A GUERRA HOJE É OUTRA, MAS A REIVINDICAÇÃO DE LULA NA ONU É A DE SEMPRE: MAIS VOZ PARA O BRASIL

0
UN-DIPLOMACY-DEVELOPMENT

United Nations Secretary-General Antonio Guterres speaks at the opening session of the second Sustainable Development Goals (SDG) Summit on September 18, 2023 ahead of the 78th UN General Assembly. (Photo by TIMOTHY A. CLARY / AFP)

ASSEMBLEIA DA ONU

Desde 2003, ano do conflito no Iraque, o Brasil cobra uma reforma da instituição e da governança global como um todo

Redação
Brasil de Fato | Botucatu (SP) |

 

Abertura de encontro sobre objetivos de desenvolvimento sustentável, nesta segunda (18), que precede a inauguração da Assembleia Geral da ONU – TIMOTHY A. CLARY / AFP

Começa nessa terça-feira (19) a 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Como de costume, o Brasil fará o discurso de abertura do evento, que reúne todos os 193 membros da ONU. No púlpito estará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela oitava vez, com o microfone aberto para discorrer sobre as linhas principais da política externa brasileira em diferentes temas.

O teor do discurso é sigiloso. Mas, tomando como base a participação de Lula em eventos recentes, como as cúpulas do Brics e do G7, é bem provável que ele pressione teclas nas quais vem batendo há 20 anos. Quando discursou nas Nações Unidas pela primeira vez, em 2003, o presidente se concentrou principalmente em dois temas: reformas da governança global e combate à fome. Em 2009, quando fez seu último discurso, voltou a falar de governança e destacou dois outros temas: crise financeira e mudanças climáticas.

Ou seja, uma breve observação do histórico de intervenções públicas de Lula permite notar que, dentre todos os assuntos, a reforma dos sistemas de governança mundial é um que ele nunca deixa de abordar. Motivo: ele quer que o Brasil, assim como outros países, tenha um lugar de fala mais destacado nas tomadas de decisões globais, notadamente aquelas referentes à paz e segurança internacionais. E que suas falas possam ser transformadas em ações.

“A reforma da ONU tornou-se um imperativo, diante do risco de retrocesso no ordenamento político internacional”, discursou Lula em 2003. Criticou o fato de a composição dos membros permanentes do Conselho de Segurança ser a mesma de quando a ONU foi criada, em 1945, e disse ser indispensável que as decisões do órgão gozem de legitimidade junto à Comunidade de Nações como um todo, um processo que ele qualifica de “aperfeiçoamento do sistema multilateral”.

Os membros permanentes eram cinco: Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China, basicamente as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Hoje, 20 anos depois, a composição continua a mesma. E Lula segue martelando para que este núcleo duro seja ampliado, argumentando que o cenário do pós-guerra não existe mais.

Uma regra em particular incomodava o presidente: o fato de os membros permanentes terem direito a veto sobre qualquer assunto, o que lhes confere poder de bloquear qualquer iniciativa da qual discordem. Nesse sentido, Lula afirmou: “A ONU já deu mostras de que há alternativas jurídicas e políticas para a paralisia do veto e as ações sem endosso multilateral”. No entanto, passadas duas décadas, o veto segue vigente. E Lula continua a criticá-lo sempre que tem uma oportunidade.

É importante considerar a “emergência de países em desenvolvimento como atores importantes no cenário internacional, muitas vezes exercendo papel crucial na busca de soluções pacíficas e equilibradas para os conflitos”, dizia o presidente em 2003, enfatizando que sua reivindicação não se refere apenas ao Brasil, mas a países em desenvolvimento de maneira geral.

Na época, o contexto era a segunda guerra no Iraque, que havia vitimado iraquianos e cidadãos de outras nacionalidades, entre eles o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então Alto Comissário para Direitos Humanos da ONU.

“Pode-se talvez vencer uma guerra isoladamente. Mas não se pode construir a paz duradoura sem o concurso de todos”, dizia o presidente. “A ONU não foi concebida para remover os escombros dos conflitos que ela não pôde evitar por mais valioso que seja o seu trabalho humanitário. Nossa tarefa central é preservar os povos do flagelo da guerra. Buscar soluções negociadas”.

Em 2009, ano em que Lula fez seu último discurso — ainda era presidente em 2010, mas não foi à ONU —, o destaque no cenário internacional era de outra ordem: os desdobramentos da grave crise financeira de 2008, detonada pela quebra do banco Lehman Brothers. Mas o presidente também a usou como mote para defender reformas nas lógicas de governança. Afinal, os países desenvolvidos e os organismos multilaterais onde eles eram hegemônicos, defendia o presidente, haviam sido “incapazes de prever a catástrofe que se iniciava e, menos ainda, de preveni-la”, em mais uma demonstração de que a correção de rumo da economia mundial não poderia ficar “apenas a cargo dos de sempre”.

Mais do que a crise dos grandes bancos, defendia Lula, o mundo vivia a “crise dos grandes dogmas”. “O que caiu por terra foi toda uma concepção econômica, política e social tida como inquestionável. O que faliu foi um insensato modelo de pensamento e de ação que subjugou o mundo nas últimas décadas. Foi a doutrina absurda de que os mercados podiam autorregular-se, dispensando qualquer intervenção do Estado, considerado por muitos um mero estorvo”, afirmou em seu pronunciamento de 2009.

Hoje, o mundo convive com mais um conflito, na Ucrânia, provocado pela invasão de um país que é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia. Lula tem condenado a invasão, mas sempre se recusou a ecoar as fortes críticas das potências ocidentais, que exigem a saída das tropas russas dos territórios invadidos como pré-condição para se negociar um acordo de paz.

O conflito prossegue e provavelmente será mais um gancho para Lula enfatizar que a busca por um planeta mais pacífico só se tornará viável quando as questões relativas a segurança e paz foram geridas de uma forma mais adequada à ordem mundial vigente neste ano de 2023.

Além de si próprio, o Brasil defende a inclusão da Índia, da Alemanha e do Japão como membros permanentes do Conselho de Segurança. Alemanha e Japão são os grandes derrotados da Segunda Guerra Mundial, portanto ficaram excluídos da definição da governança global naquela época. Lá se vão quase 80 anos. A Índia, como o Brasil, é membro fundador do Brics, assim como China, Rússia e África do Sul. O bloco realizou recentemente uma reunião de cúpula e cobrou, por meio de sua declaração final, a expansão do CS da ONU.

O discurso de Lula poderá ser acompanhado aqui, na manhã desta terça (19). A Assembleia Geral começa às 10h (de Brasília) e Lula é o terceiro a falar.

(Com informações da Carta Capital)

Edição: Patrícia de Matos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.