‘VOAR SEM ASAS’: CONHEÇA A CASA DE URU E A COSMOPOÉTICA DOS PASSARINHOS PARA O POVO XUKURU

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ENCANTAMENTO

Observatório propõe educação ambiental inspirada nos saberes e práticas do povo originário, mas com tecnologia e ciência

Observatório dos Passarinhos busca regenerar paisagens e fortalecer saberes Xukuru | Crédito: Arte do projeto da Casa de Uru

Entre cantos, sementes e imaginação, os pássaros deixam de ser apenas parte da paisagem e se tornam mestres que ensinam outras formas de existir no mundo. Para o educador e agricultor indígena Iran Neves Xukuru, os passarinhos carregam uma “inteligência sutil”, capaz de orientar os tempos da natureza, conectar o humano ao sagrado e fortalecer relações de cuidado com a vida.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Iran afirma que “os pássaros são mestres de uma tradição de conhecimento e de uma cultura de floresta” e defende uma educação construída no diálogo entre diferentes saberes humanos e mais-que-humanos — rios, árvores, sementes e aves. A conversa aponta para um sentido de pluriepistemologia, em que “somos estudantes de planta, árvore, passarinho”, em uma “escola viva e regenerativa”.

Ao falar da Casa de Uru, Iran define o espaço como uma espécie de “gaiola invertida”, criada para convidar pessoas a observar e aprender com os pássaros em liberdade. “Quem ama liberta, não prende”, resume. Entre agrofloresta, espiritualidade, arte e educação, o observatório nasce como um lugar para “voar sem asas”, onde contemplar também significa “transver” o mundo e imaginar outras formas de relação com a natureza e o sagrado.

O projeto surge ainda como resposta à degradação ambiental e à histórica prática de aprisionamento de aves. O próprio uru — pássaro que dá nome ao povo Xukuru — praticamente desapareceu das matas da região. “A gente apresenta isso como um regresso do povo árvore-passarinho”, explica Iran. “Queremos criar condições para que esses seres, suprimidos da paisagem, possam voltar.”

A Casa de Uru é desenvolvida em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco e a Université de Nantes, envolvendo estudantes e pesquisadores das áreas de arquitetura, urbanismo e engenharia da complexidade. A estrutura está em fase final de montagem no Centro de Agricultura Xukuru do Ororubá, onde funciona a Casa de Sementes Mãe Zenilda.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Iran, como explicar o conceito da Cosmopoética dos Passarinhos? 

Iran Neves Xukuru: É uma relação que vai além da contemplação. O simbolismo da liberdade e do voar dos pássaros inspira uma liberdade criativa conectada à natureza e ao sagrado. Os pássaros carregam essa potência do símbolo divino. Ao mesmo tempo, nos convidam a entrar na mata, interagir com ela e dar asas à imaginação.

Minha relação com os pássaros passa pela ideia de voar sem asas, através do pensamento. Aprendemos muito com os pássaros. Existe uma coevolução nesse território. Ela envolve não apenas a inteligência da paisagem, mas também a inteligência sutil dos pássaros. Existe um saber-sentir no canto dos pássaros. Eles anunciam os tempos da natureza e orientam nossas leituras para o plantio, os cuidados com a terra e outras práticas de convivência. Os pássaros são mestres de uma tradição de conhecimento e de uma cultura de floresta.

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Para Iran Xukuru, a regeneração da terra degradada depende de um conhecimento baseado na ciência, na vivência com a natureza e na espiritualidade | Crédito: Pedro Stropassolas/Brasil de Fato

E como o projeto da Casa de Uru — Observatório dos Passarinhos — se junta nesse sentido? 

Nos últimos dez anos, tenho trabalhado na Agricultura do Sagrado, que promove uma agricultura de encantamento. Eu me considero um agricultor de encanto. E percebemos que os pássaros têm essa função. Por exemplo, o povo Xukuru, meu povo, seu nome deriva de um pássaro, o ‘Uru’, e da árvore ‘Ubá’. Então, com base na narrativa poética e potente de Xicão, de que o nosso povo vem do pássaro Uru e da árvore Ubá, nos inquieta não vermos mais essa espécie na região, talvez escondida com medo da predação humana. Estamos nos envolvendo em um projeto político e poético que apresentamos como um regresso do povo árvore-passarinho, para dar condições para que esses seres que foram suprimidos das paisagens possam voltar.

O projeto da Casa de Uru é o que chamamos de observatório dos passarinhos para trabalhar com um centro de educação de convivência. Para juntar as pessoas para conversar, observar a vida dos pássaros e como eles manejam florestas, despejam sementes. Aprender com esses pássaros. Somos convidados a voar sem asas. O espaço traz a potência de encantamento. Mais do que um observatório, pensamos o espaço como um ‘transvertório’, inspirado na ideia de Manoel de Barros de ver e transver o mundo. De certa forma, antecipamos o que vai acontecer, porque o pássaro está ali para nos dizer.

Qual o estágio do projeto? 

O projeto em si, a instalação, está na fase de conclusão. Ele é desenvolvido pela Universidade Católica de Pernambuco e pela Université de Nantes, da França. A instalação está sendo feita no Centro de Agricultura Xucuru de Ororubá, o Caxo, onde fica a Casa de Semente Mãe Zenilda. Neste momento estamos aproveitando as chuvas para compor alguns arranjos de policultivo, agrofloresta também com espécies nativas, que são atrativos e servem de alimento para passarinhos. Também estamos construindo jardins para beija-flores. Estamos preparando a paisagem para acolher e atrair os pássaros.

Além dos atrativos para os pássaros, a estrutura foi pensada para acolher bem as pessoas. Vamos ter um sistema de inteligência artificial capaz de registrar as aves e identificar as espécies que visitam a área. A partir disso, temos condições de saber o que fazer para atrair algumas aves. Vamos contar com um sistema de captação de água da chuva para abastecer o bebedouro dos pássaros. Também teremos um comedouro para as espécies. Vamos ter um espaço com bela paisagem, com proposta alimentícia, medicinal e também para, como digo, divino, celeste e passarinho.

Ao defender a questão ambiental, você sempre destaca também a importância dos pássaros. Como relacionar a cosmopoética dos passarinhos e a Casa de Uru com o necessário recaatingamento?

A questão espiritual dos pássaros tem todo o simbolismo e conexão sagrada e divina. Mas os pássaros são também verdadeiros mestres na arte de plantar, manejar e cultivar floresta.

A sabedoria, no nosso caso, está em saber que podemos aprender com esses seres mais que humanos. Existe toda a inteligência sutil, que nos provoca outra forma de perceber e organizar a vida. Isso também nos ajuda a reorganizar nossa forma de viver, porque há uma integração. A natureza nos ensina formas de cooperação, convivência e coexistência.

O tempo e a expressão da vida dos pássaros nos dizem algo que está para acontecer. Porque a natureza está ali para dizer. O tempo-encanto que temos na agricultura, no roçado, no preparo do plantio para a floresta, está muito conectado nesse tempo e vida dos pássaros. Então podemos aprender muito com os pássaros no sentido de uma relação mais harmoniosa e respeitosa com a natureza e com o sagrado. É essencial promover condições favoráveis para vida dos seres, e em especial dos pássaros.

Projeto Xukuru une agrofloresta, observação de aves e saberes ancestrais em Pernambuco | Crédito: Arte do projeto Casa de Uru

Iran, no sentido inverso, há uma cultura na sociedade que costuma prender os pássaros. Como analisar essa perspectiva contrária?

Esse projeto da Casa de Uru funciona como uma gaiola invertida. Ou seja, convidamos as pessoas para ficarem lá dentro. Não há grades, mas uma estrutura que, para quem estiver dentro, traz a percepção de uma gaiola invertida ou desgaiola. E a Desgaiola é um projeto político, poético e pedagógico que já fazemos na região, para transformar as gaiolas que conhecemos. Fazemos campanha por aqui para que as pessoas soltem os pássaros. Existe, infelizmente, essa cultura de dominação e de predação da natureza e do sagrado, em que os pássaros são aprisionados justamente por cantar bonito. Provocamos essa conscientização coletiva para que as pessoas soltem os pássaros e possamos dar qualquer outra função à gaiola.  Então é o que chamamos de desgaiola, em um sentido amplo. Desgaiola da poesia, da medicina, das sementes. Nesse processo libertário, criamos arte. Nesse sentido, promovemos oficinas.

Algumas vezes é um pouco complicado fazer campanha para soltar os pássaros. As pessoas são muito apegadas e precisam ressignificar a relação equivocada de amor. Quem ama liberta, não prende. Muitas vezes, o tempo de prisão dos pássaros é tão grande que eles perdem a capacidade de viver livremente e se alimentar. Mas trabalhamos também o simbolismo da soltura dos pássaros. Por exemplo, ministramos oficinas sobre a feitura e soltura das aves com as palavras, ligamos às infâncias com o papagaio, que é a pipa em uma relação educativa.

Neste ano, vamos realizar de forma organizada, enquanto movimento, o nosso primeiro “Passarinhal” ou “Passarinhamentos”, que vai promover um encontro para discutir a temática dos pássaros. As atividades devem se juntar às trilhas na mata da Boa Vista que já realizamos há um tempo para observação de pássaros. Temos um grupo de observadores dos pássaros, e fazemos esse movimento como um processo de formação. Ou mesmo, de desformação, para sairmos das formas, e discutirmos a própria importância de observar e promover a liberdade para os pássaros.

Para isso trazemos a filosofia orgânica e potente de Ailton Krenak, de que a vida não é útil. Então, muitas vezes, quando as pessoas pedem para explicar esses projetos, eu explico que é do DPI, o Departamento de Projetos Inúteis. Então é uma forma de provocar nesse sentido de reflexão. Além da Casa de Uru, estamos elaborando o nosso manual de tratativa de como se relacionar com a mata, sem abrir mão da poética. Temos uma grande parte escrita sobre o “desuso da mata”.

Com a Educação Xukuru e a academia, entre outros espaços, temos uma produção partilhada de conhecimentos. Como analisar esse processo?  

Como nesses trabalhos e projetos, partimos do princípio de uma essência de que a natureza é a casa-morada dos encantados, mas é também a nossa escola aberta. A partir daí, tem uma confusão saudável, que nos motiva mais ainda nesse processo, que é lidar com saberes vivos em movimento, nos convidando a caminhar, aprender e ensinar. Os animais da floresta, incluindo os pássaros, são seres mestres e aprendemos com eles também.

Consideramos a natureza casa de encantamento e escola viva e regenerativa. Então, de certa forma, promovemos uma educação de convivência, com bom conviver. Aliás, o bom conviver muitas vezes é visto apenas como uma reflexão de “o que é bom para a gente”, para os humanos. Mas há um esquecimento dos mais que humanos. No nosso caso com os pássaros, vamos além de uma educação específica e local; pensamos em uma saúde que inclui também os seres mais-que-humanos. Nos preocupamos com o corpo doente que não é humano, o corpo-rio, o corpo-pedra, ou com esse ato doentio, anomalia de botar passarinho na gaiola.

Cuidamos dessa escola, mas ela é tão potente que passa a ser a nossa pluriversidade, do ponto de vista da biodiversidade. Nós somos estudantes de planta, árvore, passarinho, de seres mestres que não devem estar em gaiolas. São mestres pelo simples fato de existirem e viverem, e nos conduzem, ao mesmo tempo, a ensinar.

Editado por: Luís Indriunas

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