MOISÉS MENDES: FLÁVIO PUXA A VELHA DIREITA PARA A COVA DO BOLSONARISMO

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Publicado por Moisés Mendes

Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro – Foto: Reprodução
Joaquim Barbosa reapareceu de novo, agora no velório de Flávio Bolsonaro, para saber como estão os que continuam vivos e se ele não pode ter parte na herança. Joaquim é o cara aquele que só é visto em momentos graves, geralmente ruins, e suscita a dúvida típica dessas circunstâncias: o que ele está fazendo aqui?

Quase sempre estão perscrutando, atirando o verde, jogando o anzol. Outros Joaquins vão reaparecer ou surgir do nada. Querem saber se podem ocupar a vaga do morto ou se pelo menos têm direito a alguma partilha.

Surgem porque o estrago do caso Flávio-Vorcaro pega a direita antiga, principalmente a do PP de Ciro Nogueira. A velha direita está desorientada como nunca esteve, nem no fim da ditadura. Quando os ditadores foram pra casa, a velha direita se reacomodou numa boa.

Alguns se recolheram, outros da velha Arena aderiram ao MDB, sem surpresa alguma, e a vida seguiu em frente com os disfarces possíveis de que aquilo era de novo uma democracia intocável. Mas aí Aécio fica beiçudo e golpista por ter perdido a eleição de 2014, fecha-se o cerco a Dilma, caçam Lula e surge Bolsonaro.

Estamos agora no começo do que seria o fim dessa era em que a extrema direita absorveu a velha direita, o centro e o centrão, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Paraná, no centro-oeste, com exceção do Nordeste. Tudo porque o filho ungido, que teria saído igualzinho ao pai, fez o que todos sabiam que iria fazer.

Continuou cuidando das coisinhas da família e não se livrou da obsessão por negócios com dinheiro suspeito, imóveis e agora filmes. No banco imobiliário de Flávio, o empreendedorismo a qualquer custo é mais importante do que o que lhe resta de bons modos numa disputa à presidência da República.

E assim é abalada não só a estrutura do fascismo no Brasil, mas de toda a direita. Desde 2018, a direita pós-Arena se submete em muitos Estados às vontades do bolsonarismo. No Rio Grande do Sul, aliou-se agora ao PL do Conoré Zucco, candidato de Bolsonaro ao governo, quando todos esperavam que se aliasse a Gabriel Souza (MDB), o vice-governador de Eduardo Leite, que em 2018 foi parceiro dos bolsonaristas.

O bolsonarismo que engoliu a direita desafia toda a velha estrutura pré-Bolsonaro a sobreviver sem Flávio, com Ciro Nogueira pulando num pé só e com Valdemar Costa Neto e assemelhados na fila da Polícia Federal.

É o drama que se expressa no título do editorial de sábado do Estadão, sobre “A direita diante de seu veneno”. Segundo o jornal, o que ainda chamam de campo conservador descobriu a “baixa estatura moral e política” do senador candidato.

Editorial do Estadão. Foto: Reprodução

Descobriu agora? Não. O próprio Estadão admite que “há anos, parte da direita trata o bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável”. Em nome de projetos urgentes e do abandono de referências que trouxeram o conservadorismo até aqui. Era o veneno.

O mundo sem os tucanos, com a imposição dos Bolsonaros e sem novas lideranças da direita que pudessem se apresentar como capazes de enfrentar Lula, é o pior de todos os mundos para o que sobrou do que um dia chamaram de conservadorismo ou de liberalismo ou anticomunismo. O bolsonarismo comeu a direita no almoço e o que restava da centro-direita no jantar.

Acontece aqui o que Trump fez com a direita americana, Milei está fazendo com a direita argentina e José Antonio Kast fará com a direita chilena. Eles destroem tudo o que antes funcionava como ideia e como barreira conservadora ao avanço das esquerdas. Mas o que temos hoje é um fascismo que parece se mostrar de curta duração.

No Brasil, eles falharam na tentativa de reeleição, falharam no golpe e ameaçam falhar agora no esforço para voltar ao poder. A velha direita, que havia virado hospedeira desse pessoal, perdeu autonomia e foi inviabilizada porque se envenenou com uma overdose de bolsonarismo. E vê agora os envenenadores se enfraquecerem.

Nesse momento de ameaça de abstinência, é dureza ficar dependendo da hipótese Michelle. A velha direita católica irá se jogar nos braços da pastora que até a família Bolsonaro rejeita? A direita do Antigo Testamento irá desfilar de braços dados com Silas Malafaia?

É um cenário ruim até para o diabo. E é nessas horas que aparecem os Joaquins Barbosas, aparentemente distraídos, perguntando várias vezes ao lado do caixão: morreu do quê, se até esses dias estava fazendo um filme com o Vorcaro?

Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) – https://www.blogdomoisesmendes.com.br/

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