MÚCIO, AO AFIRMAR QUE O GOLPE ERA MAIS UM PIQUENIQUE, NOS LEVA AO TEATRO DO ABSURDO DE ARRABAL: “PIQUENIQUE NO FRONT”
PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG
Em todo sistema-social a linguagem tem sempre uma função. Até mesmo quando não tem nenhuma. Foi o que exibiu o ministro da Defesa, José Múcio ao afirmar que os golpistas estavam fazendo era mais um piquenique, por isso deveriam ser anistiado. Como também, Bolsonaro.
A gargalhada foi geral. Múcio sempre deixou transparecer que tem uma verve cômica. Mais para farsa. Embora lula não tenha ainda percebido como já deveria ter percebido. Mas, se ele não assume esse talento, pelo menos nos permite lembrar do talentoso teatrólogo espanhol, Fernando Arrabal. Considerado um dos mais cômicos do chamado Teatro do Absurdo, junto com Ionesco, Adamov, Beckett, entre outros.
É claro, que o absurdo que Múcio apresenta aos brasileiros, não é o mesmo que Arrabal encena em seu respeitadíssimo texto, Piquenique no Front que mostra o jovem soldado Zapo, na guerra sendo visitado pelos seus pais para realizarem um belo piquenique, tendo como convidado o soldado inimigo que fora aprisionado, Zepo enquanto a guerra corre solta.
O teatro de Arrabal é considerado como absurdo, não no sentido banal da palavra absurdo e nem no sentido filosófico que Camus concedeu à Vida, posto que a Vida não é um absurdo. O absurdo de Arrabal é a expressividade da existência que não atingiu a lógica social e a ética da Vida como compromisso Humano. Por isso, seus personagens se mostram como distanciado do que o sistema dominante toma como verdade.
Ao contrário de Arrabal, quando Múcio afirma que os golpistas expressavam mais que estavam em um piquenique do que buscando causar transtorno ao país e violentar a Constituição, e afirma que eles deveriam ser anistiados, qualquer democrata percebe que ele quer se colocar em defesa dos militares. Como fez durante toda preparação para o golpe, durante os dias que antecederam os atos terroristas.
Na peça teatral de Fernando Arrabal, Piquenique no Front, a comicidade coloca o sistema bélico assassino em evidência através da política-teatral usando como recurso o humor-pedagógico que escancara a irracionalidade e a ambição das nações que fazem parte da guerra como recurso sórdido de simulação que lutam pela paz. E no fim da peça, os personagens Zapo, Zepo, e, seus pais, o senhor e a senhora Tépan, saem ilesos no envolvente espetáculo do absurdo.
Entretanto, no piquenique de Múcio, o absurdo se mostra em toda sua absurdez como expressão dos recalques, das repressões, das humilhações, das perversões, das castrações, das ameaças, dos desprezos, dos desamores, das violências que os golpistas sofreram em suas infâncias, como mostra a psicanálise, materializadas em destruição dos prédios dos Três Poderes como seus móveis, suas obras de artes, seus documentos, seus dados históricos.
Como diz, Dona Zapatinique, tomando uma talagada de vinho: “No piquenique do Arrabal, os personagens festejaram comendo sanduíches, bolos, tomando sucos e sorvendo saboroso vinho. No piquenique do Múcio, os golpistas festejaram quebrando vidraças, móveis, relógios, rasgando poltronas, documentos, pichando paredes, e, mais, com forte intensão de pegar Lula e o ministro Alexandre de Moraes. O front para eles era evidente e objetivado”.