NA RETA FINAL DA CAMPANHA, ESQUERDA TENTA CONSOLIDAR LIDERANÇA NO CHILE

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Vermelho

Na reta final da campanha, esquerda tenta consolidar liderança no Chile

por Lucas Toth

A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais no Chile, marcado para este domingo (16), o país se vê diante de uma escolha que ultrapassa a disputa entre candidaturas e expõe a encruzilhada sobre seu futuro político. 

Com o segundo turno previsto para 14 de dezembro, o pleito sintetiza a polarização aberta desde a revolta social de 2019 e coloca em confronto três projetos de país: um autoritarismo neoliberal promovido por partidos de matriz pinochetista, uma tentativa de recompor uma grande coalizão neoliberal herdada dos anos 1990 e uma frente popular social-democrata liderada por Jeannette Jara, do Partido Comunista do Chile (PCCh).

Ex-ministra do Trabalho do governo Gabriel Boric, Jara lidera as pesquisas com índices entre 30% e 38%, segundo diferentes levantamentos. A esquerda chega mobilizada, após atos massivos em Maipú, Talca e Concepción que reuniram dezenas de milhares de pessoas. 

Mas o cenário eleitoral, marcado pelo crescimento da extrema direita e pelo peso de temas como segurança pública e migração, torna incerto o desfecho de um eventual segundo turno

Direita fragmentada amplia risco de retorno ao pinochetismo

A reta final da campanha é marcada pela fragmentação da direita e pela escalada de discursos autoritários. O ultraconservador José Antonio Kast (20% a 25%) e o deputado “libertário” Johannes Kaiser (16% a 17%) disputam voto a voto o controle do campo pinochetista. 

Ambos representam um projeto de autoritarismo neoliberal que propõe ampliar o poder do Executivo, militarizar a segurança pública, endurecer políticas migratórias e reduzir drasticamente o gasto social. Kast promete cortes de US$6 bilhões; Kaiser, o dobro.

O crescimento de Kaiser, que mimetiza o estilo performático de Javier Milei e propõe enviar imigrantes irregulares com antecedentes criminais para a mega prisão de El Salvador, alterou a dinâmica interna da direita. 

Em debate televisivo, o deputado afirmou: “Não vou entrar no Chile como Herodes, sendo um presidente que apoia uma lei sobre o aborto livre”, em referência à proposta de interrupção voluntária da gravidez — criminalizada no país.

A referência bíblica é recorrente no discurso da direita religiosa e associa defensores do aborto à figura de Herodes, o rei descrito no Novo Testamento como responsável pelo “Massacre dos Inocentes”.

Ao mesmo tempo, Evelyn Matthei, ex-prefeita de Santiago e herdeira política dos governos neoliberais do pós-ditadura, aparece estagnada na casa dos 13% e enfrenta desgaste após acusações de “guerra suja” e fake news atribuídas ao campo de Kast. 

Mesmo com o apoio público de 102 ex-autoridades da centro-esquerda, sua candidatura perdeu terreno entre setores conservadores, que migram para a extrema direita.

Segurança e migração dominam a campanha e fortalecem discurso de exceção

A deterioração da sensação de segurança se tornou o principal motor do debate eleitoral. Homicídios triplicaram na última década, sequestros alcançaram números históricos e 63% dos chilenos afirmam que a segurança pública é a prioridade do próximo governo. 

Esses dados, embora expressem uma mudança real no cenário criminal, são instrumentalizados pela direita para estabelecer uma associação direta entre imigração e criminalidade, especialmente contra venezuelanos.

Segundo estimativas oficiais, 337 mil estrangeiros vivem em situação irregular no país, e a população de imigrantes dobrou em sete anos, chegando a 8,8% dos habitantes. 

Kast e Kaiser defendem expulsões em massa, muro na fronteira e mobilização de até 3 mil militares. Kaiser chegou a mencionar a criação de “campos de retenção” para migrantes — proposta que ecoa políticas europeias e norte-americanas de segregação.

Jara consolida frente popular e disputa narrativa da segurança

Diante desse cenário, Jeannette Jara buscou ocupar politicamente o terreno da segurança sem adotar a lógica punitivista da direita. “O tema da segurança pública será prioritário desde o primeiro dia”, afirmou na televisão.

Sua proposta combina controle tecnológico de fronteiras e combate ao crime organizado por meio do levantamento do sigilo bancário — medida que, segundo a candidata, atinge diretamente a estrutura financeira das organizações criminosas.

A comunista, porém, atua para ampliar sua base além do núcleo histórico do PC. Em debate recente, disse que “suspenderá ou cancelará” sua filiação ao partido caso vença as eleições, como sinal de abertura a uma coalizão governista mais ampla. 

Jara também se distanciou do governo Boric ao criticar o acordo entre a estatal Codelco e a mineradora privada SQM, ao mesmo tempo em que defendeu a entrada do Chile no BRICS+, num aceno geopolítico significativo.

Sua trajetória pessoal tem sido um elemento mobilizador: nascida em bairro operário, iniciou a militância aos 14 anos, liderou o movimento estudantil e trabalhou em diversos empregos de base antes de chefiar a redução da jornada laboral de 45h para 40h e implementar a reforma do sistema privado de pensões.

Autoritarismo neoliberal x grande coalizão x frente popular

Analistas chilenos convergem na avaliação de que o país enfrenta uma disputa entre três caminhos inconciliáveis. O autoritarismo neoliberal representado por Kast e Kaiser reedita aspectos centrais do pinochetismo, combinando repressão, cortes sociais e ultraliberalismo econômico. 

A grande coalizão liderada por Matthei tenta reativar o pacto moderado dos anos 1990, mas perdeu força após o fracasso dos processos constitucionais.

E a frente popular social-democrata de Jara busca consolidar uma alternativa progressista capaz de barrar o avanço autoritário, com foco em tarifa de energia mais baixa, salário mínimo de US$750, sistema público de saúde fortalecido, criação de empregos e políticas sociais voltadas à crise econômica das famílias.

A disputa presidencial de 2025 funciona como um tira-teima entre dois projetos antagônicos: de um lado, a continuidade de uma agenda social ampliada; de outro, a promessa de retorno ao receituário neoliberal combinado a propostas de endurecimento institucional.

Projeções indicam vitória de Jara no 1º turno e disputa apertada no 2º

Pesquisas mostram que Jara praticamente assegurou a vitória no primeiro turno, mas teria dificuldades no segundo se enfrentar Kast. Contra Kaiser, o cenário é mais aberto, segundo projeções recentes. 

A fragmentação da direita abriu espaço para rearranjos inesperados, incluindo a possibilidade — ainda remota — de Evelyn Matthei superar a disputa interna da extrema direita e avançar à segunda etapa.

O país chega às urnas sem ter resolvido as tensões produzidas pelo Estallido Social de 2019, que deixou 32 mortos, 3,4 mil feridos e frustração profunda com os processos constitucionais. A crise do neoliberalismo global acentua a incerteza sobre o futuro próximo.

Independentemente do resultado, a eleição deste domingo marca o início de um novo ciclo no Chile, em que forças sociais e políticas terão de disputar, permanentemente, o sentido da democracia e o destino das reformas estruturais paralisadas desde 2019.

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