DENISE ASSIS: É PRECISO CONTAR COMO JUIZ DE FORA SE COMPRIMIU NUMA PRAÇA PARA RECEBER LULA
Por Denise Assis
Eu sei que as informações hoje navegam com a velocidade da luz. Desde esse acontecido, o mundo já capotou umas 10 vezes, mas é necessário contar. E preciso fazer isto. Eu estava lá e vi.
Por volta das 17h, (desta sexta-feira, 21 de outubro) a Avenida Francisco Bernardino, em Juiz de Fora (Zona da Mata- MG) – o equivalente à Marechal Floriano, no Centro do Rio, em termos digamos da ordem de importância das avenidas -, foi tomada por grupos vermelhos, barulhentos, festivos, no seu ponto inicial, à espera de iniciar a caminhada de cerca de 500 metros, com Lula, até à Praça da Estação, tradicional ponto político na cidade.
Estendi o meu olhar para a pista, onde passavam grupos animados já embrulhados em capas de plástico. Quis saber onde conseguiram, mas logo uma senhora, solícita estava me cobrindo com o seu guarda-chuva. Outros foram se abrindo e formando verdadeiras goteiras, que mais molhavam que protegiam. Veio o (empreendedor) vendedor de capas e comprei uma, embora já estivesse absolutamente encharcada. Eufórico ele dava o troco com agilidade, bendizendo a chegada de Lula e do “extra” que sua vinda o estava propiciando. Mal dava conta de entregar e receber, ele mesmo sem a proteção.
A água entrava pela gola de homens mulheres e crianças. Ninguém foi embora, como se a dizer que o que os move é a esperança. Acreditaram que a chuva passaria. E ela não passava. Demorou, até a bendita estiagem, para que o carro aberto com Lula pudesse, enfim, se movimentar, seguido já de uma imensidão de bandeiras e camisetas vermelhas da militância, gritando palavras de ordem, enquanto os políticos discursavam.
A ex-ministra Marina Silva arrancou aplausos por onde passou, falando da violência do atual governo, da necessidade da preservação da vida e da proteção aos povos originários e quilombolas. A senadora Simone Tebet, com seu discurso potente, provocou corinho de “Simone/Simone”, ao falar do papel da mulher na campanha e da desumanidade do atual titular da presidência, com falas de viés pedófilo. Falaram também os deputados e o vice-governador de Minas, Paulo Brant, que pontuou o papel democrático do estado. A prefeita, Margarida Salomão (PT), aplaudidíssima. Lula intercalava pequenas falas, para delírio dos seguidores da caminhada que foi se adensando a cada metro.
Resolvi ir para a Praça da Estação, me antecipando à chegada do cortejo, que evoluía com dificuldade cada vez maior, dada à aglomeração em torno da caminhoneta que conduzia o grupo de políticos e Lula, ao som dos jingles da campanha, agora entoados pela multidão. A senhora morena e esbelta (chama-se Carminha) – se ofereceu para me ajudar a chegar até lá, e me acompanhou, me cobrindo com o seu guarda-chuva, apesar de eu já ter adquirido a capa de plástico que guardava a minha roupa empapada.
Fiz bem. Quem esperou a evolução no chão, ou em cima do caminhão que conduzia os repórteres não pôde ver de perto que o homem velho se esqueceu do cansaço e pensou que inda era novo para escalar, na Praça tomada de gente, um galho de árvore molhado e escorregadio. Deixou de ver que a meninada toda se assanhou, perdendo mesmo a noção do perigo. De cima da mureta que dava para a avenida por onde Lula chegaria, em breve, um menino de uns nove anos pisava na beirada, para desespero da mãe, que tentava contê-lo, porque ele “queria ver o Lula!”. Seus olhos buscavam o meio da rua, com a mesma ansiedade que nós estamos esperando a abertura das urnas, no dia 30.
E Lula veio. E o momento da sua chegada foi tão intenso, que por mais que eu viva – eu que ao longo da vida já fiz cobertura de passeatas, protestos, comícios e manifestações tantas -, não conseguirei descrever o que eram aqueles gritos compactos, que ensurdeciam os meus ouvidos e que não gritavam mais: “Uhhu, o papai chegou”, tampouco: “Lula, guerreiro, do povo brasileiro”, como há minutos. Gritavam. Apenas gritavam. Com a força de quem esperou muito para soltar aquele grito.
Lula acenava, fazia corações com as mãos e olhava à volta. O som do trio elétrico animou a que todos voltassem a cantar jingles da campanha, agora sacudindo o que tinham às mãos. Celulares que comiam avidamente as imagens, bandeiras, flâmulas, camisetas molhadas. Olhos molhados também não faltaram. A emoção era total e o espaço mal comportava as lágrimas dos que se derreteram ao som do “Lula lá”, enquanto Lula subia para o palco.
De camisa azul clara e bonezinho branco, ele surgiu para a multidão que foi ao delírio. Universitários, homens brancos, pretos, crianças, mulheres jovens, pretas, gordas, idosas. Todos dançavam e aplaudiam. Ouviram atentos durante quase duas horas Lula prometer que o salário voltaria a valer a pena; que o racismo seria extirpado do cenário brasileiro; que o “Minha Casa Minha Vida” voltaria; que o emprego seria o motor da economia, que… Não disse, mas poderia ter emendado: que a alegria voltaria.
Ao final do ato, pacificamente – os policiais sonolentos foram desmontando os gradis -, o povaréu se dispersava formando verdadeiros blocos de carnaval. Ao meu lado, uma idosa desamarrotou a pele do rosto num sorriso maroto, gritando com os jovens: “Hei, Bolsonaro, vá tnc!”. Uma travessura que com certeza não se permitiria se não fosse por Lula. Mais adiante uma outra, empunhando na ponta de uma vareta uma estrela vermelha inflada, resgatou o rebolado, ao som de: “Tá na hora do Jair, tá na hora do Jair, já ir embora” …
Do alto de um dos prédios alguém atirou uma bolsa com um líquido. A multidão parou e entoou forte: “Hei, Bolsonaro, vai…”, para em seguida retomar o carnaval, com direito a uma bateria que batia o bumbo freneticamente para que todos à volta evoluíssem.
No meio do calçadão da Halfeld, onde os blocos desaguaram, um casal nem se importou do encalhe das maçãs do amor, que mais pareciam alegorias. Dançaram apontando para o retrato de Lula, pendurado na carrocinha.
O povo não queria ir para casa. Lula se foi, mas deixou atrás de si um rastro de alegria Eu caminhei de volta a pé, porque não havia mais táxi para transportar os mais cansados, que como eu se movimentou desde 14h. Segundo a prefeita, Margarida, esse foi o maior ato político da história da cidade. Acredito, mas nem precisava o abalizado testemunho (de quem concorreu ao cargo por quatro vezes). No ritmo que pude, caminhei ainda encharcada de civismo, emoção e espanto.