LUIS NASSIF: COMO CONQUISTAR CORAÇÕES E MENTES PARA PROGRAMAS DE GOVERNO
Ao afirmar que seu governo irá além do petismo, Lula sinaliza que haverá uma divisão de responsabilidade com outros setores da sociedade
Como envolver os empresários em um projeto de país?
Até agora, pelo que se viu da campanha de Lula, houve encontros fechados com grandes empresários tradicionais, como Flávio Rocha, Abilio Diniz e Salim Mattar, entre outros.
Por aí, não sai nada. São representantes da velha economia, menos sofisticados que seus colegas de mercado. O grande desafio será identificar e promover uma nova geração de empresários.
Como se faz isso?
Primeiro, saindo da toca do Instituto Perseu Abramo. Depois, envolver, desde agora, os setores que terão papel central no novo recomeço. Uma ideia só é eficaz quando é mobilizadora, assimilada pelos diversos atores. E assimila melhor quem participa de sua elaboração desde o começo.
Passo 1 – começar a trabalhar projetos estruturantes
Os passos são conhecidos.
- Discutir o projeto estruturante.
- Identificar os atores interessados: empreiteiras, fornecedores, através de suas associações, e envolvê-los nas discussões para estarem preparados quando for dado o tiro de partida.
- Discutir formas de financiamento, envolvendo BNDES e mercado.
- Estimar a mão de obra envolvida e trabalhar com instituições de apoio em cada estado, como SESI, Fecomércio etc para treinamento, Secretarias de Planejamento estaduais e prefeituras.
- Envolver institutos de pesquisa, startups, associações de empresas inovadoras, Embrapii, para identificar novas tecnologias e novos processos em evolução. Este ponto é essencial para fazer desabrochar a nova geração de empreendedores.
- Amarrar as encomendas com o cronograma previsto para cada obra.
- Cuidar das externalidades, especialmente nas regiões mais afetadas pelas obras, com foco nas Pequenas e Micro Empresas, agricultura familiar.
- Discutir com técnicos do Tribunal de Contas metodologias capazes de acelerar a aprovação dos projetos.
Tome-se o caso das obras de infra-estrutura do PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento)
Havia levantamento minuciosos de todos os insumos necessários para a indústria naval. Esses estudos estão por aí. Abarcavam indústria metalmecânica, de móveis, até bares e restaurantes em regiões com adensamento populacional devido às obras.
Passo 2 – o papel político das ideias
Uma ideia só é relevante quando assimilada pelo conjunto de atores envolvidos. Não adianta uma multidão de sábios levantando projetos à mancheia, de forma entrópica. Os empresários têm que entender, desde o início, a formatação do projeto e sentir-se co-autores. Vale para as políticas sociais; vale para os programas de obras.
A partir desses projetos estruturantes, há inúmeras tribos espalhadas pelo país, prontas a participar da reconstrução em grupos de trabalho:
- Setor ferroviário.
- Indústria naval
- Setor elétrico
- Programa brasileiro de qualidade
- Estrutura Sebrae
- Estrutura CNI-Federações de indústria
- Indústria da construção.
- Complexo de inovação, com fundações de amparo à pesquisa.
- Universidades federais.
- Indústria do audiovisual
Passo 3 – o grande maestro
O papel do presidente da República será o de reger esses diversos conjuntos, fazer a mediação, articular as sinergias. De certo modo, o que foi feito no segundo governo Lula, especialmente no período 2008-2010.
FHC e Lula tinham uma característica comum: não se envolviam no dia a dia dos projetos. Mas havia uma diferença fundamental no enfoque. Lula reunião sua equipe, seu Ministério, estimulava a competição por ideias inovadoras. Depois, tinha uma reunião particular onde o autor tinha que responder a três questões: em que sua ideia seria boa para o país; em que seria boa para o governo. Passando no teste, a ideia era apresentada em nova reunião da equipe, tornando-se uma ação de governo.
Ao afirmar que seu governo irá além do petismo, Lula sinaliza que, a exemplo dos primeiros governos, haverá uma divisão de responsabilidade com outros setores da sociedade.
