HONDURAS: “QUEREM ROUBAR A ELEIÇÃO”, AFIRMOU MILITANTE LIBERAL SOBRE CANDIDATO DE TRUMP

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TENSÃO ELEITORAL

Tensão entre conservadores aumenta e candidata governista do Libre segue denunciando fragilidade do sistema eleitoral

Pessoas votam durante a eleição geral de Honduras em uma seção eleitoral no Complexo Olímpico de Tegucigalpa em 30 de novembro de 2025. Os hondurenhos votaram para presidente em 30 de novembro de 2025, em meio a ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de cortar a ajuda ao país caso seu candidato preferido perca.| Crédito: Foto de Lucas AGUAYO / AFP

Enquanto se aguardavam os primeiros resultados das eleições em Honduras, o Hotel Honduras Maya — onde o Partido Liberal havia montado seu “bunker” eleitoral — transformou-se em um verdadeiro formigueiro. Jornalistas, militantes e observadores do CNE iam e vinham ao telefone, à espera de qualquer informação. O Partido Liberal anunciou e cancelou várias coletivas de imprensa, até que, já passado o meio-dia (horário local), Salvador Nasralla convocou uma reunião de emergência.

Os partidos Liberal e Nacional formam o bloco conservador no país e, até este momento, estão em empate técnico nas eleições presidenciais. Por essa razão, a tensão entre as duas siglas aumentou nas últimas horas.

“Os cachurecos [forma popular de dizer ‘conservador’, usada para se referir ao Partido Nacional] querem roubar nossa eleição”, contou ao Brasil de Fato um militante liberal.

Enquanto o CNE atrasava a divulgação dos primeiros números, circulavam rumores de que a demora se devia a negociações entre o Partido Nacional e o Partido Liberal. “O problema não está nos locais de votação; ali todo mundo é do bairro, todo mundo se conhece”, relatou um taxista ao Brasil de Fato. “O problema é quando levam as atas para o CNE; é lá na cúpula que sempre começam as confusões”, acrescentou, admitindo temer o retorno do Partido Nacional, que ele chama de “mafiosos”.

Apesar disso, as opiniões nas ruas estão divididas. O medo do comunismo parece disseminado em vários setores da sociedade. “Nas igrejas, os pastores fizeram cultos contra o comunismo. Diziam aos fiéis que não podiam votar na gente e que, se votassem, não poderiam voltar para a igreja”, contou Reyna, militante do Partido Libre. “O problema é que esses pastores mentem, porque Cristo era socialista”, concluiu.

A presença das igrejas católicas e evangélicas é avassaladora em um país onde os leigos representam uma minoria ínfima. Durante toda a campanha, as igrejas tiveram um papel muito ativo contra o Partido Libre. As igrejas católicas mantinham fortes vínculos com o Partido Nacional, enquanto as igrejas evangélicas manifestaram apoio explícito a Salvador Nasralla.

Com o passar das horas, o clima entre os membros do Partido Libre foi ficando cada vez mais tenso. Durante semanas, havia sido anunciada uma “possível fraude” nas eleições. Os primeiros resultados caíram como um balde de água fria.

“A direita ganhou muita vantagem nas redes sociais”, reflete um dirigente do Libre, enquanto insiste que é preciso aguardar os resultados finais. Ao longo dos anos, o Libre se consolidou como a principal força de resistência nas ruas. Contudo, o medo de um novo ciclo de repressão parece cada vez mais presente.

As ameaças dos Estados Unidos — em um país onde sua presença é praticamente onipresente — têm um “impacto muito forte”, comenta. “Para Trump, estas eleições representam voltar a controlar ‘seu porta-aviões’”, afirma. Durante décadas, Honduras foi um centro de operações militares contra as lutas sociais na Nicarágua, em El Salvador e na Guatemala, explica. Agora, Trump quer recuperar esse controle em sua estratégia militar no Caribe.

O que aconteceu até agora

Após uma campanha marcada por tensões políticas, os primeiros resultados preliminares das eleições hondurenhas realizadas no domingo (30) dão vantagem aos candidatos conservadores.

Segundo a Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (Trep) do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) — uma contagem “rápida” que ainda não é definitiva —, com 57,03% das atas transmitidas, a disputa permanece extremamente acirrada entre o bipartidarismo tradicional, representado pelo conservador Partido Nacional e pelo Partido Liberal, enquanto o partido governista Partido Libertad y Refundación (Libre) ocupa a terceira posição.

Com um empate técnico, Nasry “Tito” Asfura, candidato do Partido Nacional e publicamente apoiado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem 749.022 votos, o que equivale a 39,92%, e Nasralla com 39,89% com 748.507. Uma diferença de apenas 515 votos. Em terceiro lugar aparece a candidata governista Rixi Moncada, representante do Libre, com 359.584 votos (19,16%).

A lentidão do Trep aumentou expectativas e tensões até altas horas da madrugada. A estreita diferença entre Asfura e Nasralla fez com que, até o momento, nenhum dos candidatos tenha se manifestado publicamente.

Fragilidade do sistema eleitoral

Na reta final da campanha, a candidata Rixi Moncada havia anunciado que seu partido não reconheceria os dados do Trep e que só aceitaria os resultados finais após a contagem de 100% das atas. De acordo com a legislação eleitoral do país, o CNE tem prazo até o final de dezembro para concluir a contagem definitiva.

Após fortes suspeitas de fraude eleitoral atribuídas ao Partido Nacional nas eleições de 2013 e 2017, a desconfiança do Libre se aprofundou com o vazamento de 26 áudios nos quais supostamente se ouvem conversas entre dirigentes nacionalistas — incluindo Cossette López, membro do CNE — discutindo um plano presumido para impedir uma eventual vitória de Moncada por meio da manipulação do sistema de transmissão de resultados.

Diante desse cenário, o Libre pediu à sua militância que realizasse uma contagem própria, coletando fotografias das atas. Até a noite de domingo, o partido afirmou que, segundo seu próprio levantamento, a vencedora seria Rixi Moncada.

Horas antes de o CNE iniciar a contagem provisória — com um notável atraso que aumentou a sensação de tensão —, Rixi Moncada pediu, pelas redes sociais, que se “mantivessem firmes na luta” até obter “100% das atas presidenciais, das prefeituras e das cadeiras legislativas”. Ela também anunciou uma coletiva de imprensa para esta segunda-feira (1º) na qual informará sua posição sobre os resultados presidenciais.

O clima de desconfiança que cercou a jornada eleitoral se arrastava há dias. O ex-presidente Manuel “Mel” Zelaya, deposto em 2009 por um golpe de Estado liderado pelo Partido Nacional, afirmou que o Libre é “um partido de ideais, testado nas ruas, com grandes resultados sociais e democráticos”, pedindo à militância que se mantivesse alerta e “fiel à verdade plena que o povo expressou nas urnas e que não podemos ignorar”.

Interferência dos Estados Unidos

Apenas cinco dias antes do pleito, Donald Trump fez um apelo público para que os hondurenhos votassem no direitista Nasry “Tito” Asfura. Pelas redes sociais, o presidente republicano afirmou que “a democracia está em risco nas próximas eleições no belo país de Honduras” e apresentou Asfura como “o defensor da democracia” e um lutador contra o comunismo.

Além disso, Trump declarou que, caso Asfura vencesse a presidência, concederia um perdão total ao ex-presidente hondurenho e líder do Partido Nacional, Juan Orlando Hernández, atualmente preso nos Estados Unidos por crimes relacionados ao tráfico de drogas.

Hernández foi detido em 2024, após ser declarado culpado por um tribunal federal de Nova York de conspirar para traficar drogas e armas. Em junho daquele ano, foi condenado a 45 anos de prisão e cinco anos de liberdade condicional, após comprovar-se que recebeu milhões de dólares em subornos antes e durante seu mandato para favorecer grupos de narcotráfico.

Na noite do domingo eleitoral, antes da divulgação dos primeiros resultados, a congressista estadunidense María Elvira Salazar, republicana de origem cubana, celebrou “a derrota da esquerda comunista em Honduras” e afirmou que os eleitores “rejeitaram de forma contundente o socialismo”.

Durante toda a campanha, Salazar manteve presença constante, denunciando o partido Libre como uma força “comunista” e incentivando o apoio a setores conservadores. Suas declarações, junto às de Trump, reforçaram a sensação de uma nova disputa ideológica em tom de Guerra Fria que atravessou o processo eleitoral hondurenho.

Editado por: Maria Teresa Cruz.

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