ESVAZIAMENTO NA ONU EXPÕE A FRAGILIDADE POLÍTICA DE NETANYAHU E O ISOLAMENTO DE ISRAEL
Gesto simbólico pode se converter em “enfraquecimento político internacional” e em um “isolamento ainda maior”
O esvaziamento no discurso de Benjamin Netanyahu na Assembleia Geral da ONU, na sexta-feira (26), foi interpretado como um sinal claro de fragilidade política do primeiro-ministro israelense e de um isolamento crescente de Israel no cenário internacional.
Para a jornalista e pesquisadora Cilene Victor, do grupo HumanizaCom, da UMESP, o simbolismo desse gesto pode se converter em perdas políticas concretas.
“Esse esvaziamento tem valor simbólico num primeiro momento, mas pode se transformar em enfraquecimento político internacional e em um isolamento ainda maior. Israel tem o direito de existir, mas não pode negar o mesmo direito à Palestina em meio a esse genocídio”, afirma, em entrevista à TV GGN [assista abaixo].
Ela lembra que o gesto de esvaziamento não aconteceu de forma isolada. O processo começou com o relatório divulgado em 16 de setembro pela Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre os Territórios Palestinos Ocupados, que concluiu que Israel cometeu genocídio contra palestinos em Gaza.
Netanyahu, em resposta, endureceu o tom. Diante do esvaziamento de diversas delegações, negou que o Exército israelense esteja matando civis ou provocando fome em Gaza, e rejeitou a criação de um Estado palestino.
“A imprensa não teve como ignorar quando ele disse: ‘Eu ainda não acabei, Israel ainda não acabou o plano em Gaza’. Isso foi muito grave”, avalia Cilene.
A cobertura internacional e o peso do termo “genocídio”
Além do desgaste político, Cilene destaca a forma como a imprensa internacional tem narrado os acontecimentos em Gaza.
“Até este momento, a maioria dos veículos internacionais não assumiu a palavra genocídio, a não ser quando aparece entre aspas, atribuída a alguém. Por isso, quando o presidente Lula foi explícito na ONU e disse que se trata de genocídio, todos os jornais tiveram que registrar. Mas sempre com a ressalva de que era uma declaração do presidente do Brasil”, explica.
O jornalista Luis Nassif ponderou que, mesmo evitando a palavra, a imprensa já não consegue blindar Israel.
“Há quase uma contradição: não dizem genocídio, mas a cobertura é de condenação expressa. Isso mostra que a influência que o sionismo tinha sobre a mídia internacional se esvaiu, inclusive com revoltas internas de jornalistas, como vimos na Reuters”, afirmou.
Para Cilene, as redes sociais desempenharam um papel central nesse processo. “Foi o primeiro genocídio filmado e divulgado em tempo real, sem a intermediação dos grandes veículos. As imagens de crianças mortas, famintas, chorando, circularam pelas redes e tornaram impossível embromar a opinião pública. Isso criou uma base de consciência global que hoje não consegue mais defender Israel”.
A diferença em relação a outros massacres, como os de Ruanda e Srebrenica, explica a pesquisadora, está na existência de registros imediatos.
“Antes, o mundo dependia do relato posterior. Agora, temos o registro em tempo real, mesmo com mais de 270 jornalistas palestinos assassinados desde o início da ofensiva. Isso é inédito e muda o patamar da pressão sobre Israel”.
O número de mortos em Gaza chegou a 62 mil em agosto, segundo autoridades palestinas. De acordo com a ministra de Estado das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, Varsen Aghabekian, 80% do território está em ruínas, enquanto Israel segue com sua política de genocídio, justificando o injustificável.
Assista ao programa completo abaixo:
Leia também:
