Como a social-democracia europeia e o PT brasileiro abriram mão do desenvolvimento e pavimentaram o caminho para a própria derrota

Foi relevante o discurso de Lula no encontro da social-democracia espanhola.Lula apontou, nas entrelinhas, para o percurso de boa parte da social-democracia europeia nas últimas décadas:
- Aceitação da austeridade fiscal como dogma
- Redução do papel do Estado na indução do crescimento
- Perda de conexão com a base trabalhadora
- Tolerância à desindustrialização
Sem dizer explicitamente, a crítica era clara: a social-democracia, ao tentar parecer “responsável demais”, acabou ficando irrelevante para quem mais precisava dela.
O resultado está à vista: enfraquecimento das políticas públicas, erosão da base eleitoral trabalhista, ascensão de populismos de direita que ocuparam o espaço deixado vazio pela esquerda moderada. A social-democracia ajudou a construir as condições de sua própria irrelevância.
O momento da virada: os anos 1990
A capitulação tem uma data relativamente precisa: a década de 1990, quando a social-democracia europeia internalizou o diagnóstico neoliberal sobre o papel do Estado. Tony Blair no Reino Unido e Gerhard Schröder na Alemanha foram seus símbolos mais acabados — mas o fenômeno foi continental.
O argumento era de modernização: a globalização havia mudado as regras do jogo, os mercados financeiros tinham poder de veto sobre as políticas nacionais, e a esquerda precisava adaptar-se à nova realidade ou tornar-se irrelevante. A Terceira Via blairiana foi a formulação mais sofisticada dessa rendição: mantinha a retórica da justiça social enquanto abandonava os instrumentos que historicamente a produziram.
O que foi abandonado, concretamente? O controle sobre os fluxos de capital. A capacidade de política industrial ativa. A progressividade tributária real. A propriedade pública de setores estratégicos. A regulação do mercado de trabalho como proteção estrutural — não como favor. Em suma: tudo aquilo que havia transformado o capitalismo do pós-guerra num sistema capaz de redistribuir riqueza de forma sustentada.
O que permaneceu? A retórica da inclusão, agora financiada não por redistribuição de renda, mas por crédito — democratização do endividamento apresentada como democratização do consumo. As classes populares ganharam acesso ao crédito barato no lugar do emprego estável e do serviço público de qualidade. Quando a crise de 2008 chegou, a armadilha se fechou.
O caso brasileiro: a herança da “Carta ao Povo Brasileiro”
No Brasil, o episódio fundador da capitulação tem nome e data: a “Carta ao Povo Brasileiro”, de junho de 2002, pela qual Lula comprometeu-se, antes mesmo de ser eleito, a respeitar os contratos, manter o superávit primário e honrar os compromissos com o FMI. Era um sinal ao mercado financeiro de que o novo governo não perturbaria a arquitetura construída no período Fernando Henrique Cardoso.
A carta era politicamente compreensível — o terrorismo econômico da oposição e da mídia havia criado uma crise cambial real no segundo semestre de 2002, com o dólar superando os 3,50 reais. A sinalização de moderação era necessária para evitar uma crise antes mesmo da posse.
O problema não foi a carta. Foi que a postura nela contida tornou-se permanente, quando deveria ter sido transitória. Lula não apenas respeitou os compromissos — foi, como ele próprio definiria a partir de 2003, “mais responsável que a direita”. A taxa Selic permaneceu em níveis absurdamente elevados por anos. A política de superávit primário foi mantida com rigor que constrangeria qualquer governo europeu de centro-direita. A abertura financeira herdada de FHC não foi tocada.
O argumento era pragmático: era preciso primeiro estabilizar para depois distribuir. E de fato houve distribuição significativa — Bolsa Família, aumento real do salário mínimo, expansão do crédito, políticas de inclusão que retiraram dezenas de milhões da pobreza. O primeiro e o segundo mandatos de Lula produziram resultados sociais inegáveis.
Mas o núcleo duro do modelo financeiro permaneceu intacto. Os juros reais mais altos do mundo continuaram transferindo renda do setor produtivo para o financeiro, do trabalho para o capital, do orçamento público para os detentores de títulos. A desindustrialização avançou silenciosamente, acelerada pela combinação de câmbio apreciado e abertura comercial. A base produtiva que sustentaria um desenvolvimento mais robusto foi sendo corroída justamente nos anos em que o crescimento das commodities criava a ilusão de prosperidade.
Dilma e o custo da tentativa heterodoxa sem base política
O governo Dilma Rousseff tentou romper com partes desse arranjo — e a experiência é instrutiva precisamente porque fracassou.
A redução forçada da Selic no início do primeiro mandato, a desoneração de setores industriais, a política de campeões nacionais, a contenção tarifária de energia: eram tentativas reais de política industrial e de subordinação do capital financeiro ao projeto produtivo. Algumas foram tecnicamente mal executadas. Todas encontraram resistência violenta do setor financeiro, da mídia e, eventualmente, de parcelas do próprio empresariado industrial que havia sido beneficiado.
O que faltou a Dilma não foi apenas habilidade técnica — faltou base política para sustentar a heterodoxia sob pressão. A social-democracia brasileira havia passado tantos anos cultivando a confiança dos mercados que não havia construído a alternativa: um bloco de forças sociais e políticas capaz de sustentá-la quando o capital financeiro reagisse.
É o paradoxo clássico das concessões graduais ao adversário: ao tentar neutralizar a oposição do mercado financeiro demonstrando responsabilidade, o PT foi gradualmente abandonando os instrumentos e as alianças que lhe dariam capacidade de agir quando necessário. Quando chegou o momento de agir, não tinha nem os instrumentos nem as alianças.
A consequência política: o espaço que a esquerda deixou vazio
A social-democracia europeia aprendeu da pior forma o que acontece quando a esquerda abandona as classes trabalhadoras como projeto — não como retórica, mas como política concreta. Marine Le Pen na França, a AfD na Alemanha, Meloni na Itália, Orbán na Hungria: todos eles se alimentaram do abandono das regiões desindustrializadas, dos trabalhadores precarizados, das comunidades que perderam serviços públicos e emprego estável e receberam em troca um discurso sobre diversidade e inclusão sem nada que mudasse suas condições materiais.
O Brexit britânico é o símbolo mais preciso desse processo. As regiões que votaram por sair da União Europeia não eram majoritariamente racistas ou xenófobas — eram regiões que a globalização havia destruído e que a social-democracia blairiana havia abandonado. O voto pelo Brexit foi, em boa medida, um voto de protesto de pessoas que não tinham mais nada a perder na ordem existente.
No Brasil, a dinâmica tem especificidades, mas a estrutura é semelhante. O bolsonarismo não surgiu do nada — surgiu de um espaço político deixado vazio pela incapacidade do PT de traduzir seus avanços sociais inegáveis em um projeto de soberania econômica que protegesse duradouramente as classes que havia incluído. Quando a crise de 2015-2016 chegou e o ajuste fiscal recaiu — inevitavelmente — sobre os mais pobres, a desilusão estava posta.
O que ficou de pé — e o que foi perdido
A social-democracia, em suas versões europeia e brasileira, conseguiu preservar muito. O Estado de bem-estar europeu, ainda que enfraquecido, continua sendo a principal proteção das classes trabalhadoras contra a brutalidade do mercado. No Brasil, o Bolsa Família, o SUS e os direitos trabalhistas — mesmo atacados — permanecem como conquistas que o neoliberalismo puro nunca teria produzido.
Mas o que foi perdido é estrutural: a capacidade de controlar o capital, de orientar o investimento, de proteger a indústria, de subordinar a política monetária ao desenvolvimento. Sem esses instrumentos, as políticas sociais ficam permanentemente reféns do humor dos mercados financeiros — generosas nos momentos de bonança das commodities, sacrificadas nos momentos de crise cambial.
A questão fundamental é que não existe redistribuição duradoura sem soberania econômica. E não existe soberania econômica sem o controle sobre os fluxos de capital que determinam o câmbio, os juros e, em última análise, o espaço fiscal para qualquer política pública.
A social-democracia que abriu mão desses instrumentos em nome da credibilidade junto aos mercados descobriu, com atraso, que havia trocado a capacidade de governar pela permissão de administrar. São coisas muito diferentes — e a diferença tem nome: é a diferença entre política e gestão, entre projeto e sobrevivência, entre democracia substantiva e democracia de procedimento.