FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: O CRIME DA VALE NO VALE DO CRIME

1
BRAZIL-ENVIRONMENT-DAM-COLLAPSE-WORLD WATER DAY

Local fisherman Jose Geraldo dos Santos sails the Paraopeba river in his canoe, in Juatuba, Minas Gerais state, Brazil on March 18, 2019, where a retention membrane was installed, to try to retain mud, after the collapse of a dam at an iron-ore mine belonging to Brazil's giant mining company Vale in the near locality of Brumadinho. - Two months after an upstream tailings dam, owned by mining giant Vale burst, spewed millions of tons of minerals-laced sludge across the countryside, Vale, government agencies and environmental groups are still assessing the impact of Brazil's worst industrial disaster on water quality downstream. (Photo by DOUGLAS MAGNO / AFP)

 

Por José Alcimar de Oliveira*

01. 25 de janeiro de 2022. Três anos do maior crime
socioambiental da história do Brasil, país que se converteu num vale do
crime. Na oração da Salve Regina clama-se a Deus desde um lacrimarum
valle. Ou lamarum valle, num latim ao arrepio da gramática. Na cartografia
da Vale vale o lucro de uns à custa de vidas muitas convertidas em lama.

 

02. Na manhã do dia 25 de janeiro de 2019 rompeu-se a barragem
da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais. Em menos de
cinco minutos cerca de 300 vidas, na maioria trabalhadores e trabalhadoras
da mega e amarga empresa Vale do Rio Doce, foram soterradas pela lama
tóxica dos rejeitos de mineração.

 

03. Nos idos do século de XIX o Mouro de Trier já apontava,
desde outro vale, que é da natureza do sistema universal de mercantilização
da vida do ser natural e do ser social constituir-se como usina predatória
das duas fontes de toda a riqueza possível: a terra e o homem. Florestas,
terras, rios e homens, nada escapa à predatória usinagem da riqueza.

 

04. Há tempos, já não me recordo quando, no Brasil sob o
governo do golpe empresarial-militar de 1964, o grande Millôr Fernandes
escrevera: como vale o verde no verde vale. Sob a ordem do vale do
capital, que controla a Vale e submete com força de milícia o Estado e seus
aparatos, a que instituição poderão recorrer as vítimas de Brumadinho?
05. Vivos, e mortos inclusive, para recorrer a Walter Benjamin,
nunca estarão em segurança enquanto a justiça e a segurança estiverem
subordinadas ao poder do capital. Até quando teremos que suportar a
omissão do Estado brasileiro? Até quando prevalecerá o silêncio diante de
tantos crimes cometidos sob a luz do dia?

 

06. Até quando o país viverá imerso em tempos sombrios, de
ostensiva destruição da memória, de criminosa falsificação da história, de
desdém pela verdade e de financiamento miliciano da mentira? Como
recuperar o poder da verdade se o próprio regime da verdade só obedece à
verdade do poder?

 

07. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, proclamou o
Nazareno. Seguidores do Caminho, assim se apresentavam seus primeiros
seguidores. Se até em Deus – o Deus do Nazareno – o Caminho se

antecipa à Verdade, que valor teria a Verdade se em lugar da Vida tomasse
ela o Caminho da morte? Vítimas da Vale da morte, Presentes!

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical – e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Aos 25 de janeiro do ano da virada de 2022 e aos três anos do crime socioambiental de Brumadinho.

1 pensou em “FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: O CRIME DA VALE NO VALE DO CRIME

  1. Importante relembrar e lastimar pela ausência das tantas pessoas que se foram porque estavam trabalhando, porque queriam sobreviver, e que por isso foram cobertas de lama. Chorei ao ver a reportagem na TV vendo e ouvindo os familiares que ainda não puderam honrar seus mortos. Que possamos relembrar e reclamar pela justiça aos responsáveis, pelos danos à natureza, pelas ameaças que continuam sendo feitas a outros seres humanos, em outros lugares, porque o que a terra dá não é suficiente para quem precisa tê-la triturada, transformada em lama para se tornar cobertor de uma das injustiças sociais e ambientais de nosso país.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.