APÓS ATAQUES AO STF, GILMAR MENDES DISPARA: “PROCUREM ENDEREÇO DO MASTER NA FARIA LIMA”
Claramente cansado das acusações contra a Corte, usada como bode expiatório pelo bolsonarismo envolvido no escândalo, decano do Supremo usou de forma nada delicada sua habitual verborragia
Em meio ao turbilhão que sacode as estruturas da Praça dos Três Poderes, o decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, decidiu romper o cerco com a agressividade intelectual que lhe é característica. Alvo de uma ofensiva coordenada pela oposição bolsonarista e fustigado por revelações que ligam colegas de toga ao nada lícito Banco Master, Gilmar não apenas defendeu a Corte, como tratou de “devolver a encomenda”. Em entrevista concedida à TV Globo, o magistrado sugeriu que o verdadeiro foco das investigações sobre fraudes bilionárias está bem longe de Brasília.
“A mim me parece que a imprensa trouxe o caso Vorcaro para a Praça dos Três Poderes. Eu, se fosse buscar um endereço do caso Vorcaro ou Master, veria ele na Faria Lima”, disparou o ministro, referindo-se ao coração financeiro de São Paulo. A fala soou como um “basta” ao que ele classifica como uma tentativa de transformar um problema sistêmico do mercado financeiro e de regulação em um episódio exclusivo do Judiciário.
STF sob cerco: Impeachment e resorts
A reação de Gilmar Mendes visa a proteção de dois colegas: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os dois ministros tornaram-se os alvos principais do bolsonarismo após a Polícia Federal e reportagens jornalísticas revelarem elos incômodos com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, atualmente preso.
Moraes é atacado por um contrato de R$ 126 milhões firmado pelo escritório de sua esposa com o banco. Já Toffoli viu-se obrigado a abandonar a relatoria do caso em fevereiro, após um relatório de 200 páginas da PF detalhar o pagamento de R$ 35 milhões feito pelo banco de Vorcaro para adquirir uma fatia do resort Tayaya, empreendimento do qual o ministro foi sócio.
Para Gilmar, as críticas são injustas e politizadas. Ele argumenta que Moraes sequer integra a Turma que julga o caso, configurando um “impedimento fático”, e que Toffoli agiu corretamente ao se afastar quando surgiram questões sobre seus negócios. “Cada qual deverá fazer o devido encaminhamento”, pontuou, ao ser questionado se explicações mais claras não seriam necessárias para estancar a crise de credibilidade, que, segundo uma pesquisa Quaest, fez com que a desconfiança no STF (49%) superasse a confiança (43%) pela primeira vez na história.
“Inquérito do Fim do Mundo” e o embate com Zema
Sem sinais de que pretende recuar, o decano também blindou o controverso inquérito das fake news, apelidado pela oposição de “inquérito do fim do mundo”. Para Gilmar, a investigação comandada por Moraes deve continuar “pelo menos até as eleições” para proteger a Corte, que ele afirma estar sendo “vilipendiada” de forma covarde.
A verborragia de Gilmar também alcançou o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). O ministro solicitou que Zema seja investigado no inquérito das fake news após o político publicar um vídeo satírico onde fantoches representavam Toffoli pedindo a Gilmar que suspendesse a quebra de seus sigilos em troca de “cortesias” (propina) no resort Tayaya.
Para o magistrado, o conteúdo não é apenas uma sátira, mas um ataque que “vilipendia a honra e a imagem” da instituição. A reação gerou uma nota dura da liderança da oposição na Câmara, que acusou Gilmar de criminalizar a opinião política e a crítica institucional.
“Bode Expiatório”
A estratégia de Gilmar Mendes parece clara: ao apontar para a Faria Lima, ele tenta retirar o STF da posição de vitrine do escândalo e recolocar o debate na esfera dos crimes financeiros e da falha de regulação. Entretanto, entre pedidos de impeachment, relatórios da PF e a baixa popularidade da Corte, o tom nada delicado do decano revela um tribunal que, embora tente parecer inabalável, sente o peso de ser o epicentro de uma crise institucional sem precedentes.