“CLICHÊ NÃO NOS FAZ PENSAR”: GUIA DESCONSTRÓI ESTEREÓTIPOS SOBRE POVO PALESTINO
afinsophia 01/12/2025 0
COMO NARRAR
Escritor Milton Hatoum e jurista Rula Shadeed participaram de debate no lançamento da plataforma
- SÃO PAULO (SP)
- CAROLINA BATAIER
“O que você imagina quando pensa em palestinos?”. Essa foi a provocação lançada pela jurista palestina Rula Shadeed no evento de lançamento da plataforma Comunicando a Palestina: o poder da narrativa, realizado nesta sexta-feira (28), na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, em São Paulo (SP).
O guia, organizado pelo Instituto Palestino de Diplomacia Pública (PIPD), reúne ferramentas e boas práticas de combate à desinformação sobre o povo palestino.
O evento de lançamento teve a presença do escritor Milton Hatoum, brasileiro filho de libaneses, que falou sobre o poder das narrativas e a importância do povo palestino contar a sua própria história para romper com os estereótipos criados a partir de imagens que escondem a complexidade dessa cultura e dos fatos históricos.
“O estereótipo, o clichê, é muito poderoso. Porque o clichê não nos faz pensar. São ideias jogadas aqui e ali e repetidas o tempo todo, reproduzidas com algumas variações e assimiladas pela maior parte da população”, alerta o escritor.
Não é difícil identificar esses clichês. “Provavelmente será alguém atirando uma pedra, uma mulher chorando com uma criança no colo ou alguém correndo atrás de um saco de farinha. Essas são as imagens que provavelmente virão à sua mente”, diz Shadeed, sobre as percepção estereotipada a respeito dos palestinos, muitas vezes criadas a partir da reprodução midiática.
Após cinco anos de trabalho, a plataforma é lançada como um caminho para desconstruir os clichês e permitir que novas histórias sejam contadas. Lançada na versão em português na véspera do Dia da Solidariedade ao Povo Palestino, celebrado neste sábado (29), “Comunicando a Palestina: o poder da narrativa” é destinada a comunicadores, jornalistas e ao público em geral.
“Este é um guia, uma ferramenta que você, independentemente da sua profissão, pode utilizar”, diz Shadeed. As informações também estão disponíveis em inglês e, em breve, haverá versão em espanhol, francês e árabe.
Na plataforma, há uma sessão dedicada a debater o que é nomeado como dois-ladismos – a ideia de que os palestinos estão em um “conflito” milenar com os israelenses, em que “ambos os lados” têm direitos iguais sobre a mesma terra e compartilham a responsabilidade e a culpa pela ausência de liberdade, paz e justiça.
“Essa abordagem tendenciosa é um conceito colonialista que antecede 1948, criado para justificar a colonização sionista da Palestina. Dentro dessa lógica, mantém-se um compromisso falho com o ‘equilíbrio’ e a ‘neutralidade’”, informa o portal.
“Desde a invasão de Napoleão no Egito, até hoje, até os filmes de Hollywood, ou até os discursos hoje sobre as representações do palestino, é o mesmo discurso de superioridade do Ocidente, porque aquele estado de Israel é o enclave do Ocidente no coração do mundo árabe”, ressalta Hatoum, que retomou trabalho do escritor e crítico literário Edward Said para celebrar a iniciativa do Instituto Palestino de Diplomacia Pública (PIPD).
De origem palestina, Said teve um importante trabalho no questionamento da representação do povo palestino a partir da visão colonizadora do ociente. Em seu trabalho “Permissão para narrar” publicado pela primeira vez em 1984, no Journal of Palestine Studies, Said retoma o massacre realizado em dois campos de refugiados palestinos em território libanês, Sabra e Chatila, para debater as repercussões dos fatos em relatórios de comissões internacionais, na mídia e em estudos acadêmicos.
No texto artigo, Said relembra o momento em que ligou para amigos e parentes pedindo que anotassem ou gravassem o que estava acontecendo durante o cerco de Beirute, no Líbano. Com o pedido, ele esperava guardar algum material que pudesse, posteriormente, garantir uma narrativa capaz de se contrapor às costumeiras representações dos palestinos na mídia ocidental, recorrentemente relacionados ao fundamentalismo, à ignorância e à barbárie.
“Esse ensaio mudou muita coisa, porque ele tenta resgatar os palestinos da mera condição de objetos”, avalia Hatoum.
Agora, com o lançamento da plataforma, o povo palestino estabelece mais um marco no caminho para romper os estereótipos construídos pelos colonizadores e que levam muitos a crer, erroneamente, que o massacre contra esse povo parte de uma correlação de forças.
“É uma continuação do que Edward Said e outros começaram pelo mundo”, diz Shadeed. “As pessoas falam sobre nós. Mas nós podemos contar as nossas histórias, ou explicar a situação”.
Acesse a plataforma: www.communicatingpalestine.org/pt
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