DIA MUNDIAL DA ABELHA: INSETO RESPONSÁVEL PELA DIVERSIDADE NA NOSSA ALIMENTAÇÃO É AMEAÇADO POR AGROTÓXICOS E DESMATAMENTO
Uso irregular de pesticidas, como Fipronil, causa mortandade nas espécies nativas e nas criadas por apicultores
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Uma frase atribuída a Albert Einstein diz que sem as abelhas a sociedade não viveria mais de quatro anos. Para o professor Dejair Message, especialista no inseto há basicamente 50 anos, a afirmação, talvez, tenha sido dramática demais, porém sinaliza uma verdade.
“Talvez não seria bem assim, tão forte, mas com certeza a população humana passaria fome e poderia ser bastante reduzida”, relata o pós-doutor na área de Patologia Apícola em entrevista ao programa Bem Viver desta segunda-feira (20).
No Brasil há abelhas nativas, mas também convivemos com espécies exóticas, vindas da Europa e da África. Inclusive, hoje, grande parte da produção de mel e derivados é atribuída ao processo de miscigenação entre as abelhas naturais daqui e as trazidas de fora.
Segundo Message, existem alguns alimentos que são responsabilidade exclusiva das abelhas, como é o caso das amêndoas. Quase a totalidade das maçãs produzidas são resultado da polinização exercida pelas abelhas, situação semelhante à das laranjas.
“Se nós fôssemos num restaurante tomar um café da manhã e tivesse muitas frutas diversas expostas para a gente escolher… Se não tivessem as abelhas, com certeza essa mesa seria bastante reduzida. Você poderia ter alguma coisa feita com soja, talvez uva, mas seria bem menos rica”, destaca o professor.
E a sociedade precisa, de fato, se preocupar com a saúde das abelhas. O especialista explica que os agrotóxicos são uma arma fatal contra os insetos. O uso irregular deste veneno pode causar uma mortandade em massa, tanto dos animais que vivem solitários na floresta, como os criados por apicultores em áreas próximas a lavouras.
Além disso, as abelhas são prejudicadas pelo desmatamento. “Você tá tirando as fontes de alimento das abelhas que são o néctar e o pólen. Se você desmata, de repente, você retira uma grande quantidade desse alimento.”
Dejair Message é professor titular aposentado na Universidade Federal de Viçosa (UFV), professor visitante da Federal de Mossoró e também do Instituto Federal do Sul de Minas, no campus Muzambinho.
Confira a entrevista na íntegra:
Qual é a importância das abelhas para a sociedade?
Muitas pessoas pensam que as abelhas são, unicamente, produtoras de mel. Algumas até vão além um pouquinho e sabem que elas produzem pólen que a gente pode consumir, que é bom para a nossa saúde, que elas podem produzir geléia real…
As abelhas são muitíssimas importantes para este tema que é a polinização. A polinização é o motivo pelo qual as plantas com flores que surgiram 140 milhões de anos atrás puderam evoluir e ter toda essa diversidade que temos hoje. Ou seja, tudo graças às abelhas. Elas surgiram nessa mesma época das plantas com flores.
Essas plantas, devido à fecundação cruzada, que troca genes entre uma planta e outra, puderam aumentar a sua biodiversidade. Com isso, nós temos uma quantidade enorme de plantas diferentes hoje, graças às abelhas que são os principais polinizadores. Existem outros meios de polinização, mas as abelhas são importantíssimas como polinizadores.
Então, a abelha não produz só mel, ela faz a polinização como um papel bastante importante.
Para você ter uma noção, nos Estados Unidos, as abelhas são responsáveis por 100% da polinização da amêndoa, que a gente muitas vezes consome por aqui. A maçã também: cerca de 90% da produção de maçã é devido à polinização pelas abelhas. A laranja um pouco menos, e assim por diante.
Tem algumas plantas que a produção não aumenta tanto, porque são plantas que tem um processo que a gente chama de autopolinização, mas as abelhas ajudam também na produção dessas plantas.
Se você pegar o café, por mais que seja uma planta que tem autopolinização, ela [a abelha] melhora a qualidade inclusive da própria bebida. Ou a laranja, ela tem um sabor melhor.
A polinização é o ponto chave que o consumidor brasileiro deveria ter em mente. Quando nós consumimos mel estamos contribuindo para o número de abelhas na população e, com isso, aumentar a polinização. Ajuda consumir os produtos da abelha, e ajuda a aumentar a polinização das plantas.
É possível imaginar um mundo sem abelhas?
Se nós fôssemos num restaurante tomar um café da manhã, tivesse um bom hotel, um bom restaurante e tivesse muitas frutas, diversas expostas para a gente escolher… Se não tivessem as abelhas, com certeza essa mesa seria bastante reduzida. Você poderia ter alguma coisa feita com soja, talvez uva, ou até mesmo laranja etc. Mas seria muito menos rica.
E se não existisse abelha nenhuma, com certeza… [Albert] Einstein já dizia né, que em quatro anos nós seríamos extinguidos. Talvez não seria bem assim, tão forte, mas com certeza a população humana passaria fome e poderia ser bastante reduzida.
Os agrotóxicos podem ser colocados como os principais vilões?
Está havendo um certo declínio das abelhas de uma maneira geral, principalmente das abelhas nativas, que estão no mato e que normalmente não tem um apicultor para cuidar delas, não tem um meliponicultor.
Nas lavouras, que cada vez aumentam mais no Brasil, tem sido utilizado, muitas vezes de forma até irregular, agrotóxicos danosos para as abelhas.
Alguns agricultores utilizam herbicidas que são terríveis para as abelhas. Elas não podem nem pensar, que caem fortes. Porque eles atuam em baixas concentrações como 4 nanogramas. Se você for ver o que é 4 nanogramas, é praticamente nada.
É como o caso do agrotóxico chamado Fipronil, ele realmente é muito sério, e tem outros também que são sérios. Mas esse atua em baixas doses para matar pragas e os agricultores colocam ele para matar formigas, mosquitos, enfim. Eu já presenciei uma situação dessa, onde o apicultor perdeu várias colméias, porque o agricultor fez essa prática irregular.
E uma outra preocupação além dos agrotóxicos é o desmatamento. Você tá tirando as fontes de alimento das abelhas que são o néctar e o pólen. Se você desmata, de repente, você retira uma grande quantidade desse alimento. Com isso, aquela abelha poderá ser extinguida daquele local.
Quais são as abelhas existentes no Brasil?
Uma abelha que talvez as pessoas vão entender bem e que conhecem, é a Jataí, e também a Uruçu. Essas abelhas são daqui do Brasil.
Mas aqui nas Américas nós temos uma quantidade bastante grande de espécies de abelhas que surgiram e que foram evoluindo aqui no continente. Parte ou quase toda a América Central, a América do Sul e a América Central, menos as regiões mais frias ao sul da América do Sul.
A intervenção do homem é muito importante para salvar algumas dessas espécies. Não todas, como eu falei, tem várias espécies que, inclusive, são solitárias, que são nativas da região, mas fazem seu ninho, aprovisiona a célula, faz a postura de um ovo, fecha essa célula e vão embora e aí depois nasce uma abelha.
Agora, em 1832, foi introduzido uma abelha aqui no Brasil, que é a apis mellifera, que alguns chamam de Europa. São abelhas que tem ferrão e foram introduzidas principalmente para a produção de cera, para produzir vela naquela época.
Quem primeiro introduziu foi um padre no Rio de Janeiro, e com isso essas abelhas foram ocupando o território, outras foram introduzidas ao longo dos anos.
Finalmente em 1956, como as abelhas europeias aqui não eram muito bem adaptadas, foi introduzida uma abelha da África, porque os climas são mais ou menos semelhantes e elas poderiam se adaptar muito bem aqui no Brasil.
E essas abelhas, antes de serem melhores estudadas aqui no Brasil, elas escaparam, fugiram, e como elas têm uma adaptação melhor do que a abelha europeia, acabaram cruzando com as abelhas daqui ou as europeias e assim formou-se uma população híbrida, que nós chamamos de abelha africanizada.
Então gostaria de apelar aos consumidores brasileiros que adquiram méis de produtores locais, tanto mel de meliponídeo que é muito bom, quanto mel de abelhas africanizadas. Dessa forma eles estarão contribuindo para a manutenção destas abelhas.