“MEU BAIRRO JÁ FOI ATINGIDO 6 VEZES”: PROFESSORA LIBANESA DESCREVEU ROTINA EM BEIRUTE E ALERTA PARA A POSSIBILIDADE DE GUERRA CIVIL NO PAÍS

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EXCLUSIVO

Professora Yana Samarani viu seu bairro superlotar numa rotina de terror em um país dividido

Ataque israelense contra a cidade de Beirute | Crédito: ibrahim AMRO / AFP

Frequentemente eclipsado pelo conflito de Israel e Estados Unidos contra o Irã, o Líbano é também vítima há mais de mês de uma invasão e ataques israelenses. Tel Aviv já declarou a intenção de se apossar de extensa região no sul do país para a criação de uma “região de faixa de segurança”, para impedir ataques do grupo Hezbollah contra o território israelense.

“Todas as casas nas aldeias próximas à fronteira no Líbano serão demolidas de acordo com o modelo de Rafah e Beit Hanoun em Gaza“, disse o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Ele revelou que as centenas de milhares de libaneses deslocados serão “completamente impedidos” de voltar às suas casas.

Os ataques aéreos israelenses já mataram 1.422 e feriram 4.639 pessoas no Líbano, incluindo 126 crianças, segundo o Ministério da Saúde libanês desde o início dos ataques em 2 de março. Mais de um milhão de pessoas se tornaram refugiados internos, buscando proteção em outras partes do Líbano, superlotando cidades.

Uma delas é a capital Beirute, que apesar de acolher milhares de pessoas vindas de outras partes, também enfrenta bombardeios diários de Israel, que alega combater o Hezbollah, mas que aterrorizam e colocam em risco de morte toda a população, como a professora de História Yana Samarani, de origem cristã, politicamente autodeclarada de esquerda e moradora de região predominantemente xiitta de Beirute.

O Brasil de Fato ouviu Samarani sobre como é a vida sob tais bombardeios. A professora explicou também como os ataques israelenses podem dar início a outro conflito, entre os diferentes grupos ético-religiosos do Líbano. Leia abaixo:

Brasil de Fato: Você está em Beirute? Como a guerra mudou sua vida?

Yana Samrani: Sim, moro em Beirute, em um bairro chamado Zqaq al Blad, que fica entre Hamra e Ashrafiyeh. Minha localização não é muito segura, há uma maioria xiita aqui ao nosso redor e muitas escolas. Seis escolas de pessoas que vieram do sul, de Dahyeh.

Há uma densidade populacional muito alta, o que dificulta a locomoção. Não podemos usar nossos carros, porque há muitos carros nas ruas. O trânsito intenso é uma das mundanças que ocorreram aqui desde o começo dos ataques israelenses.

Muitas pessoas vieram para cá em busca de abrigo, mas este bairro já foi atingido cerca de seis vezes. Além disso, há atentados, tentativas de assassinato entre grupos llibaneses.

Temos que sair de casa com frequência, geralmente à noite. Tento dormir na casa de amigos no bairro de Ashrafiya ou em algum outro lugar mais seguro, e voltar durante o dia para continuar minha vida, porque ainda dou aulas, em duas escolas. Preciso trabalhar.

Se a noite estiver calma e não houver muitos ataques e bombardeios, vamos para a escola. Se a noite estiver difícil, como costumamos dizer, passamos para as aulas online. E nos fins de semana tentamos sair de Beirute para recarregar as energias e voltar. Agora estou de férias. Estamos nas férias de primavera.

Em Beirute, agora grupos xiitas estão atacando cristãos, especialmente em meu bairro onde a maioria é xiita. Para eles é uma guerra contra essa comunidade. E ontem foi a primeira vez que houve um assassinato em Saadi, onde a maioria é cristã.

O que as pessoas pensam da resistência do Hezbollah contra a invasão israelense?

A opinião no Líbano está dividida. O primeiro grupo é totalmente contra o Hezbollah e acredita que o grupo, por ter enviado seis mísseis contra Israel, é totalmente responsável pela invasão e está agora diretamente ligado ao regime iraniano. A maioria dos cristãos pensa que foi por isso que Israel invadiu o Líbano.

Eles também acreditam que a existência do Hezbollah é a razão dessa invasão e o que está sendo atacado agora é o Hezbollah. Issso cria uma tensão muito grande entre a população cristã e a população xiita.

Outros pensam que essa é uma luta histórica. Israel quer criar sua visão, ou ‘Grande Israel’, e usou a existência do Hezbollah como justificativa para invadir, aprender e expandir os limites de suas fronteiras, criando isso que chamam de zona de segurança. Estão invadindo, como sempre fizeram, desde 1968, 1969, 1978, 1982, 1996, até 2006 e cada vez mais.

A maioria apoia o conceito de resistência, mas, claro, não a ideologia do Hezbollah, a ideologia islâmica, nem a ideologia do Irã. Mas, quando há um ataque, eles conseguem entender o direito de lutar da resistência. O Hezbollah é muito importante e há origens históricas.

Quais são as notícias que você ouve sobre a invasão? O que está acontecendo no Sul do Líbano?

O que aconteceu no Sul é muito, muito, muito difícil porque eles estão entrando nas aldeias. Estão destruindo em massa as casas nas aldeias, eles querem criar uma terra de ninguém.

Um lugar onde estão atacando civis, atacando equipes de ambulância, incluindo jornalistas. Estão atacando até a Cruz Vermelha, insistindo para que as pessoas saiam do Sul e do Vale do Bekaa.

E há lutas. Há alguma resistência em algumas aldeias, especialmente em Khiam. Mas, na verdade, não sabemos o que realmente está acontecendo lá porque nenhum jornalista pode ir e ver exatamente o que está acontecendo. Eles têm medo de serem bombardeados ou atacados.

Mas o que ouvimos também é que os israelenses dizem que enviam vídeos mostrando o exército dentro do Líbano, dentro de casas, bombardeando casas e atacando. O perigo reside na falta de clareza.

Não sabemos quando isso vai acabar, pois dizem que param quando destruírem este grupo, o desarmarem e por isso o atacam com todas as suas forças. Não há perspectiva, não há negociação, não há como prosseguir, ter para onde ir, nem saber qual é o objetivo. Chegaram a dizer que podem desarmar o Hezbollah apenas com bombardeios, mas precisam de uma negociação, um pacto ou algo do gênero, e isso não está acontecendo.

Além disso, a situação não é apenas no sul de Beirute, mas também é muito perigosa, pois em Dahiyeh há bombardeios todas as noites. Eles atacam prédios, casas, pessoas….

Eles assassinam, escolhem um andar em um prédio e atacam pessoas sem parar, sem aviso prévio, e com muita violência. Além disso, há o terror sonoro que eles impõem, com aviões militares sobrevoando, atacando, as sirenes de alerta…

Peço desculpas, sinto muito, não consigo falar direito porque justo agora está passando um caça por aqui e o som é muito alto. Esse som acontece a noite toda, para criar essa atmosfera de terror sonoro.

Qual a sua opinião sobre a conduta do governo libanês? Ele tem o apoio da população?

O governo libanês está numa situação muito, muito crítica. Eles deveriam fazer mais, organizar abrigos, administrar a cidade inteira de Beirute, pelo menos todas as escolas, protegendo as pessoas. Se esperava que eles pudessem pelo menos criticar verbalmente o que está acontecendo.

Temos uma situação muito crítica também com o Exército, que pode entrar em guerra civil com o Hezbollah. Não há uma visão única, mas várias simultâneas, o que torna o assunto muito delicado.

Além disso, o governo anunciou que está pronto para negociar, mas até agora não houve resposta da parte israelense. Ainda aguardamos para ver como isso vai acontecer. As negociações com o Irã vão acontecer? Nós vamos participar ou não? Nada está claro e, na verdade, o governo está tentando apenas conter o que aconteceu, minimizar os danos.

Editado por: Luís Indriunas

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