APESAR DE ALERTAS DE ENCHENTES, EDUARDO LEITE TINHA AGENDA FISCAL COMO PRIORIDADE NO RS
Governador nega que alterações no código ambiental tenham relação com a inundação: “é absurdamente equivocada, para dizer o mínimo”
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) deu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo em que reconhece que, apesar dos alertas e estudos de que haveria a elevação do nível dos rios e, consequentemente, grandes enchentes no estado, a prioridade do governo estadual gaúcho era a questão fiscal.
“Bom, você tem esses estudos, eles de alguma forma alertam, mas o governo também vive outras pautas e agendas. A gente entra aqui no governo e o estado estava sem conseguir pagar salário, sem conseguir pagar hospitais, sem conseguir pagar os municípios. A agenda que se impunha ao estado era aquela especialmente aquela vinculada ao restabelecimento da capacidade fiscal do estado para poder trabalhar nas pautas básicas de prestação de serviços à sociedade gaúcha”, disse o governador quando questionado se o governo se preparou mal para enfrentar as possíveis inundações.
Ainda sobre os alertas, Leite justificou que “muitos alertas foram feitos e não se consumaram” e que, por isso, o poder público tem de se estruturar para “tentar depurar o que é crítico.“
Código ambiental
Outra hipótese refutada pelo chefe do Executivo do Rio Grande do Sul é a de que as 480 mudanças nas normas ambientais têm relação com a tragédia enfrentada pelos gaúchos desde o final de abril, até porque esta relação “é absurdamente equivocada, para dizer o mínimo”.
“Mas também simplesmente burocratizar e dificultar licenças não é proteger o meio ambiente. Acabaram com a legislação ambiental? Não, aprimoramos, modernizamos, ajustamos e até endurecemos em muitos pontos”, emendou o governador.
Protagonismo
Até o momento, o Rio Grande do Sul soma 157 vítimas fatais das enchentes, além de 2 milhões de atingidos e quase 645 mil desalojados. Mas a tragédia não parece tirar o sono do governante.
“Temos que dormir até para estar com a cabeça boa para cumprir toda a missão. Nos primeiros dias, foi mais difícil porque era o momento crítico de resgate, de apoio aos municípios. Estamos assim desde 29 de abril. Foram noites muito intensas, então nas primeiras noites era celular ligado o tempo todo. Nesses últimos dias, consigo ter um pouco mais de organização. É importante para ter a cabeça com capacidade de raciocinar e atuar sobre as diversas questões mais críticas, que agora são permitir abrigo adequado para as pessoas”, afirma Leite.
O que parece tirar mesmo o sono do governador é um eventual protagonismo do governo federal. Ao longo do questionamento, Leite ressaltou diversas vezes que o protagonismo deve ser estadual.
“A questão política em todo esse processo é o que mais me preocupa desde o início dele [referindo-se ao processo de reconstrução do estado].”
“Naturalmente, o governo do estado tem um protagonismo que não é por vaidade ou interesse pessoal do governador, é pelo que o voto popular conferiu. Nós somos uma federação, e uma federação composta por estados onde existem governos constituídos pelo voto popular para liderar um processo, não para mandar simplesmente. Não é para ser do jeito que eu quero, porque eu ganhei uma eleição, é para liderar o processo reunindo as forças da sociedade.”
“Por uma decisão que a sociedade tomou, pelo voto popular. Então, o que o ministério que o presidente Lula criou tem no nome, e entendo deva ser o que orienta a sua ação: é uma secretaria extraordinária para apoio à reconstrução. Todo apoio é bem-vindo.”
Como de praxe, o governador não perdeu a oportunidade de criticar, de forma velada, a atuação do Planalto.
“A gente já estava com esse processo de contratação, justamente observando as dificuldades, via Minha Casa Minha Vida, de viabilizar as moradias. Quando você tem recurso federal, tem que apresentar o plano de trabalho, estudos, dados e projetos. Sábado [dia 18] eu conversava com os prefeitos do Vale do Taquari e era a reclamação deles, a demora de conseguir atender toda a burocracia que existe nos recursos via ministério, com a Caixa Econômica Federal”, alfinetou o governador, quando questionado sobre as novas residências para os cidadãos que estão em abrigos.
