DOCUMENTÁRIO, ‘REJEITOS’ DE PEDRO DE FILIPPIS, MOSTRA IMPACTO DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM: “PESSOAS SÃO TRATADAS COMO REJEITOS”
afinsophia 12/05/2026 0
BRUMADINHO
Pedro de Filippis, diretor do documentário Rejeitos, fala que crimes em Brumadinho e Mariana seguem em curso
Para Pedro de Filippis, diretor do documentário “Rejeito”, os rompimentos das barragens em Brumadinho e em Mariana podem ser considerados crimes que seguem acontecendo.
“A gente vê isso agora de Norte a Sul do estado, com as terras raras, com a invasão do Jequitinhonha, com a tentativa de roubar o nome de Jequitinhonha para o Vale do Lítio. Minas Gerais, historicamente, sofre esse rompimento, essa invasão em busca dos recursos que aqui tem. São razões geológicas; a gente tem tanta riqueza nesse estado, e também é a razão pela qual o estado é tão marcado pela tentativa de exportação desses bens”, relata Pedro.
O documentário, que ganhou o prêmio de júri de melhor longa-metragem na competição Territórios e Memória da Mostra Eco Falante em 2024, demonstra como essas empresas mineradoras lidam também com as pessoas presentes nos territórios de interesse de emplora. Na visão de Pedro, essas empresas olham essas populações como problemas. “Essa definição abre o filme, para deixar bem claro que é uma ação das mineradoras em relação a essas pessoas. As pessoas são tratadas como rejeito de fato. É o que a gente vê no nosso território”.
O longa-metragem, que já rodou por diversos festivais, está disponível para o público na plataforma DOC Canal Brasil e também pelo Canal Brasil, canal por assinatura.
Leia a entrevista completa:
Brasil de Fato: Os rompimentos de barragens em Brumadinho e Mariana são dois acontecimentos que ainda não tivemos as devidas responsabilizações criminais e há traumas que seguem vivos na vida dessas pessoas que vivem próximas a barragens. Te parece que é importante qualificarmos como crimes em curso, não que aconteceram?
Pedro de Filippis: Perfeito. Eu vou trazer uma frase da professora Andreia Zuri, uma grande pesquisadora da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais], sobre os conflitos socioambientais, em relação à mineração em Minas Gerais. Ela fala que “o rompimento está em curso”. Um rompimento simbólico que carrega suas raízes coloniais e segue acontecendo.
A gente vê isso agora de Norte a Sul do estado, com as terras raras, com a invasão do Jequitinhonha, com a tentativa de roubar o nome de Jequitinhonha para o Vale do Lítio. Minas Gerais, historicamente, sofre esse rompimento, essa invasão em busca dos recursos que aqui tem. São razões geológicas; a gente tem tanta riqueza nesse estado, e também é a razão pela qual o estado é tão marcado pela tentativa de exportação desses bens.
E tanto em Brumadinho quanto em Mariana, realmente são vistos, pelos movimentos sociais, pelas comunidades ou pelas pessoas, pelos pesquisadores que acompanham essa pauta, como a ponta do iceberg. Foram tragédias anunciadas, porque, para quem acompanha os bastidores, entende que existe muita fragilidade em todo o processo de condução, desde a instalação, o projeto dessas minas até a sua execução de fato.
Estamos falando de barragens que estão dentro do complexo minerário, o que é menos investido, porque é a única estrutura que não gera lucro para a empresa. Então, de fato, são estruturas abandonadas. Além de serem construídas com as técnicas mais baratas disponíveis na engenharia, o que inclusive é permitido em poucos países. Então, a gente vive mesmo um surto, passamos por vários minerais, vários ciclos, desde o ciclo do ouro, o ciclo do minério de ferro e agora, de novo, a gente vê Minas Gerais sendo protagonista na transição para um novo ciclo chamado de minerais essenciais.
Chamado pelo próprio setor da mineração de essenciais, que está tentando empurrar goela abaixo a necessidade de minerar. E isso se junta ao discurso do próprio Estado, que quer vender a ideia de que, se tem minério, tem que minerar. O tabu, o modelo econômico que foi escolhido para esse território, nunca pode pleitear outro horizonte mais próspero, que é o que tantas pessoas reivindicam aí, principalmente as comunidades tradicionais.
Eu queria fazer uma referência a um artista visual mineiro chamado Paulo Nazaré, de Governador Valadares que fala que Minas Gerais já nasceu com o nome de companhia, com o nome de empresa. Isso que você falou: se tem mineral, tem que minerar. Não existe outra maneira de olhar para essa riqueza e pensar numa riqueza para a população, para o solo. Mas, pra gente entender, como a mineração atravessa a tua vida? Tem alguma relação pessoal ou realmente foi um objeto de pesquisa sobre o qual você se debruçou profissionalmente?
Eu cheguei ao cinema por causa da mineração. Foi um caminho para os conflitos de mineração; eles me puxaram para querer fazer algo. Eu sou de Belo Horizonte, cresci aqui e a cidade tem uma geografia interessante, ela é rodeada por serras. A mais conhecida é a Serra do Curral. E essas serras escondem as minas de alguma forma dos belo-horizontinos. Então os conflitos eles estão, muitas vezes, além dessa serra, no caso da Serra do Curral, você passou o cume, já tem uma mina.
Eu posso citar várias outras no entorno aqui, que nós, a militância, chamamos de quadrilátero aquífero ferrífero, que é onde tem a água também que abastece parte de São Paulo e também Minas. É uma questão geológica muito interessante, porque ela é endêmica.
O tipo de minério que acontece nessa região aqui, só acontece aqui no mundo inteiro, que são as cangas ferruginosas. Elas formam esse quadrado, por isso que isso se chama quadrilátero ferrífero. Então os conflitos eles estão circulando em Belo Horizonte, mas chegam de forma invisível, ou seja, ele está diluído nas camadas sociais. A gente entende, depois de visitar essas comunidades que estão no front dos impactos, que Belo Horizonte também é impactada, Minas Gerais como um todo.
E meu contato com essas comunidades foi na escola. Tinha um amigo, que era de uma comunidade ao lado de Socorro, que é a comunidade que é retratada no documentário: Rejeito. Ele veio estudar em Belo Horizonte, no ensino médio. Vários vêm em busca de educação do ensino médio para, para a universidade e tudo E comecei a frequentar essa comunidade ali, e, naquela época, foi a primeira tentativa de licenciamento da segunda maior mina de minério de ferro do Brasil, a primeira em Carajás, no Pará, e o projeto da segunda mina, que é o projeto Apolo da Vale, era para acontecer numa serra que se chama Serra da Gandarela, que fica em linha reta a 15 quilômetros de Belo Horizonte, é superperto, mas é pouco conhecida. Mas é de onde também vem 60% da água que abastece
Belo Horizonte e região metropolitana, então nós estamos falando de quase 5 milhões de pessoas.
E é a última remanescente de canga ferruginosa, que é justamente o filtro dessa água que a gente tem chamado de mineral. Não é à toa que é mineral. Tem a canga, que funciona como se fosse a vela do nosso filtro de barro brasileiro.
Esse minério é esponjoso; ele vai filtrar essa água e soltar ela durante o ano inteiro, por isso que a gente tem essa qualidade de água. E esse projeto ameaça essa última fonte de abastecimento de 5 milhões de pessoas. A gente está falando da segurança hídrica dessa região, que é o projeto Apolo.
Então, eu comecei a acompanhar o conflito com aquela comunidade; inclusive, vi a primeira reunião de uma suposta consulta popular da empresa Vale nessa comunidade. Eu fiquei espantado com o show de horrores, que é retratado também no Rejeito. Que essa forma dissuadida de se colonizar, por isso que a gente fala de pós-colonialismo, que é uma forma do setor privado, junto com o Estado também, de se apropriar de lugares e territórios que não têm a chance de dizer não. Eles não têm a chance de optar pelo próprio futuro. E a grande questão que a gente debate hoje em dia
Então, fiz o meu primeiro curta em 2008. E depois segui contribuindo com os movimentos sociais, tive pesquisando mais recentemente a mineração de lítio na Austrália, na América do Sul, então fui expandindo a pesquisa em mineração e sempre tentando traduzir isso através do cinema documentário, que é a minha ferramenta de luta.
E agora, Pedro, eu te pergunto se é uma proposta mesmo. O nome do documentário [Rejeito] pode ser uma metáfora, do que significa explorar a mineração, ao mesmo tempo que também é a maneira como a Vale e todas essas outras empresas privadas olham para essas populações que estão no local onde justamente se pretende minerar. Vendo essa população apenas como um empecilho, como um problema?
Certamente, inclusive essa definição abre o filme, para deixar bem claro que é uma ação das mineradoras em relação a essas pessoas. As pessoas são tratadas como rejeito de fato. É o que a gente vê no nosso território.
Pode parecer até uma abordagem um pouco dualista: somos bonzinhos e temos um inimigo. Mas eu estou tendo a chance de acompanhar agora as audiências do processo de Brumadinho. São pré-audiências ainda, para o julgamento que vai acontecer. E é impressionante escutar as pessoas que sobreviveram, principalmente as que acompanharam essa barragem durante anos da vida. São operários que estavam lidando com essa barragem há 20 anos diariamente. Pessoas que sentiam a barragem, que viam os problemas, que relatavam diariamente, mas por ser peões, por morarem na comunidade, não foram escutados. E os protocolos não foram seguidos.
Estamos falando de sete meses antes de ela romper. Essas pessoas já apontaram problemas com essas barragens, que são pessoas técnicas que lidavam com elas, mas não tinham acesso ao sistema interno da Vale para registrar de fato isso no sistema operacional da Vale para registrar essas queixas. E a pessoa, claro que era quem deveria fazer isso; ainda não se sabe por que não fez. Isso não é nada novo que eu estou dizendo. Durante a própria investigação da Polícia Federal se concluiu isso.
O povo mineiro é considerado pacífico ou resiliente, que é uma palavra que tem sido muito usada pelo setor corporativo, a tal da resiliência, de uma forma distorcida, dando a entender que nós conseguimos engolir tudo. E que, nesses territórios, as pessoas vão engolir tudo.
E isso é extremamente problemático quando se torna uma estratégia. E a gente tem visto isso de forma sistemática em vários territórios.
Tem uma cultura empresarial, que é criada e que ela se instala nessa empresa, a forma de lidar com esses territórios. São as estratégias que funcionam, mas que ela já se afastou tanto da humanidade, já se afastou tanto de questões elementares de respeito ao próximo, inclusive de desrespeitar os direitos humanos, que isso se tornou de fato algo de má-fé, ações de má-fé, e estamos vendo o resultado. Tomara que esse julgamento prove isso. Para colocar na mesa essas questões que são ditas entre os movimentos sociais e não são conspirações, são fatos. Essas empresas sabem do risco, fazem os estudos, levantam esse risco, mas escolhem não investir; são questões econômicas, são opções financeiras. Vale mais a pena romper e fazer a reparação de x famílias do que investir numa barragem.
Às vezes são decisões tomadas, nesse nível que eu estou falando, de trocar vidas por investimento financeiro, que não são feitas nem em Minas Gerais, decisões tomadas por pessoas assim sentadas atrás de mesas, tomando recentemente, e que eu espero que elas sejam penalizadas, porque essas pessoas estão tratando o território como rejeito.