FEMINISMO, DITADURA, MOVIMENTO NEGRO E INDÍGENA: OS LIVROS QUE BOLSONARO PODE LER NA PRISÃO

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ALÉM DO CAÇA-PALAVRA

 Programa de remição de pena do DF tem lista com 160 títulos

Na última terça-feira (25), o STF decidiu que não cabem mais recursos para os condenados do núcleo duro da trama golpista – Bolsonaro está detido na Superintendência da PF em Brasília| Crédito: Sergio Lima / AFP

Caso participe do programa de remição de pena por leitura adotado no Distrito Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode se deparar com um acervo bibliográfico distante do repertório político e ideológico que marcou sua trajetória pública. Assim como os demais condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe, ele pode ler e comprovar entendimento sobre títulos que discutem racismo, memória, ancestralidade, encarceramento, feminismo, direitos humanos, diversidade sexual e crítica ao capitalismo.    

Antes da posição de Bolsonaro, a decisão para aderir ao Ler Liberta precisa passar por uma autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Pelas regras, cada obra lida e comprovada resulta em quatro dias a menos na pena, limitado a 11 livros por ano para cada detento — o equivalente a um abatimento máximo de 44 dias anuais. Desde a última terça-feira (25), o ex-presidente iniciou o cumprimento da pena de 27 anos e três meses de prisão em regime fechado. 

“É uma grande oportunidade. Talvez ele tenha que trabalhar os letramentos dele. É uma pessoa extremamente preconceituosa, racista e homofóbica. Ele tem que passar por um processo de reeducação, e temas relacionados à democracia sempre são bem-vindos a qualquer que seja o réu. Mas em especial a ele”, comentou Marco Aurélio Carvalho, do Grupo Prerrogativas.

De manual antirracista a ficção científica

O programa do DF possui uma lista com 160 títulos, separados de acordo com a escolaridade do detento.

Caso Bolsonaro queira conhecer mais sobre as violações de direitos humanos da ditadura civil-militar brasileira, uma boa pedida é “Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva. O livro conta a luta de Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, que foi desaparecido pela repressão. A obra virou filme premiado do diretor Walter Salles.

Conhecido por falas misóginas, como “mulheres devem ganhar menos do que homens pois engravidam”, Bolsonaro teria uma boa oportunidade de desconstruir seu machismo com o título “Cartas de uma menina presa”, da feminista Débora Diniz.

Falando em questões de gênero, outra obra interessante para aumentar o repertório do ex-presidente é “A mão esquerda da escuridão”, da estadunidense Ursula K. Le Guin. O livro de ficção científica imagina um mundo em que as pessoas não têm sexo biológico definido.

Durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro afirmou discurso no Clube Hebraica, em São Paulo, que no seu governo não haveria um centímetro de terra demarcada para indígenas e quilombolas. “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro, e obras de Ailton Krenak incluídas na lista podem ajudar o capitão a repensar seus posicionamentos. A tarefa não é simples, mas ele tem tempo para isso: mais especificamente, 27 anos e três meses.

Editado por: Raquel Setz

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