LUIS NASSIF: PARA ENTENDER O XADREZ DE TRUMP COM A CHINA

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O enorme salto tecnológico da China foi reação à nova Guerra Fria produzida por Trump em seu primeiro mandato e intensificada por Joe Biden.

(Official White House Photo by Shealah Craighead)

Em artigo ao “Project Syndicate”, ele minimiza as ameaças de Donald Trump de aumento tarifários. Diz ele que os líderes chineses interpretam como jogadas políticas simbólicas, e não armas econômicas – mesmo porque, empresas americanas estão entre as grandes beneficiárias da produção chinesa.

O grande dilema chinês é se deve ou não desvincular sua economia do sistema monetário dominado pelo dólar, montando um arranjo tipo Bretton-Woods com os BRICS.

A bola está com os falcões de Trump encarregados de pensar a China.

Haverá um aumento do déficit orçamentário e um fortalecimento inicial do dólar, mitigando o efeito negativo das tarifas sobre as exportações chinesas. Mas há um limite, diz Varoufakis, que é a crença dos investidores de que o aumento nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA não ofuscará os índices de ações dos EUA. Aumentará a lacuna entre poupança doméstica e investimento, a causa raiz do déficit comercial dos EUA em relação à China e à Europa.

Varoufakis descreve os problemas de Trump como um “trilema”: como combinar tarifas altas, um dólar mais fraco e manter a hegemonia global do dólar?

Os líderes chineses julgam que Trump tentará com eles o que Ronald Reagan fez com o Japão no Plaza Accord de 1985.

Nos anos 1980, o dólar americano estava extremamente valorizado devido a uma combinação de altas taxas de juros nos EUA e políticas fiscais expansionistas do governo Reagan. Essa valorização tornou as exportações americanas muito caras e pouco competitivas, ao mesmo tempo que incentivava a entrada de importações baratas, ampliando o déficit comercial dos EUA.

Foi fechado um acordo com o Japão e a Alemanha Ocidental. Ambos se comprometeram a valorizar suas moedas em relação ao dólar, barateando as exportações americanas e encarecendo as suas exportações.

Com o acordo, o dólar perdeu 50% de seu valor. A valorização do iene acabou provocando a formação de uma bolha de ativos que explodiu anos depois e a crise financeira continuou nos anos 90.

Obviamente, a China não é o Japão. Na época, havia 55 mil militares dos EUA estacionados no Japão, derrotado na Segunda Guerra Mundial. Além disso, a China já não é mais tão dependente do mercado norte-americano, diversificou, montou cadeias de suprimento próprias, indispensáveis em todo o mundo.

Não há chance, portanto, de um repeteco do Plaza Accord com a China. Mas é possível que aceite uma negociação simbólica com um acordo envolvendo tarifas ligeiramente mais baixas.

O maior impacto será sobre a União Europeia. A recalibração do comércio mundial se dará com os EUA comprando mais do Vietnã e da Índia e a China disparando suas exportações para a Europa e o resto do mundo. Além disso, a valorização do dólar provocará uma transferência de capitais europeus para os Estados Unidos.

O enorme salto tecnológico recente da China foi reação à nova Guerra Fria produzida por Trump em seu primeiro mandato e intensificada por Joe Biden.

O risco maior será se os falcões pressionaram o governo Trump a impor sanções financeiras à China, como foram impostas à Rússia. A defesa da China será acelerar a moeda única dos BRIC. tendo o superávit comercial chinês como seu suporte.

Para consolidar a moeda, a China teria que disponibilizar seus excedentes aos BRICS para permitir que as rúpias que a Rússia recebe por suas exportações de petróleo à Índia possam ser trocadas, a uma taxa quase fixa, por renminbi, para serem gastos em produtos chineses. Foi o que os EUA fizeram nas décadas de 1950 e 1960 para consolidar o sistema de Bretton Woods.

Mas tudo isso dependerá do jogo geopolítico, não da economia.

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