A “PRAGMATISMO” DA BARBÁRIE: COMO A FOLHA NORMALIZA A EXTREMA-DIREITA NO CHILE

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Entre o nazismo e Pinochet, Jana Viscardi denuncia o verniz de “moderação” dado pela mídia ao novo governo de Antonio Kast

Foto: Cristobal Basaure Araya-SOPA Images/Reprodução

A forma como a grande mídia escolhe as palavras para narrar os fatos diz muito mais do que aparenta. Em reflexão recente, a linguista e escritora Jana Viscardi chama atenção para como a seleção de adjetivos pode funcionar como uma espécie de anestesia social. O exemplo analisado é a cobertura da Folha de S.Paulo sobre o governo de José Antonio Kast (JAK) no Chile, descrito pelo jornal como uma “ultradireita pragmática”.

O advogado de extrema-direita José Antonio Kast assumiu nesta quarta-feira (11) a Presidência do Chile, tornando-se o governante conservador mais radical do país desde o regime do ditador Augusto Pinochet.

Para Viscardi, é preciso olhar para o que essa “adjetivação de conveniência” tenta suavizar. O novo presidente chileno carrega um histórico que o termo oculta: seu pai foi membro do Partido Nazista e sua família mantém laços profundos com a herança da ditadura de Augusto Pinochet.

A análise aponta que, sob o rótulo do pragmatismo, abrigam-se faces cruas do autoritarismo:

  • Na segurança: É “pragmático” propor indulto a policiais responsáveis pelo assassinato de 30 pessoas na repressão aos protestos de 2019?
  • Na imigração: É “pragmático” atacar haitianos e venezuelanos e projetar “barreiras físicas” contra imigrantes?
  • No Estado: É “pragmático” priorizar a crença religiosa sobre a função pública, como dito no discurso de posse?

A pedagogia da normalização

Como bem observa a linguista, essa escolha lexical não é acidental. Ao rotular figuras de extrema-direita como “pragmáticas”, a grande imprensa brasileira opera um processo de normalização. Transforma-se o extremismo em uma opção de gestão “moderada”, tentando tornar palatável um projeto que flerta abertamente com o autoritarismo e que mantém sintonia com nomes da extrema-direita brasileira, como Sóstenes Cavalcante (PL).

Enquanto o jornalismo se esquiva de dar o nome correto aos fatos, a democracia segue sob o cerco de palavras que atenuam a violência. Como conclui a escritora: “Não deixo de me impressionar com a postura dos grandes jornais brasileiros. Desejo sorte a todas nós”.

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