INTERCEPT BRASIL: ENVOLVIMENTO DA FAMÍLIA BOLSONARO COM VORCARO ESCANCARA A ENGRENAGEM DA CORRUPÇÃO NO BRASIL

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O escândalo do Banco Master revela como os ultra-ricos e a extrema direita se associam para moldar a política, mostrando que a raiz da corrupção no Brasil está fincada no sistema capitalista.

Sabrina Fernandes

No Fim do Túnel

Parte 7

No Fim do Túnel é uma newsletter da economista e socióloga Sabrina Fernandes que conecta os pontos entre ecologia, poder econômico e política global.


A REVELAÇÃO RECENTE DO INTERCEPT BRASIL DE QUE DANIEL VORCARO e sua fortuna estavam por trás do filme “Dark Horse”, produzido pela família Bolsonaro para contar, de maneira bastante enviesada, a história do ex-presidente condenado Jair Bolsonaro, causou um alvoroço no Brasil. Flávio Bolsonaro, que horas antes havia dito ser mentira, tentou moldar a narrativa, fingindo se tratar de mero apelo a um financiador privado qualquer para a realização de um projeto familiar.

Mas uma mensagem que diz “irmão, estou e estarei contigo sempre” não é trocada em simples transações financeiras. Essa nova etapa do escândalo Bolsomaster demonstra quão promíscua é a relação entre os ultra-ricos brasileiros e a extrema direita que insiste em roubar o povo, enquanto prega que Deus e o Brasil estão acima de todos.

A direita deturpa seu histórico de corrupção

Uma das vitórias políticas da direita brasileira foi a inserção no senso comum de que a esquerda rouba e é corrupta. É fato que há escândalos de corrupção também por representantes políticos de esquerda, desde a corrupção mais leviana de um parlamentar que se apropria de fundos públicos para si próprio, até esquemas mais elaborados de troca de favores e resolução de conflitos políticos através de liberação orçamentária. Mas a blindagem que a direita construiu para si não passa de uma narrativa cada vez mais frágil que esconde o quão enraizada está a corrupção no seu meio.

Um mito histórico e uma confusão sobre a base da corrupção são bem explorados pela direita para manipular a opinião pública. O primeiro se trata de uma ilusão de que durante o regime ditatorial militar iniciado com o golpe de 1964 não havia corrupção. Popularmente, propagam que os militares eram (ou ainda são) moralmente idôneos, incapazes de roubar, e que seu único interesse sempre foi zelar por ordem e progresso no Brasil.

Os próprios ditadores brasileiros investiram nesse ufanismo – como é praxe de ditadores fascistas que se escondem atrás do ultranacionalismo e ideias abstratas de unidade nacional – e representantes da direita conservadora e autoritária se munem desses sentimentos para eliminar dúvidas e questionamentos sobre seus afazeres.

Não se pode indagar sobre os interesses dos autoritários, já que tudo que fazem seria em nome do estado-nação. Qualquer visão contrária seria sinônimo de traição. Mas o que chamam de patriotismo, nacionalismo e amor ao Brasil sempre foi seletivo, voltado aos interesses de grupos específicos, tanto que não deveria causar estranhamento a obsessão dos mesmos com os Estados Unidos e o imperialismo.

É característica histórica do ufanista autoritário de estados pós-coloniais rogar por golpes e intervenções estrangeiras, crendo que uma força maior lhe concederá autoridade absoluta para moldar toda uma nação de acordo com os interesses financeiros e políticos de seus grupos. É um nacionalismo excludente que manipula a ideia de povo para, ao fim, governar apenas com uma elite de escolhidos e iguais.

Seu projeto depende de explorar e oprimir para se sustentar e é por isso que odeiam tanto os movimentos indígenas, negros, feministas e LGBT. Juntos, eles demonstram a complexidade de experiências de exclusão e violência entre as classes subalternas. É também por isso que odeiam propostas para a redução da jornada de trabalho. Mais tempo livre para o trabalhador é também mais tempo para se organizar e para se formar politicamente. Aumenta o risco de que o trabalhador brasileiro aprenda, por exemplo, que a ditadura militar foi um período altamente corrupto de nossa breve história como nação. 

O negacionismo da corrupção na ditadura se dá por várias razões, mas uma delas seria de que vários militares morreram pobres, então como seriam corruptos? Essa visão simplista e completamente falsa é levantada por figuras como o senador Omar Aziz, do PSD do Amazonas, buscando esconder o quanto práticas ilegais e relações duvidosas entre os gestores do estado e grande burguesia faziam parte do cotidiano da ditadura.

documentação histórica demonstra que o aumento do aparato estatal antidemocrático também abriu espaço para o pagamento de propinas e esquemas de favorecimento a empresários nos grandes projetos e operações do regime.

Relações espúrias entre o público e o privado

O apagamento do histórico de corrupção da direita e de regimes autoritários também serve ao falso diagnóstico da origem da corrupção. É muito fácil atribuí-la a um problema moral e mais ainda ao suposto tamanho gigantesco do estado. Neoliberais argumentam convenientemente que a esquerda prefere um estado gigantesco para facilitar a apropriação de recursos, mas, como a teoria é uma coisa e a prática é outra, a maioria dos neoliberais gostam do estado, desde que seja reduzido à sua função de facilitar o lucro e a concentração de renda.

Mecanismos de investigação e transparência democrática são rechaçados, frequentemente atribuindo métodos de participação social a “populismo” (palavra empregada de maneira esvaziada). Estado de bem estar social? Estado bem gerido para suprir necessidades do povo? Estado que garante justiça fiscal? Nada disso é bem-vindo para a direita, seja ela neoliberal ou desenvolvimentista.

O que sobra é o aparato do estado gerido ao lado da iniciativa privada, que nos empurra à privatização, mesmo quando diz fazê-la em nome do “desenvolvimento” – como já elaborei anteriormente nesta coluna. Se há imposto, que empresários possam se apropriar do seu uso para investimentos em setores que eles pretendem explorar. Ademais, em nome de uma visão torta de segurança pública, defendem a presença do estado nas periferias e espaços populares, pois estado bom é aquele que reprime e controla a população, nunca combatendo o crime na sua raiz, pois precisa do medo para justificar seu autoritarismo.

Assim, vai se aprofundando e se normalizando uma parceria entre as instituições estatais e grandes empresários que passa sem questionamentos, a não ser quando grandes escândalos de corrupção como o Bolsomaster são revelados.

Se Daniel Vorcaro conseguiu  comprar o apoio do senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí,que foi Ministro-Chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, é porque Vorcaro já sabia quão fácil é comprar os rumos políticos em um país que não questiona as amizades, contatos e representações entre os mais ricos e os supostos representantes do povo. Ciro apresentou a Emenda Master, que favoreceria as operações do Banco Master ao ampliar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão. 

As relações de Vorcaro e sua família são várias em Brasília. A cada etapa nova de investigação pela Polícia Federal ou por veículos do jornalismo investigativo independente, o powerpoint do banqueiro se torna grande o suficiente para tela de cinema. Por isso, surpreende, mas nem tanto, que Vorcaro fosse parceiro da família Bolsonaro em sua nova busca pela presidência. O financiamento de “Dark Horse” ofereceria oportunidade única de fazer campanha eleitoral sensacionalista, além de, claro, propiciar a distribuição de fundos para todos os aliados envolvidos, com grande peso no Centrão.

Aqui no Intercept Brasil, Orlando Calheiros já elaborou sobre o suposto orçamento total do filme e como levanta suspeitas a respeito do destino final dos milhões que Vorcaro prometeu e os milhões que de fato entregou. As relações entre a elite bolsonarista são tão diversas que atravessam prefeituras e fronteiras nacionais. Ainda assim, veículos da imprensa burguesa optam por negar o forte viés de direita e tentam a todo custo implicar Lula e toda a classe política na história, vide a capa da Veja em resposta ao áudio de Flávio Bolsonaro.

Acuse-os do que você faz

Parece que quanto mais difícil se torna esconder toda a corrupção da direita, mais a solução da imprensa e da elite brasileira passa por adotar de vez o lema de acusar a esquerda de ser o que a direita já é. Trata-se de uma tática antiga, mas ainda muito útil.

Um dos seus êxitos é que, talvez, se fosse vinte ou trinta anos atrás, um escândalo no nível do Bolsomaster seria o suficiente para enterrar a carreira política de muita gente. Mas hoje, como o negacionismo político opera através de dúvidas, fake news e contra-narrativas cada vez mais elaboradas, ao distrair a população e tentar jogar Vorcaro na conta de todo e qualquer político, retornamos a diagnósticos vazios sobre o problema da corrupção. Mesmo com nome e endereço, pode-se alegar que é um problema geral, sem solução direta, ou um mal profundo da política brasileira.

‘A corrupção cresce porque o acúmulo de poder e de capital que os corruptos buscam é permitido e incentivado na sociedade capitalista; é, na verdade, a razão de ser do capitalismo’.

É claro que não é simples expurgar a corrupção do Brasil, até porque ela está cada vez mais impregnada no cotidiano político em todo o mundo. Se antes a prática de insider trading levava a prisões e investigações internacionais no mercado financeiro, hoje o mundo permite apostar sobre guerras e operações estatais sem o menor pudor.

Já se suspeita que Donald Trump tenha favorecido previsões específicas com seu poder autoritário de manipular os Estados Unidos como bem quiser, ainda que especialistas e a imprensa internacional hesitem em referir ao trumpismo como o regime autoritário e neofascista que é. 

A corrupção está cada vez mais complexa e isso facilita sua normalização. Para combatê-la, não é suficiente exigir transparência institucional e autonomia investigativa. Isso é apenas o básico. A corrupção cresce porque o acúmulo de poder e de capital que os corruptos buscam é permitido e incentivado na sociedade capitalista; é, na verdade, a razão de ser do capitalismo.

Por isso mesmo, os corruptos temem tanto a política anticapitalista e críticas feitas pela esquerda radical. Em vez de reduzir a corrupção a defeitos individuais ou alegar que a corrupção é tão crônica que não há mais jeito, a crítica ao capitalismo bota o dedo na ferida ao lembrar-nos que tanto roubo existe porque foi dada à elite a permissão de acumular o que foi roubado.

Em uma sociedade tão desigual, onde bilionários são admirados e possuem porta aberta a quase qualquer sala de tomada de decisão, a corrupção existe porque ela faz parte da prática normal de exploração de classes.

Políticos em Brasília não defendem interesses específicos simplesmente porque acreditam neles ou porque carregam convicções ideológicas. Eles jantam com banqueiros, usam o jatinho de empresários, saem de viagem com os donos do agro. Na maior parte do tempo, conversam entre si e fazem propostas que nenhum movimento social tem acesso suficiente para contrapor. Quando há protestos e ocupações, a polícia chega para evitar que a resistência seja ouvida, sabendo que a elite se faz ser escutada sempre que convém. 

Dessa forma, é fácil empurrar políticos e partidos inteiros nas direções desejadas. Ambos os lados conseguem ter imóveis luxuosos e milionários em cidades onde muitos brasileiros passam fome nas ruas. Suas contas bancárias são blindadas, porque mesmo quando pagam impostos, o sistema tributário brasileiro é injusto e regressivo e nem faz cócegas no patrimônio da grande elite. Enquanto um Vorcaro é preso, tantos outros passam ilesos e usam o lucro gerado via privatizações, licitações e renúncias fiscais para comprar iates e reinvestir nos negócios de seus parceiros.

A riqueza e a concentração de renda dos ultra-ricos são de nível tão depravado, que o enriquecimento lícito e ilícito se misturam, tornando-se difícil identificar a origem de cada centavo, fazendo-nos crer que não há saída. Mas se eles gastam tanto dinheiro para manipular o sistema, é porque precisam travar os caminhos que colocariam um fim na sua farra. Portanto, a cada novo absurdo envolvendo a família Bolsonaro, Vorcaro, o Centrão e quem mais seja, lembremos da origem do problema. Bandeiras que atingem o lucro dos ultra-ricos, como a redução da jornada de trabalho, a taxação justa e a expropriação da propriedade especulativa, são armas poderosas na mão do povo. Elas abrem caminho para a justiça social e também para o combate sistêmico à tanta corrupção que não aguentamos mais.

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