ELIARA SANTANA: “DONA MARIA E A TRAMOIA DA EXTREMA DIREITA”: NADA É MERA COINCIDÊNCIA
afinsophia 27/04/2026 0
Mesmo não sendo uma mulher de verdade, Dona Maria é mais que um simples “avatar de IA” criado por um aplicativo. É um fenômeno nas redes.

Perfil de IA criado para ataca Lula, supostamente por motorista de aplicativo, é produto perfeito da desinformação bolsonarista. Eliara Santana mostra o que há por trás do avatar
por Eliara Santana

Dona Maria ganhou o Brasil e o mundo. Uma mulher idosa, negra, moradora da periferia, que fala muito palavrão e se diz “indignada” com a situação do país. Mas Dona Maria não é uma mulher real – pelo menos não nessa dimensão a que ainda estamos acostumados. Dona Maria é um avatar de Inteligência Artificial que foi SUPOSTAMENTE criado por um motorista de aplicativo da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro, que estava sem muito o que fazer, meio revoltado com a tal situação do país e fez a personagem inspirada em sua avó, segundo ele contou à reportagem da BBC Brasil.
Na descrição do perfil do Insta, aparece o seguinte: “Dona Maria, voz do povo brasileiro de bem. Conteúdo baseado na realidade dos brasileiros e construído junto com a comunidade”.
Mesmo não sendo uma mulher de verdade, Dona Maria é mais, muito mais que um simples “avatar de IA” criado por um aplicativo. É um fenômeno nas redes. E um fenômeno que cumpre uma função bem específica: falar mal, muito mal, de Lula, do seu governo e do STF. Ao contrário do que pode parecer pelo nome do perfil, não se trata de uma vovó legal falando sobre bordado ou comida. Dona Maria é um perfil político com altíssimo potencial de engajamento. E até que me provem de verdade o contrário, esse perfil é o produto perfeito do ecossistema brasileiro de desinformação, essa estrutura poderosa criada e alimentada pelo bolsonarismo.
Segundo reportagem da BBC Brasil, pelo menos 12 vídeos da página tiveram mais de 1 milhão de visualizações em menos de um ano. A matéria também mostra, a partir de levantamento próprio e de uma consultoria, uma comparação com outros perfis sobre política no Insta, e o resultado é: “A média de interações por publicação (comentários e curtidas) no Instagram desta personagem de IA no último ano foi semelhante à de políticos de diferentes espectros, como da senadora Damares Alves (Republicanos) e do deputado Lindbergh Farias (PT). Foi também maior, no período, em média de interações por publicação, do que páginas como a do ex-governador de Goiás e pré-candidato a presidente Ronaldo Caiado (PSD), segundo este levantamento. Foram analisadas interações em publicações de julho de 2025 até a primeira semana de abril deste ano”.
E já que estão tomando o perfil como fruto de uma ação espontânea e alegoria de um motorista de aplicativo, acho que precisamos desnudar o que Dona Maria tenta esconder. Vamos a alguns elementos:
1 – O personagem

Dona Maria é uma criação perfeita. Até o nome da personagem evoca brasilidade, brasileiro raiz, gente de bem. Pobre, negra, periférica, possivelmente evangélica, que mata um leão por dia para sobreviver e reclama no supermercado. É a vida real de milhares de mulheres. Transposta para a realidade paralela da desinformação, onde ela ganha os contornos de uma mulher engajada e consciente de suas raivas e seus direitos e canaliza sua indignação. Dona Maria existe e não existe ao mesmo tempo. Eis o dilema que o ecossistema brasileiro de desinformação conseguiu tornar produtivo.
Detalhe 1: A avó do criador não falava palavrão. Então, de onde veio a inspiração para essa criação tão acertada?
Detalhe 2: O criador não é negro. Por que, então, a criatura é uma mulher negra? Um motorista de aplicativo com a silhueta e o perfil do criador iria criar um personagem baseado em si próprio – homem, branco, meio machão, com falas indignadas e possivelmente machistas. Nunca uma mulher negra, periférica, idosa.
Detalhe 3: O perfil imagético da personagem foi sendo refinado. Na verdade, são “donas Marias”, que vão se parecendo mais e mais e mais com vovós indignadas reais do que com um avatar de IA. Confiram:
2 – Discurso de base bolsonarista
“Eu já estou revoltada com essa p*, Brasil. E o molusco (referência ao presidente Lula) está calado. Agora que o povo está levando no r* com taxa gringa, ele está calado igual siri na lata. Cadê o povo na rua? Cadê panela batendo, cadê o grito, cadê a revolta? Ou todo mundo virou planta? Porque eu tô aqui gritando e só escuto o vento e a taxa vindo.”
De acordo com a reportagem da BBC Brasil, o vídeo que contém essa fala de Dona Maria sobre a situação do país, publicado em 10 de julho de 2025, atingiu 8,8 milhões de visualizações e teve mais de 23 mil comentários.
Observem o tom agressivo, briguento, bem articulado, pontuando os problemas de modo rápido, resumido e direto – com muitos palavrões recheando tudo.
Em outro vídeo (analisei vários da página), Dona Maria diz o seguinte, comentando uma demissão no IBGE: “O golpe está dado no IBGE. Demitiram quem protege a verdade para fabricar número falso (…) Mataram o dado pra salvar o governo”. Vejam que resumo contundente, direto ao ponto, nomeando o feito como “golpe”, palavra cara no momento ao bolsonarismo.
Lembram-se do que já falei aqui sobre os temas sensíveis que são “traduzidos” pelo discurso bolsonarista? Pois é. Discursos como esses JAMAIS podem ser considerados como resultado de simples procura do motorista de aplicativo pelos temas do momento.
Em outra postagem, Dona Maria reproduz cards em defesa de Jair Bolsonaro, material esse muito bem produzido e cujo teor temático circula nas redes bolsonaristas com grande destaque.

Há ainda uma série especial feita no supermercado. Nos vídeos, Dona Maria, muito exaltada, reclama dos preços. Em um deles, ela diz: “O gás tá um roubo, o leite é artigo de luxo, e o molusco vem dizer que tá tudo sob controle?”.
Quais são as marcas que ficam explicitadas por esse discurso nesses vídeos? Agressividade, defesa de Jair Bolsonaro, culpabilização de Lula, apresentado como inimigo comum, linguagem muito coloquial com muitos palavrões, a marcação de temas que o espectro bolsonarista evoca a todo o instante (como carestia no supermercado, corrupção, golpe, Bolsonaro inocente).
Quem nós conhecemos bem que usa a agressividade como linguagem? Que faz questão de usar palavreado chulo? Que se gaba da falta de cuidado com a linguagem?
Segundo o criador do vídeo, na entrevista à BBC, esse tom agressivo não era da avó, mas ele usou porque entendeu “que é uma linguagem necessária para sobreviver nas redes sociais”. Que gracinha, muito aplicado o rapaz.
3 – Construções referenciais
Qual pessoa comum vcs conhecem, da periferia, que chama Lula de molusco? Não há. Molusco é uma palavra muito requintada para o linguajar popular cotidiano. O “adjetivo” pejorativo para se referir ao presidente ganhou notoriedade com o avanço da Lava Jato, tendo começado ainda no rescaldo do mensalão.
Depois de prestarem atenção, comparem os vídeos de Dona Maria a vídeos de vários políticos influentes no campo da extrema direita – vocês verão uma quantidade imensa de semelhanças.
Por fim, a ideia de “povo brasileiro de bem” não é algo aleatório, é uma construção bem marcadora e marcante de determinada corrente política. Não é construção que brota do imaginário popular.
4 – Modus operandi
O perfil e seus vídeos e discursos revelam um jeito de fazer, um modus operandi, um padrão. Isso não brota, minha gente. Isso não é “espontâneo”.
NADA EM DESINFORMAÇÃO é espontâneo. Tudo é fruto de MÉTODO e INVESTIMENTO. Muito investimento. Se seguirmos o rastro do dinheiro, vamos descobrir, tardiamente claro, quem bancou essa criação.
5 – A construção narrativa
Observem as pautas que Dona Maria apresenta e destrincha com propriedade. Temas complexos traduzidos para a linguagem popular. Temas colocados num timing perfeito.Temas como preço elevado de alimentos no supermercado, golpe no IBGE, Previdência, corrupção do STF e vários outros são esmiuçados e traduzidos para que todo mundo compreenda.
Segundo o criador do perfil, na entrevista à BBC, ele pesquisa “os assuntos que mais estão circulando nas redes sociais naquele dia, com mais engajamento, e o mais popular vira a pauta”. Alguém realmente acredita nisso? Que construções narrativas potentes e bem articuladas brotam assim, só da observação? Os discursos são afinadíssimos, coerentes, sem furos, bem plásticos, formatados, para pronta-entrega.
O perfil Dona Maria tem aquele elemento-chave na consolidação da desinformação que é a mobilização permanente pela manipulação da raiva. Temas importantes, relevantes, que sensibilizam são exacerbados, explorados, provocam as emoções e aglutinam, atraem. A mobilização pela raiva é mais efetiva que a mobilização pelo amor, infelizmente.
O fio entre o que é real e o que é realidade paralela é cada vez mais tênue no Brasil. Não interessa se Dona Maria é fake ou não, se é inteligência artificial ou não. 2 + 2 = 5, já dizia George Orwell lá atrás, em 1984. O que importa é como se constrói a percepção do real. Dona Maria é, em muitas medidas, real sim. Porque ela representa um perfil da população invisibilizado, que fica com raiva na fila do supermercado porque a informação que circula diz que a vida piorou. Essa população ganha voz com Dona Maria.
IA ou não, pouco importa – que diferença faz, se ela toca o cidadão, se ela interpela o cidadão em suas raivas, insatisfações, desejo de mudança? Emoções negativas que são propositalmente canalizadas para um “inimigo” comum: Lula. É o roteiro perfeito, sem furos, produzido por mestres e doutores em desinformação.
Dona Maria conduz a raiva. E pode conduzir o voto.
Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
