“DIAGNÓSTICO NÃO É IDENTIDADE”: PSIQUIATRA, FELIPE SANTAELLA ALERTOU PARA OS RISCOS DA BANALIZAÇÃO DOS TRANSTORNOS MENTAIS NAS REDES SOCIAIS

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SAÚDE

Felipe Santaella analisa como termos como ‘autista’, ‘borderline’ e ‘narcisista’ saíram dos consultórios e viraram rótulos superficiais

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Banalização de diagnósticos psiquiátricos nas redes sociais | Crédito: Pexels

Termos como “autista”, “borderline”, “narcisista” e “TDAH” deixaram de ser exclusividade dos consultórios de psiquiatria e psicologia e invadiram o vocabulário comum. Nas redes sociais, é cada vez mais comum ver pessoas — incluindo profissionais de saúde mental — oferecendo diagnósticos superficiais sobre figuras públicas, como participantes de realities shows, ou transformando o próprio sofrimento em conteúdo para engajamento.

Ele explica que o DSM, considerado a “bíblia” dos diagnósticos psiquiátricos, deixa claro que se trata de disorder (transtorno), não de disease (doença). “Por que essa diferença é importante? Porque o diagnóstico psiquiátrico depende de vários fatores: cultural, contexto histórico, a maneira como interpretamos aquele sofrimento.”

“Hoje, vemos produtores de conteúdo de bem-estar que acordam às 5h da manhã, correm, fazem um monte de coisas. Se pegássemos essa mesma pessoa há 200 anos, provavelmente estaria internada num manicômio. Naquela cultura, naquela sociedade, não fazia sentido ter esse estilo de vida”, exemplifica.

“Quando um homem comete violência contra uma mulher, muitas vezes vem a justificativa: ‘ele tem um diagnóstico psiquiátrico’. Ter um diagnóstico não te isenta da responsabilidade da vida. Pelo contrário: é uma maneira de compreender seus sofrimentos e, a partir disso, promover uma vida melhor”, critica.

Santaella aborda um fenômeno que considera “muito sensível”: profissionais de saúde mental que usam as redes para diagnosticar pessoas publicamente, sem qualquer autorização. “É o ápice da mercantilização. Pessoas gravam a própria consulta, expõem pacientes em situação de crise, que muitas vezes não têm capacidade de consentimento. Colocam filhos com transtornos graves para produzir conteúdo.”

Ele aponta três camadas para entender o problema: “Primeiro, a formação dos profissionais. Hoje, produzir conteúdo não é mais opção, é obrigação na perspectiva mercadológica. A gente perde tempo aprendendo a dinâmica das redes, e as universidades ainda não ensinam sobre os limites éticos disso. Segundo, os conselhos profissionais precisam se atualizar. Terceiro, a própria dinâmica das redes favorece esse tipo de discurso, porque o que gera engajamento é justamente falar de diagnósticos de forma sensacionalista.”

Santaella conecta o fenômeno do isolamento à precarização do trabalho em todas as áreas, nesse contexto, o sofrimento psíquico vira mercadoria.

“Cada vez mais, as pessoas trabalham isoladas, terceirizadas, via aplicativos. A pessoa está isolada no trabalho, mas conectada, observando a vida alheia, sem participar de atividades coletivas. Perdemos o senso de coletividade. Você vê produtores de conteúdo expondo sua realidade de sofrimento porque sabem que isso gera engajamento. Até o sofrimento precisa ser validado externamente, exposto através de siglas na bio do perfil”, destaca.

Como falar de saúde mental de forma responsável

Para o psiquiatra, o primeiro passo é reconhecer que não se precisa falar de tudo nas redes e trazer o sofrimento ao público. “Podemos começar individualmente, pensando qual é o nosso próprio limite.”

“O algoritmo retroalimenta aquilo que nos incomoda. Se você se incomoda com um tema, tem a opção de clicar em ‘não me interessa’ para filtrar”, sugere.

No plano coletivo, Santaella propõe uma reflexão. “Quando você está numa roda de amigos, será que precisa transformar os assuntos do seu sofrimento apenas em nomes de diagnósticos? Ou pode falar de determinadas vivências sem necessariamente atrelá-las a um rótulo?”

“Você pode falar do seu incômodo com o barulho na cidade, porque seu apartamento é pequeno, porque pega três horas de ônibus. Não precisa atribuir isso a uma questão individual. Precisamos pensar de que maneira estamos inseridos no coletivo, e não só num olhar individualizante”, exemplifica.

O psiquiatra defende uma abordagem que considere a complexidade do ser humano. “A gente precisa olhar que o diagnóstico não é uma identidade. Ele muda, é mutável. E se certas coisas da sua identidade você muda, por que a sua compreensão dos diagnósticos não pode mudar também?”.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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