LUIS NASSIF: RAPHAEL RABELLO: O VIOLÃO QUE VIROU AMIZADE

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Eu estava em Uberaba quando soube de sua morte. O Brasil perdeu um de seus grandes violonistas. Eu perdi um amigo.

Divulgação

Soube que saiu a biografia de Raphael Rabello, no livro Raphael Rabello: O Violão em Erupção, de Lucas Nobile. Tive a honra de conviver intensamente com Raphael na fase final de sua vida.

O primeiro encontro foi curioso. Havia uma revista de CD e me encomendaram uma crítica sobre um disco de Raphael. Escrevi que, quando descobrisse que existia pausa na música, seria o maior do mundo.

Na noite do mesmo dia em que saiu o artigo, recebi um telefonema irado do meu amigo Pelão — Carlos Botezelli, o grande produtor musical.

— Como é que você critica assim um amigo nosso?

Na verdade, meu contato com Raphael se limitara a um breve encontro no Bar do Alemão, por ocasião do Festival do Choro da Rede Bandeirantes, quando ele tinha pouco mais de 14 anos.

No dia seguinte, já estava deitado quando Pelão me ligou de novo:

— Turquinho, o Raphael quer falar com você.

Para minha surpresa, ele apareceu no telefone dizendo que eu estava coberto de razão.

Dali em diante, viramos amigos. Tenho os registros de um sarau inesquecível que fizemos em casa, com ele, Luizinho 7 Cordas, Charles da Flauta e o vocal do Garganta Profunda.


Algum tempo depois, recebi uma ligação de Pelão, aos prantos. Contava-me que Raphael sofrera um acidente automobilístico e que, em uma transfusão de sangue, fora contaminado pelo vírus da Aids.

— Pelão, agora que aprendi tudo de violão, acontece isso comigo.

Imediatamente, adotei Raphael. Conversei com um vice-presidente do Banco Real para conseguir patrocínios para seus shows. Conversei com João Moreira Salles, tentando convencê-lo a acompanhar Raphael e registrar suas últimas turnês. Consegui o patrocínio, mas não o documentário.

A partir daí, Raphael ficou abrigado debaixo da nossa família. Sempre que estava angustiado, vinha para São Paulo, onde se acalmava com os cuidados que recebia da minha então caçula, Luizinha. Sentia-se mais tranquilo. Um dia me pediu:

— Bicho, quero me mudar para algum lugar onde vocês ficam.


Mas ele já ingressara numa fase de desequilíbrio emocional. Nos shows, voltava a correr a mil por hora. Uma vez, no Vou Vivendo, avançou sobre um bêbado que o estava incomodando. Naquela noite, veio até a minha mesa e me fez um pedido impossível: queria me passar os direitos autorais dele, para que eu pudesse cuidar de sua família.

Disse-lhe que me pedisse tudo, menos isso. Era responsabilidade demais.

Acompanhei a gravação do CD dedicado a Dilermando Reis e escrevi a contracapa. No estúdio, encontrei Raphael surpreendentemente tranquilo — de banho tomado, depois de um show no Sesc Pompeia. Perguntei a Pelão se ele estava conseguindo superar o vício.

Não. O show havia se atrasado porque Raphael precisava de alguém que lhe fornecesse um pouco de droga para conseguir entrar em cena.

Seu último trabalho foi um projeto para o Banco do Brasil, sobre Capiba. Morreu no apartamento de um hotel onde estava hospedado para acertar os últimos detalhes do CD.

Eu estava em Uberaba quando soube de sua morte. O Brasil perdeu um de seus grandes violonistas. Eu perdi um amigo.

Violonista foi um Mozart para o chorinho

LUÍS NASSIF
DO CONSELHO EDITORIAL

Rafael Rabello não foi apenas o mais talentoso violonista brasileiro de sua geração. Nos círculos especializados, era considerado um dos três maiores violonistas da atualidade, ao lado do inglês John Williams e do cigano Paco de Lucia.

Aluno de Meira e Radamés Gnatalli, aos 14 anos já se rivalizava com o lendário Dino no violão de sete cordas. Na época, seu acompanhamento para os solos de Turíbio Santos espalhou sua fama pelas rodas de choro do país. Era pouco mais que um menino, com mãos pequenas, mas que alcançavam todas as oitavas do instrumento, e com uma imaginação sem paralelo para o contraponto.

Seu talento acabou empurrando-o para os solos de violão, circunstância que não o agradava tanto quanto o acompanhamento. Mesmo assim, participou de gravações clássicas, como no duo com Radamés Gnatalli, em que solavam em uníssono a valsa “Desvairada”, de Garoto, numa velocidade sem paralelo.

A tragédia cortou sua carreira em pleno vôo. Anos atrás sofreu acidente de trânsito. Uma transfusão criminosa inoculou o vírus da Aids no músico.

Não há indícios de que a doença tenha se manifestado em seu físico ou que tenha morrido dela. Mas destruiu seu equilíbrio psicológico. Tornou-o ansioso, querendo a todo custo perpetuar-se, numa luta alucinada contra a morte. Nos shows e gravações, utilizou seu virtuosismo um pouco além da conta.

Ficou um talento incompleto, mas enorme demais para se diluir na pressa. Quando parava para sentir, era do tamanho de Garoto e de Baden -os maiores violonistas brasileiros de todos os tempos.

Nas rodas caseiras de choro, produziu as mais belas interpretações da história do gênero. Há cerca de dois anos, realizou sua obra máxima, um disco com Dino 7 Cordas. Sua interpretação de “1 a 0” supera a gravação original, de Pixinguinha e Benedito Lacerda.

Mas a tragédia fazia parte de seu destino. Anos atrás, o produtor musical Pelão assustou-o com uma predição: “Você não vai viver muito tempo. Seu talento é grande demais para uma vida normal”.

Pela precocidade, talento e fragilidade, foi o Mozart do choro. Era um amigo querido.

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