“JÁ SE TOMA AÇAÍ COM VENENO, AGORA VAI SER AÇAÍ COM PETRÓLEO”, DISSE TAINÁ MARAJOARA SOBRE INTENÇÃO DE PETROBRÁS EXPLORAR FOZ DO AMAZONAS

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Ativista é fundadora do Ponto de Cultura Alimentar Iacitátá que fortalece agricultura de povos indígenas e assentamentos

Lucas Weber

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“Já se toma açaí com o veneno e, agora, vai se com o petróleo” – Foto: Roberta Brandão

A possibilidade da Petrobras iniciar exploração de petróleo na Foz do rio Amazonas tem preocupado especialistas da área ambiental e lideranças que atuam na região.

É o caso da cozinheira e ativista indígena Tainá Marajoara. Ela é membra do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e, desde 2009, administra o Ponto de Cultura Alimentar Iacitátá, com base em Belém, que promove o “circuito curto” da agricultura indígena, ribeirinha e de assentamentos da reforma agrária para população urbana da capital paraense.  

“As tragédias climáticas são anunciadas. Quando se dá o nome de tragédias climáticas é como se o clima, sozinho, tivesse enlouquecido, estivesse com raiva. E não é isso, ele é provocado por um modelo de destruição de ecossistemas. Esse mesmo modelo é o que está colocando aqui a prospecção de petróleo na Foz do rio Amazonas”, comenta a especialista em entrevista ao programa Bem Viver desta sexta-feira (24).

A Petrobras teve a licença ambiental rejeitada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por falta de estudos técnicos. No entanto, o tema não foi dado como superado pelo governo, nem pela estatal.

Agora ganha mais força por conta da nova presidenta da Petrobras, Magda Chambriard, que teve o nome aprovado nesta sexta-feira pelo conselho da estatal, e é uma defensora da atividade.

“A gente não pode desistir da Margem Equatorial. Nesse ponto, meu foco é a Foz do Amazonas, pelo tipo de geologia, pelo afastamento da costa, pelas águas profundas e pelo talude mais espesso”, afirmou ao portal Brasil Energia, em abril de 2024.

Tainá Marajoara associa o modelo da indústria de alimentos e do agronegócio à crise climática que vem afetando o Brasil e o mundo, com o exemplo recente das enchentes que atingem o Rio Grande do Sul. 

“Falam ‘ah, mas [a exploração do petróleo] não é tão próximo da costa’, mas é sim, porque a gente vive de marés, os nossos rios são rios de marés, o nosso rio vai e volta para dentro do mar, ele vai e volta para dentro da Amazônia”, explica.

Segundo a ativista, não existe combate à fome sem uma reorganização das cadeias produtoras de alimentos.  

“A gente combate a fome combatendo aqueles que são geradores da fome. Não dá para combater a fome sem combater o agronegócio, sem combater a privatização da biodiversidade das nascentes”, cita.

Ela vai além e põe como fundamental dar direitos e condições básicas para agricultores familiares e comunidades indígenas como estágio inicial para combate à fome no país.

Na entrevista ela também retoma o conceito de “bem viver”, utilizado ancestralmente por diversos povos indígenas em diferentes regiões da América Latina.

“Quando a gente fala de bem viver, a gente está falando de um processo como um todo, que muitas vezes é confundido como se bem viver fosse esta no mato, numa floresta preservada”, comenta.

“Não, a gente precisa ter consciência de que nós temos mais de 70% da população vivendo em área urbana. Então a gente não pode aceitar viver de forma inóspita, cheio de cimento, de concreto, com tecnologias avançadíssimas que nos destroem todos os dias e tornam impossível você ter um grande acesso a uma água limpa, potável, sem metais pesados, por exemplo.”

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Como você definiria o conceito de bem viver?

Tainá Marajoara: A cultura alimentar é insociável do bem viver. Tem algo que a gente vem falando há bastante tempo, que se a Amazônia precisa ficar de pé, as lideranças não podem tombar. Não existe floresta de pé com liderança tombada. 

Para a gente começar a falar de bem viver, a gente precisa entender que todos nós fazemos parte disso. Nós vemos hoje um processo de defesa do clima, da floresta, do Cerrado, de defesa dos biomas, mas pouco se fala daquelas pessoas que estão nesses lugares. 

Quando a gente fala do bem viver, nós estamos falando de uma justiça socioambiental para todo mundo, de um processo justo que alcance todo mundo, que a gente consiga viver com equidade, com dignidade, com a nossas nascentes limpas, com o nosso ar fresco, com os nossos pássaros cantando e semeando, com os nossos animais sendo tão antigos quanto as nossas matas.

Que as nossas guardiãs sejam reconhecidas por tudo aquilo que elas são.

Quando a gente fala de bem viver, a gente está falando de um processo como um todo, onde muitas vezes é confundido com algo de que a bem viver é estar no mato numa floresta preservada.

Não, a gente precisa ter consciência de que nós temos mais de 70% da população vivendo em área urbana. Então a gente não pode aceitar viver de forma inóspita, cheio de cimento, de concreto, com tecnologias avançadíssimas que nos destroem todos os dias e tornam impossível você ter um grande acesso a uma água limpa, potável, sem metais pesados, por exemplo

Para a gente falar de bem viver, a gente precisa falar de tudo isso. Da garantia da nossa prática cultural. Da garantia da nossa prática espiritual. De processos que não sejam genocidas, aniquiladores, autoritários, nada disso faz parte do bem viver. O fascismo, o autoritarismo, o sionismo, o antidemocrático, nada disso é parte do bem viver. 

O bem viver é a gente vivendo em paz, em equidade, com comida na mesa, com dignidade, com floresta em pé, sem as nossas lideranças tombadas. Do rio ao mar, com a Palestina Livre.

O bem viver não é só para nós povos indígenas. A gente quer o bem viver para o mundo inteiro.

A gente não quer ver as crianças aos pedaços como a gente tem assistido na Palestina. O que assola a Palestina, o que assola o Marajó, o que assola o mundo chama-se colonialismo. 

O colonialismo não é parte do bem viver. E quando a gente diz que a cultura alimentar é indissociável do bem viver, é porque a cultura alimentar é o saber, o fazer, o falar, o plantar, o cuidar, o curar, o construir, o tecer, o encantar da nossa liberdade espiritual, da nossa convivência metafísica.

Uma das faces mais racistas que existe é o racismo imposto sobre a alimentação. Quando ouvimos “não vou comer isso porque você é de preto. Não come isso que isso é comida de índio”. Ou “não come isso que tu não é mais pobre”.

Você é membra do Consea. Como você está enxergando o combate à fome nesta terceira gestão do governo Lula? As medidas certas estão sendo tomadas? Há um risco que o combate à fome seja associado ao incentivo de ultraprocessados?

É um processo muito complexo, porque quando se fala de combate à fome, existem várias frentes no país que tratam dessa questão e de modos completamente diferentes.

Tem campanhas muito grandes que acham que combater à fome é simplesmente distribuir cesta básica. Por outro lado, existe um esforço do governo federal via o MDS [Ministério do Desenvolvimento Social] que é tentar algo bastante relacionado ao guia alimentar brasileiro, tentar diminuir o consumo de ultraprocessados.

A gente vê agora a própria cesta básica, que antes a gente não tinha esses alimentos naturais, e agora a gente tem aí os derivados de mandioca, por exemplo.

No entanto, a gente combate a fome combatendo aqueles que são geradores da fome. Não dá para combater a fome sem combater o agronegócio, sem combater a privatização da biodiversidade das nascentes.

A gente precisa entender que tem questões que são estruturantes. Por exemplo, não temos como avançar sem antes impedir que o camponês passe fome. A gente tem 27 % da população do campo em situação de fome. As populações indígenas que estão nas áreas urbanas passam fome e é uma população completamente invisibilizada. 

Aqui no Pará, por exemplo, a gente tem o Observatório de Cultura Alimentar e Direito Humano à Alimentação e Nutrição Adequados, que avanço com uma pesquisa de monitoramento da fome aqui em Belém dos indígenas, em situação urbana na cidade de Belém, de 2020 a 2023. E descobrimos que a população indígena de Belém chega a 70% em situação de fome.

Combater a fome não é só distribuir comida. Mas a gente sabe que a realidade do país ainda tem muito disso como base. E além disso, sabemos que há uma distribuição grande de alimentos com agrotóxicos, de alimentos que não vêm de base agroecológica.

A gente luta todos os dias contra isso. Eu posso falar em nome do Consea que essa é uma luta vital. A luta contra os agrotóxicos, contra os ultraprocessados e também o combate aos conflitos de interesse. 

Nós temos que considerar que existe um conflito de interesse no que diz respeito às campanhas de combate à fome, afinal a indústria de alimentos, as super corporações, que são essas mesmas que matam a gente todos os dias com venenos, elas também fazem campanhas de distribuição de alimentos, e com isso elas ganham status positivos, de que estão fazendo um trabalho social.

E eu preciso falar disso, é preciso denunciar o que está acontecendo no mundo, porque são as grandes corporações, essas mesmas que financiam o veneno, que querem a prospecção de petróleo na Amazônia, que financiam a destruição, que fazem um lobby pela dissolução de direitos, são elas que causam conflitos ao redor do mundo. 

Você pode perguntar que tem a ver com o petróleo com fome? Tudo! 

Porque os agrotóxicos estão ligados também à indústria de petróleo. Quando você vai lá e busca um fiozinho de petróleo, ele está em todo o canto.

As tragédias climáticas são anunciadas. Quando se dá o nome de tragédias climáticas é como se o clima sozinho tivesse enlouquecido, estivesse com raiva. E não é isso, ele é provocado por um modelo de destruição de ecossistemas. 

Esse mesmo modelo é que está colocando aqui prospecção de petróleo, na Foz do rio Amazonas e que vai impactar o mundo. A gente está falando de uma área de berçário de animais, de uma área de corais.

Falam “ah, mas não é tão próximo da costa”, mas é sim, porque a gente vive de marés, os nossos rios são rios de marés, o nosso rio vai e volta para dentro do mar, ele vai e volta para dentro da Amazônia.

Nós temos um fenômeno aqui que é a pororoca, que é o mar que entra e o rio que empurra de volta.

Imagina isso levando à contaminação de petróleo. A gente vai tomar açaí com o petróleo. Já se toma açaí com o veneno, e agora vai se com o petróleo. 

Sem contar a escassez que vai ser provocada, que é a escassez do camarão, a escassez dos nossos pequenos bichinhos, que são a grande fonte de proteína. Isso também é um provocador da fome.

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