FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: FILOSOFIA E LITERATURA EM SETE PROPOSIÇÕES DE MILAN KUNDERA (1929-2023)
José Alcimar de Oliveira*
Em ambos os K, Kafka e Kundera, rege uma normatividade hermética. A liberdade não é possível porque
a liberdade é perfeita. Tal é a solene realidade da lei. Não há paradoxo algum. A liberdade supõe certa
visão das coisas, encerra a possibilidade mínima de dar sentido ao mundo (…). Porque, ao contrário dos
senhores da história, Milan Kundera está disposto a dar tudo por seu próprio destino e pelo de seus
personagens fora do “idílio imaculado” que pretende dar tudo e não dá nada. A ilusão do futuro foi o
idílio da história moderna. Kundera ousa dizer que o futuro já aconteceu, bem debaixo do nosso nariz, e
cheira mal
E, se o futuro já aconteceu, só são possíveis duas atitudes. Uma, reconhecer a farsa. Outra, recomeçar,
repropor os problemas humanos. Nesse recanto final do espírito cômico e da sabedoria trágica onde o
idílio não penetra com sua luz histórica e histriônica, Milan Kundera escreve alguns dos grandes
romances de nosso tempo (…) (Carlos Fuentes).
Primeira Proposição:
“Todos os romances voltam-se para o
enigma do eu. No início, é a ação que distingue o indivíduo. Mais tarde,
aprofunda-se o mundo interior, até chegar a Proust e Joyce. É o momento
em que Kafka declara: basta de psicologia” (Milan Kundera).
Corolário: Kundera se recusa a elaborar o futuro e a fazer análise
do eu. Prefere falar do mundo interiorizado no eu. Por que reduplicar o que
Kafka, pela via de K., já o fizera? Kundera escreve em meio a um futuro
consumado, que lhe cerceia o presente. A literatura, sem abrigo no
presente, é a única possibilidade que lhe resta para escapar ao futuro. Em A
encruzilhada (o filme) está o paradoxo diabólico: nada nunca é como a
gente quer que seja. Heráclito e Nietzsche guiam Kundera pela via
insustentável da leveza do ser. Afinal, o devir que constitui o eu
permanentemente escapa e é aprisionado pelo mundo.
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Segunda Proposição:
“Tenho medo dos professores para quem a
arte é derivada da filosofia. Não esqueçamos que o romance conhece o
inconsciente antes de Freud, a luta de classes antes de Marx, a
fenomenologia antes dos fenomenólogos” (Milan Kundera).
Corolário: Kundera recusava o enquadramento de sua produção
romanesca aos limites abstratos da meditação filosófica, carente de
situações e personagens. Por que não, ele rebatia, “meditação romanesca”?
Sem se perder naquilo que Kant denominava de mundo da diversidade
empírica ao se referir ao campo dos costumes, Kundera, por meio de seus
personagens, capta com os olhos da literatura o que há de universal no
particular de cada existência nominada e sob o peso das mais esmagadoras
determinações.
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Terceira Proposição:
“O romance inteiro (A insustentável leveza
do ser) não é senão uma longa interrogação. A interrogação meditativa
(meditação interrogativa) é a base a partir da qual todos os meus romances
são construídos” (Milan Kundera).
Corolário: Em Kundera a vida de cada personagem, com suas
determinações sociais e políticas, situadas na geografia do espaço e na
história do tempo, assume o protagonismo – ainda que impotente – diante
do que se afirma inelutável. O inelutável atiça o potencial de
inteligibilidade que se oculta em cada existência. A literatura como
interrogação meditativa é tão socrática quanto a socrática sentença de que
uma vida sem meditação (sem interrogação) não é digna do ser humano.
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Quarta Proposição:
“Descobrir o que somente um romance pode
descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não
descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. O
conhecimento é a única moral do romance” (Milan Kundera).
Corolário: Segundo Carlos Fuentes, “os personagens de Milan K.
vivem num mundo onde todos os pressupostos da metamorfose de Franz K.
se mantêm incólumes, com uma só exceção: Gregor Samsa, a barata, já não
crê que sabe, agora sabe que crê. Tem forma humana, chama-se Jaromil e é
poeta”. Em Kundera o universo da opacidade transparente em que vive
aprisionado cada personagem de Kafka migrou da literatura para vida.
Kundera e Kafka se completam para, juntos, tentar compreender e escapar
às sombra da luminosidade. “Para Sabina (segundo Kundera), viver
significa ver. A visão é limitada por uma dupla fronteira: a luz intensa que
cega e a escuridão total”. Difícil mesmo é não ceder ao extremismo. A
vontade de transparência é uma forma de cegueira, inclusive moral.
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Quinta Proposição:
“Existem limites antropológicos – proporções
humanas – que não deveriam ser violados, tais como os limites da
memória. Quando você acaba de ler um livro, ainda deveria ser capaz de se
lembrar do começo. Senão, o romance perde sua forma, sua “clareza
arquitetônica” e se obscurece” (Milan Kundera).
Corolário: O que seria de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, sem
a força formal da maestria de sua estética substantiva? Nada sobra na
“clareza arquitetônica” do Velho Graça. Consegue dizer mais, em palmos e
medidas, por impor à sua arte romanesca o princípio máximo do est modus
in rebus, sun certi denique fines (há em tudo uma medida, há enfim certos
limites). O comentário de Carlos Fuentes sobre os personagens de Kundera
bem poderia abrigar o mundo das vidas secas de Graciliano Ramos: “Agora
(em Kundera) o mundo de Kafka sabe que existe. Os personagens de
Kundera não têm necessidade de amanhecer transformados em insetos
porque a história da Europa central se encarregou de demonstrar-lhes que
um homem não necessita ser um inseto para ser tratado como um inseto”.
Graças a Kundera temos a ponte (impossível?) entre Kafka e Graciliano.
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Sexta Proposição:
“Na língua de Kant, mesmo a palavra “Bom
dia”, devidamente articulada, pode parecer uma tese metafísica. O alemão é
uma língua de palavras pesadas” (Milan Kundera).
Corolário: O romance, em Kafka, Graciliano, Kundera (por que
não em Juan Rulfo?), é a arte, em forma de metafísica reversa, de subtrair
peso à existência e agregar impossível leveza ao mundo. Leveza sempre
insustentável diante do onipresente peso a que a vida se obriga a carregar.
Subtrair peso a tudo foi a lição incompleta deixada por Italo Calvino em
suas propostas, também incompletas, para o terceiro milênio, que já se nos
tornou próximo demais. Ao fazer uma leitura premonitória de Kundera,
Kafka conheceu o insustentável poder da leveza e escreveu: tudo que não é
literatura me aborrece.
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Sétima Proposição:
“O obrigatório é não sério, e o sério
facultativo” (Milan Kundera).
Corolário: O mundo (e o Brasil é mais do que meio mundo) está a
cada dia sob as ordens do ridículo. Que força tem a filosofia (e as ciências)
para subtrair peso ao ridículo onipresente e majestosamente vestido com
aparência de seriedade. Sobre tudo pesa algo de compulsório e de
impostura. Quanto de ridículo na ideia de felicidade compulsória. Falta riso
e sobra cinismo, da mais baixa extração, sempre bem apartado e protegido
da arte séria (e por isso facultativa) do necessário Diógenes. O riso é a
forma das mais elaboradas e leves para enfrentar o peso do ridículo. O
ridículo é imune à ciência. Segundo Heidegger, “a ciência não pensa” e, ao
visitar Nietzsche, penso em contrário que cabe mais à arte literária do que à
filosofia (conforme A Gaia Ciência) a tarefa urgente de “tirar à estupidez
sua boa consciência”. Mas cedo ao filósofo matinal: existe filosofia mais
literária do que aquela tecida pelo autor de Além do Bem e do Mal?
Castigat ridendo mores (rindo castiga os costumes), os maus costumes,
sobretudo. Em Kundera a literatura adquire asas filosóficas menos pela
abstração metafisica do que pelos voos da “meditação romanesca”. A ele
cabe a sentença: alis grave nil.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, simula teoria literária.
É base da ADUA – Seção Sindical, e filho do
cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE).
Em, Manaus, AM, julho de 2023, no ano da reconstrução nacional.