CIENTISTAS CRIARAM PAINEL INTERNACIONAL PARA GUIAR TRANSIÇÃO ENERGÉTICA GLOBAL
afinsophia 26/04/2026 0
A iniciativa tem como objetivo assessorar governos na formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas, acelerando o processo de descarbonização da economia global

Um grupo multidisciplinar de cientistas das áreas de clima, economia e tecnologia anunciou neste sábado (25) a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET). O lançamento ocorreu durante a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia.
A iniciativa tem como objetivo assessorar governos na formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas, acelerando o processo de descarbonização da economia global.
Quem está por trás do painel
O anúncio reuniu nomes de peso da ciência internacional. Entre os presentes estavam os brasileiros Carlos Nobre, referência mundial nos estudos sobre a Amazônia, e Gilberto Jannuzzi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático.
Para Rockström, o painel representa uma ponte entre países em diferentes estágios da transição energética. “A transição energética é complexa e envolve economia, meio ambiente e justiça social. A ciência pode atuar como ponte entre países que avançam mais rápido e aqueles que ainda estão hesitantes. O painel é uma forma de integrar todos gradualmente”, afirmou.
A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, também participou do evento e defendeu a iniciativa como resposta a uma lacuna histórica. Segundo ela, o SPGET é o primeiro organismo dedicado especificamente à superação dos combustíveis fósseis, e pretende reunir, ao longo dos próximos cinco anos, as evidências científicas necessárias para que cidades, regiões e países deem o que chamou de “grande salto” rumo à descarbonização.
O papel da ciência nas decisões climáticas
O coordenador do Observatório do Clima, Claudio Angelo, destacou que a criação do painel representa um esforço para recolocar a ciência no centro das decisões políticas sobre clima — algo que, segundo ele, vem sendo negligenciado nos últimos anos.
Angelo lembrou que os grandes encontros climáticos do passado, como a Eco-92, foram pautados por relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática). Esse vínculo entre ciência e política foi se enfraquecendo com o tempo — ao ponto de, na COP24, em 2018, um relatório do IPCC encomendado pela própria Convenção do Clima ter sido praticamente ignorado nas decisões finais do encontro.
Além das recomendações técnicas, o SPGET pretende acompanhar a implementação de políticas e se integrar a processos internacionais como a COP30, que será presidida pelo Brasil.
A Conferência de Santa Marta
O lançamento do painel ocorre no âmbito de uma conferência que reúne 57 países — incluindo o Brasil — e cerca de 4.200 organizações, entre governos, setor privado, povos indígenas, academia e sociedade civil. O encontro está estruturado em torno de três eixos: transformação econômica, mudança na oferta e demanda de energia e cooperação internacional.
Os trabalhos dos primeiros dias, entre 24 e 27 de abril, têm o objetivo de consolidar propostas que serão levadas à Cúpula de Líderes, marcada para os dias 28 e 29. Entre os resultados esperados estão mecanismos de cooperação entre países e um relatório com diretrizes para acelerar a transição energética.
A ministra do Clima dos Países Baixos, Van Veldhoven, que lidera a iniciativa ao lado da Colômbia, ressaltou o peso econômico dos países presentes — responsáveis por mais de 50% do PIB global — e defendeu que o momento atual, de crescente volatilidade no mercado de combustíveis fósseis, é propício para acelerar a mudança.
O ativista sul-africano Kumi Naidoo, líder da Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, foi além e defendeu que a conferência precisa ir onde a COP historicamente não conseguiu chegar: acordos concretos, ambiciosos e juridicamente vinculantes. Para ele, de nada adianta a qualidade do trabalho científico sem que o processo político avance em paralelo, por meio de mecanismos com força de lei.
*Com informações da Agência Brasil.