ENCONTRO DE MULHERES DA TEIA DOS POVOS EM ASSENTAMENTO DO MST NO SUL DA BAHIA DEBATE VIOLÊNCIA DE GÊNERO E LUTA ANTICAPICATISTA
afinsophia 05/03/2026 0
8 DE MARÇO
O evento marca dia de luta das mulheres e os 34 anos da ocupação que deu origem ao assentamento Terra Vista
O quinto Encontro da Rede de Mulheres da Teia dos Povos, realizado entre os dias 5 e 9 de março, no Sul da Bahia, tem como tema ‘Mulheres e Ancestralidade: as que protegem a terra, as águas e os territórios’.
A historiadora Solange Brito, moradora do Assentamento Terra Vista e integrante da Teia dos Povos, diz, em entrevista ao Conversa Bem Viver, que essa quinta edição do encontro deve refletir sobre os inimigos comuns dessa diversidade de mulheres: o sistema capitalista e o patriarcado.
No entanto, ela ressalta que, para além do processo de denúncia e luta contra o capital e a violência de gênero, é preciso que o encontro dê conta de pensar rumos e perspectivas de alternativas a esses sistemas. “Não que a gente tenha a receita pronta, mas juntas, com essas diversidades de saberes, de fazeres, a gente consegue encontrar caminhos para avançar e para poder, de fato, conseguir ter esse bem viver que a gente tanto defende em nossos territórios”, aponta.
Confira a entrevista
Brasil de Fato: As mulheres que estarão neste encontro são de diferentes perspectivas, de diferentes lugares, mas estarão em uma verdadeira união, debatendo esse inimigo em comum. Fale mais sobre isso.
Solange Brito: Sim, é um espaço em que a gente entende que nós não somos iguais, somos diferentes. Mas a gente entende que nós temos várias questões que precisamos debater em comum, uma é essa questão do sistema capitalista.
A gente está vivenciando um processo muito difícil nessa conjuntura atual, contra o império norte-americano. Existem várias questões que estamos enfrentando, não só no Brasil, mas fora do Brasil. A questão do feminicídio, essa questão das violências de gênero, é muito presente.
Mas entendemos que precisamos debater mais sobre isso, trazer horizontes, para não ficar só no muro das lamentações e no muro também das denúncias, mas também de trazer a perspectiva de buscar horizontes junto com as mulheres.
Nós temos muitas mulheres, de diversos territórios, das águas, das florestas, que têm uma megaexperiência nessa questão do protagonismo. E a gente precisa visibilizar isso.
A gente precisa também mostrar que na sociedade existem muitas mulheres que têm avançado nessa perspectiva do bem viver, nessa perspectiva da vida, de defender a vida, porque ela gera vida, e a terra gera vida.
Há 2 anos, nós fizemos um encontro de mulheres da Teia dos Povos em que perdemos a nossa grande liderança, a pajé Nega Pataxó. Foi um momento em que a gente trouxe esse debate mais aprofundado sobre essas grandes violências que as mulheres vão enfrentar, e neste ano precisa trazer perspectivas, rumos para essas mulheres. Não que a gente tenha a receita pronta, mas juntas, com essas diversidades de saberes, de fazeres, a gente consegue encontrar caminhos para avançar e para poder, de fato, conseguir ter esse bem viver que a gente tanto defende em nossos territórios.
O assentamento Terra Vista não é qualquer espaço, por ser um assentamento do MST já tem contornos muito importantes. Mas, poderia explicar mais a história do assentamento e como se construiu a identidade do chocolate Terra Vista?
O dia 8 de março é um momento muito simbólico para as mulheres a nível internacional, mas para nós, localmente, é um momento também não só simbólico, mas também de resistência, de luta, de permanência nesta terra, que foi a conquista do assentamento Terra Vista, que agora vai completar 34 anos.
A gente vai combinar o encontro com o aniversário do assentamento. Então, além de debater, trazer à tona todo esse processo que as mulheres enfrentam, também de festejar, celebrar essa conquista desse território.
Um assentamento que é uma referência de luta, de resistência, de protagonismo nesse processo da agroecologia, a gente sempre fala de transição agroecológica, a gente está sempre em transição, porque cada momento que a gente vai mergulhando nesse universo agroecológico, a gente percebe que a agroecologia é um modo de vida.
E é a partir desse modo de vida que a gente vai avançar nessa perspectiva da produção, nessa perspectiva da economia para além do capital, nessa perspectiva da educação, já que se trata de um assentamento referência de luta pela educação do campo. Então, estamos aqui, até hoje, nesse processo de organização do espaço, mas ao mesmo tempo mostrando para a sociedade que é possível fazer reforma agrária, sim. Graças ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, a gente conquistou essa área em 1992.
O chocolate Terra Vista faz parte também dessa resistência, por isso que a gente chama ele de chocolate rebelde. Porque, além de a gente produzir um chocolate de qualidade, que faz parte daqui da nossa história, dessa região, a gente empurrou as cercas do latifúndio, em um processo muito difícil. Foi no auge dos coronéis do cacau aqui dessa região, no Sul da Bahia, já no final da década de 80, início de 90, que o MST chegou aqui.
Nossa preocupação é que a sociedade entenda que valeu a pena essa ocupação, que valeu a pena essa luta por essas terras, que outrora eram de um fazendeiro, de um latifundiário, e agora estão na mão de vários trabalhadores e trabalhadoras que viviam numa condição de semi-escravidão.
E o chocolate é essa memória, essa resistência. O chocolate Terra Visa já está no mundo, em várias localidades, na América Latina, na África e na Europa. É um chocolate muito conhecido. Essa questão do chocolate, para nós, não é só nessa perspectiva da soberania alimentar, que é importante. A gente entende que se alimentar bem é um ato político e, principalmente, nessa sociedade que a gente vive, que as pessoas estão com paladar muito ruim — que a gente chama de nutricídio. Então, o chocolate tem um sabor diferente, mas é um chocolate que, além de ser rebelde, além de ter que ter a memória, tem afetos, tem resistência e é um chocolate de qualidade, é uma produção de qualidade. Isso para nós é muito gratificante, muito importante.
Além disso, o chocolate também está nos ajudando nessa questão da economia para além do capital, envolvendo a juventude. A nossa ideia é que a juventude cada vez mais se envolva nesse processo da produção do chocolate aqui no assentamento.
Voltando a falar da programação do evento, quem não puder estar no assentamento, em Arataca, nesses dias, consegue participar online de alguma maneira?
Sim, nós já lançamos nas redes sociais um link em que as pessoas se inscrevem. Também tem o site da Teia dos Povos, que tem bastante informações sobre esse encontro.
A gente precisa fazer essa unidade entre campo e cidade para poder nos fortalecer. Então, quem quiser participar, o espaço está aberto, todos podem dar sua contribuição nesse grande encontro.
E algo que é importante, não só para a gente da Teia dos Povos, mas para a humanidade, é visibilizar a história das mulheres, o protagonismo das mulheres, o que as mulheres vêm fazendo, desenvolvendo ao longo do tempo. Bom ter esse acolhimento e ao mesmo tempo a gente também ter uma corrente de pessoas no mundo inteiro fortalecendo esse encontro e divulgando e visibilizando.
Queria falar mais do 8 de março em si, que é essa data simbólica, seja para o assentamento ou para o encontro como um todo. Conta o que acontece no 8 de março, domingo.
No domingo, nós faremos uma grande plenária pela manhã, que vai se fazer o fechamento desse encontro das mulheres, da Teia dos Povos, e à tarde e à noite é que nós vamos fazer uma grande confraternização aqui para comemorar 34 anos de assentamento.
Se pensou em fazer uma ocupação no dia 8 de março em homenagem às mulheres, aqui estarão mulheres que estavam naquele processo de luta e resistência, e as mulheres estavam na linha de frente da ocupação. Serão muitas histórias e muitas memórias.