FILÓSOFO VICTOR LEANDRO*: PRAÇA DA POLÍCIA

3/12/2021

Por Victor Leandro

O que os escritores escrevem / 

não é nada frente à realidade /

 sim sim eles escrevem sim que tudo é amedrontador / 

que tudo é pervertido e decadente / 

que tudo é catastrófico / 

e que não há saída / 

mas tudo que eles escrevem / 

não é nada frente à realidade / 

a realidade é tão pior / 

que ela não pode ser descrita

Thomas Bernhard

Olhava para o passeio, absorto, fixado em objetos exíguos. Não conseguira ainda elaborar o que estava acontecendo. Quarenta anos. Quatro décadas a passar diuturnamente pelos corredores da loja, verificando estoques, ajudando os vendedores a conquistar um cliente, para chegar à altura em que as coisas são entregues assim, em resignado silêncio, nas mãos dos açougueiros dos juros, das crises, dos empréstimos abusivos. E de nada adiantaria também rebelar-se ou gritar de fúria. Os documentos oficiais já haviam demonstrado sua eloquência. O edifício neoclássico, meio centenário, dentro em breve encontrará um novo dono.

Não, não é de hoje. Essa cova foi cavada há muitos anos, em épocas longínquas. Quando pensou nisso, o velho Lans passou a flutuar na memória de seus dias gloriosos, os tempos de bonança, em que o dinheiro era tão farto que parecia brotar das árvores frondosas que enfeitavam a paisagem ao redor e davam sombra aos serenos passeantes. Não, ninguém imaginava que terminaria desse jeito. A felicidade é sempre traiçoeira para aqueles que creem em sua permanência.

De repente, uma imagem fixou-se mais forte. Deveria ter algo em torno dos trinta anos, e trabalhava em seu escritório na parte de cima. Uma agitação tomou conta do espaço e o fez dirigir-se à janela. Lá embaixo, formava-se um grande aglomerado de pessoas, que seguia como nuvem guiada pelo centro de atração que se movia. Nesse instante, começou a ouvir bem baixo uma voz que entoava a música em contínuo.

“Está no ar a voz do povo

despertando a emoção”

Percebe que estão batendo à porta. É o seu sobrinho. Nos dias finais, é ele quem o está ajudando nos trâmites de saída. Procurou-o para avisar que o prazo limite para esvaziar o prédio será às quatorze horas. Teriam de ser céleres. Se quisesse se despedir, precisava de o fazer com a maior brevidade possível.

-Eles não podem me recusar esse direito.

-Infelizmente, acho que podem sim.

Então era isso? Seria colocado a pontapés para fora de seu estabelecimento? Não, essa falta de respeito não era admissível. Afinal, fora ele que construíra o prédio, este resultava do esforço de seu trabalho, de sua coragem de fazer muito com quase nada de dinheiro. Se quisessem, eles que esperassem do lado de fora até que se sentisse pronto. Não iria apressar-se nem por um segundo.

Tomou sua pasta, e foi guardando lá alguns papéis e canetas. Eram seus instrumentos de trabalho para antes da existência dos computadores. Um pássaro pousou em sua direção numa árvore da calçada, o que foi interpretado por ele como um bom sinal. Porém, ao tentar escutar o seu canto, notou que era impossível, pois o som da música que lhe tocava de dentro vinha aumentando de forma gradativa.

“Dando lugar a um sentimento novo

uma mensagem vem do coração”

O afeto o abraçou. Teve raiva. Quis quebrar os móveis, mas se conteve. Não era desse modo que se via reconhecido. Pôs-se a revirar o seu acumulado de caixas, cheio de notas, brindes e prêmios. Um deles até lhe valeu ser celebrado nacionalmente, dar entrevistas de TV e ter fotos estampadas em colunas de bajuladores. Não que ligasse muito. Não que tivesse algum valor para a aflição que o acometia.

A porta bateu de novo. O sobrinho, cada vez mais preocupado, insistiu que tivesse pressa. Falou de maneira respeitosa, porém já deixando clara sua inquietação.

-Estou ocupado. Preciso de privacidade.

Dessa vez trancou-se. E foi com brevidade que conseguiu fechar os olhos e lembrar de tudo mais uma vez, experimentando novamente o sentimento de que ter aquele mundo acabado não fosse algo necessário, que poderia ter sido muito diferente, bastava que surgisse ali uma mínima mudança de fora ou de dentro, um pequeno detalhe, e então seria provável estar atravessando o balcão hoje para só mais uma jornada alegre de trabalho, preenchida com ânimo e grande soltar de risos verdadeiros.

A porta bateu mais uma vez. Era um sujeito se declarando advogado, e que exigia tomar posse da propriedade de seu cliente. Não demorou muito, e já estava junto a ele um outro que ameaçava arrancá-lo dali à força. Nesse momento, ele pensou em sair de seu transe, porém o som das batidas e dos gritos misturaram-se à música que o acompanhava, provocando uma atordoante orquestração que agora colocava envolto inteiramente o espaço ao redor.

“Deixo girar a roda do destino,

sei que vou votar, vou votar”

Por essas ondas sonoras, lúgubres e ao mesmo tempo perversamente animadas, é que não se viu mais capaz de ser. Não tinha o que houvesse à frente senão o fim da linha. Depois das paredes, a tentação do vazio o chamava, e foi para ele que rumou quase que num movimento único, estilhaçando a vidraça e interrompendo a falsa calmaria dos vendedores comedidos.

Espantado com o barulho, o povo da praça correu na direção do corpo. Quando reconheceram seu proprietário, acharam estranho. Fazia anos que davam o imóvel por vendido.

*Victor Leandro é filósofo, escritor, novelista, crítico de política, doutor e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

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