GRUPO UNIVERSITÁRIO DE TEATRO DO AMAZONAS – GRUTA: CAMPO DE IMANÊNCIA DO NOMADISMO POLÍTICO-ESTÉTICO-INTEMPESTIVO DISJUNTIVO DE QUALQUER 50 ANOS
PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG
Em outubro do ano de 1973, tempo de terror dominante imposto pela ditadura cívica-militar, como, também, início de mais uma ditadura sangrenta na América do Sul, desta vez no Chile, com os assassinatos de duas fundamentais personagens-democráticas, o presidente Salvador Allende e o cantor popular, Victor Jara, além de outros libertários, alguns estudantes universitários decidiram, em Manaus, compor um Grupo-Sintoma, como pensa o filósofo-psiquiatra francês, Félix Guattari: quando se descobre que não há lugar para si na sociedade e é preciso agir para que seja criada a sociedade em que tenha lugar para todos viverem e viverem bem.
Engajados e inquietos diante da perversa realidade, estes estudantes criaram o Grupo Universitário de Teatro do Amazonas. O moleque, GRUTA! Composto por uma singular heterogeneidade de pensamentos sensíveis, intelectivos e éticos, a expressão de vivências e ideias dos cursos que esses estudantes frequentavam, não deu outra: o GRUTA se transformou em um Campo de Imanência do nomadismo afetivo-cognitivo, como pensa o filósofo francês, Gilles Deleuze. Tomando o Teatro Dialético, o Teatro Pedagógico de Brecht, como Método de Distanciamento, realizaram suas práxis e poieses. O método de teatro que melhor serve para confrontar a miséria e repudiar a paranoia da moral-burguesa: “Primeiro a barriga depois a moral”. O método que auxiliou Augusto Boal criar seu Teatro do Oprimido. Um método similar ao método-educacional-popular, Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.
Isto, porque, como diz o poeta russo Vladimir Maiakóvski: A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo. O que a moçada que tenta fazer teatro em Manaus ainda não entendeu e continua repetindo um teatro gastronômico, indigesto, alienando, carregado de signos abstratos, sem engajamento e nenhum vanguardismo. Um pseudo-teatro “para acompanhar bocejos, romances astrais“, como diz Belchior. Além, de total subserviência aos governantes como se eles entendessem da estética e da semiótica das artes.

Condensado com o pensamento do escritor inglês, D.H Lawrence, que enuncia que o mundo é como um guarda-chuva, onde por cima se desloca toda a potência-caosmótica, o artista, que se encontra debaixo dele, faz um pequeno corte e algumas partículas-virtuais vazam pelo corte e apanha o artista que cria sua arte-revolucionária que jamais desaparecerá. Jamais será pulsada, jamais figurará uma cronologia. Depois, apavorado, alguém vem e fecha o corte do guarda-chuva. É o déspota. O igual. O mesmo. O domesticado. O funcionário do sistema-buraco-negro.
Apanhados nesse Campo de Imanência-caosmótico, os, agora, artistas do GRUTA, assumiram o Movimento Teatrosófico. A Produção da Teatralidade-Histórica. O Teatro-Dionisíaco. O Teatro de Rua e criaram um agenciamento de enunciação-coletiva-estética: ”SE VOCÊ NÃO VAI AO TEATRO, O TEATRO VAI AO SEU ENCONTRO!”. Assim, o GRUTA é eminentemente Teatro Populus. É matéria de variação contínua. “Se você não vai ao teatro”, não significar ir para um lugar, um prédio, uma casa. Significa não participar do jogo-cênico, porque o teatro é a arte. Não a casa de espetáculo onde se compõe este jogo. Não existe Teatro Amazonas, templo do ufanismo dos atoleimados. Existe um objeto arquitetônico onde são apresentados espetáculos cênicos. O teatro é a arte. O prédio é o prédio. Simplesmente e nada mais.
Em seu processual de produção, tem Rui Brito, Marquinho Aurélio, Dinho, Socorrinho Jobim, Atanázius Greco, Luis Marreiro, David Ranciaro, Sílvio Ranciaro, o Fuinha, irmão do David, Marcos José, Humsilka, Amorim, Dinair, Aparício de Morais, Deise Amaral, Nonato Pereira, Eurico Tadeu, Manuel Lobo, Beth Imbiriba, James Badejo Araújo, Luíza Garnelo, Ricardo Parente, … Em suas montagens, que vão de Joaquim Manuel de Macedo passando por Domingos Pelegrini, do PCB do Paraná, Jean Cocteau, Brecht, Marcos José, entre outros, as atrizes e atores interpretavam seus personagens em espetáculos que escolhiam além de participarem da produção e ficha técnica, sonoplastia, contrarregra, vestuário, etc.

Como o GRUTA encenava suas criações nas ruas, escolas, centros comunitários, penitenciária, hospitais, centros de saúde mental, e outros territórios, nunca lhe faltou público e que em algumas encenações participava da trama da peça. Sem deixar de leve, que o deslocamentos dos artistas para estes territórios de encenação, era quase sempre de ônibus ou na pernada. É mole? Era a nossa condição de proletariado vivendo uma dita que andava sempre dura. Quer ser artista-populus?
O Gruta, também, tinha uma atuação junto ao casal de teatrólogos Otto e Florence que realizavam trabalhos de teatro com as comunidades das favelas no Rio de Janeiro e publicavam um periódico de teatro chamado de Teatro de Encontro ao Povo. Foram, no contexto do teatro-político-estético, muito importantes para a moçada do GRUTA, visto que o GRUTA se assumia e se assume um Devir-Estético-Teatral eminentemente POLÍTICO. Não podia ser diferente. O Teatro é Devir-Político em sua Existência e Essência. Que o diga seu Criador, Dionísio!
O GRUTA iniciou suas atividades e ficou durante alguns anos, no Conservatório de Música da Universidade do Amazonas, situado no centro de Manaus, na Avenida Joaquim Nabuco, vizinho da casa do Bispo, CNBB, e foi dirigido, primeiramente, pelo maestro Nivaldo Santiago e, depois, pelo maestro-cearense, Nelson Edy. Ali, foi palco de homéricas polêmicas, concordâncias, discordâncias, amores e desamores. Ali, se sofreu com os assassinatos do jornalista Vladimir Herzog, o Vadlo, em 25 de outubro de 1975, do operário Manuel Fiel Filho, também no mesmo tempo, notícias de muitos que caíram nas mãos de seus algozes, muitas angústias diante das ameaças de prisões, frustrações-dolorosas pelas peças censuradas ou partes. Ali, nós vivenciávamos nossas angústias de presos no Cárcere Brasil, ao ar livre.
O nomadismo-intempestivo-disjuntivo do GRUTA, se confirma nos dias atuais, mesmo com alguns artistas operando em outros territórios, porque seus agenciamentos de enunciações-coletivas-teatrais foram e, estão, materializados com outras e outros companheiros teatralizantes.
O Rui Brito, filho da Midinha e do Miltinho, na década de 80, continuou com o GRUTA e realizou composições com outras atrizes e atores. Dessa moçada, alguns criaram seus próprios grupos, mas trabalhando com o mesmo sentido do Teatro Populus, como é o caso do educador-ator-encenador, Abdiel Moreno. Hoje, o Rui Brito, mora no município dos Bois, Parintins, e mantém um grupo de Teatro-Populus.

O Marcos José, depois de encenar no fim da década de 80 e começo de 90, com o jornalista-editor-ator e encenador do Grupo Chaminé, Mário Freire, algumas peças, inclusive Brecht, também, com a participação do professor e ator Haroldo Glauk e Abdiel Moreno, como Luz Nas Trevas de Brecht; e no fim de 90, com o educador, militante e ator, Miguel Oliveira encenar algumas peças com o Teatro Cabocão, hoje, faz parte do Teatro Maquínico da Associação Filosofia Itinerante (AFIN), que trabalha, sem fins lucrativos, nas periferias com crianças e adolescentes, há 22 anos.
E nessa mutação-contínua, e para quem se interessar, no ano de 1993, foi escrito o livro que narra a experiência do GRUTA cujo título é: GRUTA: Grupo Universitário de Teatro do Amazonas – A Flecha do Teatro Cabocão; Edição da Universidade do Amazonas.
Perguntam: O GRUTA é uma Escola de Teatro?
Resposta: Não! O GRUTA se movimenta como um agenciamento de enunciação-coletiva-teatral produtor de Afetos: Novas formas de Ver e Ouvir; Perceptos: Novas formas de Sentir; e Conceitos: Novas formas de Pensar!
Beijos e Abraços Dionisíacos- Grutanianos!