a bitch”. Passamos a noite ali. No dia seguinte, restaram 29 pessoas na cela, que não tinha camas para todos. Priorizamos os beliches de baixo para os fraturados sentirem menos dor ao se mexerem. O ambiente era repleto de poeira e ratos. Horas depois, fomos colocados novamente no camburão, sob calor extremo, e rodamos por duas horas no deserto. Eu achava que íamos para um tribunal ou para um encontro com a embaixada, até que vi pela fresta do veículo a palavra “aeroporto”. Sabia que seríamos deportados. Quem confirmou nosso destino final foi a própria tripulação do avião.

Eu estava muito preocupado com os sons de abusos sexuais que tinha ouvido. No avião, pedi para usar o sistema de rádio para avisar a todos os ativistas de que quem tivesse sofrido violência sexual precisava procurar a equipe médica assim que pousássemos em Istambul para iniciar imediatamente a profilaxia pós-exposição (PEP) contra o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Foram dias de profunda angústia, mas havia uma força coletiva que nos sustentava. Eu pensava muito nos brasileiros que foram torturados durante a ditadura militar e nos prisioneiros palestinos que enfrentam isso diariamente, sem escolha. Ao nos organizarmos para os atendimentos e coletas de dados, experimentei o significado de sumud — um termo palestino para descrever a resiliência, a resistência e os recursos desenvolvidos para resistir à opressão.

GGN: Ao desembarcarem em Istambul, houve alguma recepção oficial por parte da ONU ou de organizações internacionais para acolher e registrar esses depoimentos de violações?

Cássio Pelegrini: Sim. Quando pousamos em Istambul, 67 pessoas foram direto para o hospital e 12 precisaram ser internadas. Ativistas de países europeus como Espanha, França, Grécia e Alemanha retornaram quase imediatamente para suas nações, onde registraram seus depoimentos mais tarde. Havia uma equipe forense preparada pela delegação da Turquia e um hospital inteiro à nossa disposição. Passei a noite internado e foi lá que confirmei, por exames, a minha fratura na costela.

As lesões gerais eram gravíssimas. Havia companheiros com pneumotórax — quando ocorre uma perfuração no pulmão e o ar escapa para fora do pulmão. Colocar uma pessoa nesse estado em um voo comercial é um risco de morte imenso, porque os gases se expandem com a altitude. Israel nos enviou embora como se estivéssemos intactos, sem qualquer atendimento médico ou registro oficial de lesões em solo deles. Identificamos casos de lesão no fígado, fratura de vértebra, de osso nasal, dentes quebrados e braços fraturados — como o caso da companheira Ariadne, da delegação brasileira. Outros apresentaram rabdomiólise, que é uma lesão muscular grave que libera toxinas no organismo, sobrecarrega os rins e pode exigir hemodiálise. Houve ainda lesões oculares e traumas graves que exigiram cirurgia de urgência.

Tudo foi muito violento, mas é o reflexo do que é feito com os palestinos há décadas. A diferença é que temos um passaporte estrangeiro e uma pressão diplomática; sabíamos que aquela barbárie teria um fim para nós. Mas, para trás, ficaram mais de 9.000 prisioneiros palestinos, incluindo 400 profissionais de saúde e 400 crianças. Entre eles está o Dr. Safia, um colega pediatra que está preso há mais de 500 dias, sofrendo com fraturas na costela e problemas crônicos, sem qualquer assistência médica. É preciso questionar o contraste entre o olhar que o Ocidente lança sobre os nossos corpos e a desumanização aplicada aos corpos palestinos. Recebemos muitas mensagens elogiando nossa coragem, mas meu verdadeiro desejo é que esse mesmo olhar humano seja direcionado a um prisioneiro político palestino quando ele deixa o cárcere.

GGN: Você já está de volta a São Paulo. Houve algum contato institucional por parte do Ministério dos Direitos Humanos, do Itamaraty ou de qualquer órgão do governo brasileiro para ouvir o depoimento de vocês?

Cássio Pelegrini: Até o momento, não. Tivemos um suporte do consulado brasileiro enquanto estávamos na Turquia, mas desde que pisamos no Brasil, não recebemos nenhum contato ou apoio do Ministério dos Direitos Humanos ou das Relações Exteriores. Éramos sete brasileiros nessa missão; todos passamos por tortura e dois retornaram com fraturas e evidências físicas das agressões. Fica uma profunda sensação de desamparo. O governo acertou no início ao classificar a interceptação do navio em águas internacionais como um sequestro e exigir a libertação, mas Israel continua testando e rompendo todos os limites internacionais diante do silêncio de vários governos.

GGN: Esse discurso de defesa irrestrita de Israel que vemos na grande mídia ignora completamente essas atrocidades e tenta justificar o injustificável usando tragédias históricas. Como você, sendo pediatra, enxerga o impacto dessa mentalidade nas futuras gerações?

Cássio Pelegrini: Como pediatra, fico pensando em como é possível construir uma infância na Palestina ocupada ou em Israel sob essa realidade. Como explicar para as crianças que militares estupradores são transformados em heróis nacionais? É a institucionalização da cultura do estupro. Vemos cenas de jovens colonos agredindo palestinos na Cisjordânia; são adolescentes que poderiam ser meus pacientes, mas que estão sendo ensinados a odiar.

Eu acompanhava o trabalho da organização Defense for Children International, que infelizmente teve de encerrar as atividades devido à perseguição sistemática do governo israelense. Os dados deles apontam que mais de 12.000 crianças palestinas foram detidas desde o ano 2000. O número atual de 400 crianças presas é um recorde. Desse total, um quarto é mantido em celas solitárias, um quarto sofre agressões físicas explícitas e 97% são interrogadas algemadas, sem a presença de pais ou advogados. Elas são enviadas para prisões distantes onde as famílias não podem visitá-las devido às restrições do apartheid.

Proteger a infância deveria ser uma obrigação global e coletiva. No Brasil, temos o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cujo artigo 245 obriga o profissional de saúde a denunciar imediatamente qualquer suspeita ou confirmação de violência contra uma criança. Esse princípio deveria valer para o mundo. Recentemente, houve uma marcha de crianças em Gaza pedindo a libertação dos seus colegas presos em Israel. Não é concebível que uma infância seja moldada pelo medo constante de uma prisão militar arbitrária. Isso destrói o desenvolvimento psíquico de qualquer menor.

GGN: É um relato extremamente pesado, Cássio. É assustador ver a passividade dos governos e o apoio incondicional dos Estados Unidos diante dessa barbárie.

Cássio Pelegrini: Precisamos nos mobilizar e criar consciência para exigir ações concretas das autoridades. Iniciativas como o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) são fundamentais, embora a parte das sanções econômicas e diplomáticas dependa diretamente da coragem dos governos, onde infelizmente pouco acontece. A Flotilha cumpre o papel de ação direta: ela expõe a crueldade do Estado de Israel ao colocar civis, médicos, professores e bioconstrutores de várias idades, com as mãos para cima e carregando ajuda humanitária, sendo recebidos por uma força militar brutal e perversa. Isso rasga a propaganda oficial e mostra a verdadeira face da entidade sionista.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.