VACINAÇÃO AVANÇA, MORTES CAEM, MAS A COVID NÃO ACABOU: COMO VOLTAR À VIDA NORMAL EM SEGURANÇA?
Movimentação de pessoas no centro da cidade no primeiro dia de flexibilização do uso de máscaras ao ar livre no Estado do Rio de Janeiro.
Ação de risco: estados e municípios seguem reduzindo restrições, mas país ainda tem mais de 25% da população sem vacina
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A pandemia muda muito rápido, abandonar medidas pode gerar uma novo escape de variante
Prestes a completar 20 dias com média de mortes por covid abaixo de 400 a cada 24 horas, o Brasil consolidou um ritmo menos acelerado da pandemia nos últimos meses. Na semana que se encerra nesta sábado (30), medidas anunciadas por estados e municípios reforçaram o movimento de volta à normalidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica, no entanto, que só é possível falar em situação controlada a partir da imunização completa de pelo menos 70% da população. Hoje, o Brasil tem mais de 25% da população ainda sem nenhuma dose da vacina. Neste cenário, a volta à vida normal ainda precisa ser acompanha da uma série de cuidados.
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Entre as decisões tomadas nesta semana que indicam o afrouxamento da proteção contra a covid-19, as que vieram do Rio de Janeiro e do Distrito Federal (DF) são as que mais preocupam, sob a perspectiva de cautela preconizada pela OMS: nas duas unidades da federação, o uso da máscara passou a ser opcional.
Na última terça-feira (26), o governo do DF informou que a máscara não será mais obrigatória em ambientes abertos a partir da próxima quarta-feira (3). Dentro de qualquer estabelecimento, áreas comuns de lazer nos condomínios e no transporte coletivo, a exigência está mantida.
Para a médica de família e comunidade Nathalia Neiva dos Santos, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, as medidas representam um risco: “O Brasil parece que gosta de viver perigosamente em relação ao coronavírus e as medidas de prevenção”, diz ela.
“É uma medida precoce, olhando com muito otimismo a queda da transmissão em consequênci da vacinação, que é uma conquista do uso de máscaras e da vacina”, alerta Nathalia.
Em Brasília, segundo as novas diretrizes, também não é mais necessário que as empresas estabeleçam rotina de revezamento entre os funcionários para evitar aglomerações em ambientes fechados, e foi derrubada a necessidade de espaçamento de dois metros entre carteiras nas escolas privadas.
Dois dias depois da entrada em vigor do afrouxamento profilático, na quinta-feira (28), passou a valer um decreto do governo fluminense desobrigando o uso de máscara para cidades que tenham mais de 65% da população imunizada.
Em alguns municípios do país houve também flexibilização do horário de funcionamento dos estabelecimentos. A medida foi anunciada na cidade de São Paulo e na mineira Uberlândia, por exemplo.
Na capital de Mato Grosso, Cuiabá, foi editada uma lei revogando o toque de recolher que ainda era aplicado de segunda-feira a domingo, no período das 2h às 5h da madrugada.
No Paraná, a Secretaria de Saúde estuda flexibilizar o uso das máscaras no início de 2022, mas há também um projeto de lei tramitando na Assembleia Legislativa para derrubar a obrigação do equipamento de proteção dese já.
Nathália Neiva lembra que a covid-19 é uma doença nova e dinâmica, e que deixar de lado a proteção pode significar o surgimento de novas mutações: “A pandemia muda muito rápido, abandonar uma medida dessas pode gerar uma novo escape de variante com relação às vacinas”, aponta.
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Quem corre riscos?
Conforme já se sabe por meio de pesquisas realizadas ao redor do mundo, mais de 90% das pessoas que desenvolvem quadro crítico e precisam de internação por causa da covid não foram vacinadas. Hoje, o Brasil conseguiu imunizar totalmente pouco mais de 50% da população. Mais de 70% tomaram pelo menos uma dose da vacina.
Os riscos aumentam para quem está fora dessa lista e os exemplos de outros países comprovam isso. Nações do centro e do leste da Europa, onde a população negacionista e contrária à vacina é maior, vivem alta significativa de casos e mortes causados pelo coronavírus.
Atualmente, o continente é o único que registra aumento no ritmo de crescimento da pandemia. Na Rússia, por exemplo, menos de 35% das pessoas estão imunizadas e os números vêm alcançando recordes seguidos. O governo decretou feriado prolongado de uma semana, até 7 de novembro, para tentar conter a situação. Na capital, Moscou, apenas supermercados e farmácias poderão funcionar no período. Quem tem mais de 60 anos e não tomou a vacina precisará cumprir quarentena de quatro meses.
Outras nações com índices de imunização baixos também enfrentam problemas. Na Ucrânia, o poder público voltou a adotar restrições a eventos públicos, diante do descontrole da pandemia. O país tem hoje uma das taxas de infecção mais altas do mundo, e só 16% sua população está vacinada.
Houve registro de falta de caixões no sistema funerário da Romênia, que registrou uma morte a cada cinco minutos na semana passada. Na Bulgária, onde o coronavírus também avança em velocidade acelerada, o governo proibiu o acesso a espaços públicos fechados sem comprovante de vacina ou teste negativo.
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Jovens com menos de 20 anos que não se imunizaram são foco de um novo surto no Reino Unido. A disseminação do vírus dentro de casa, entre parentes mais velhos e idosos surte efeito nas hospitalizações.
Como se proteger?
Embora gestores de importantes cidades brasileiras venham sinalizando para a desobrigação do uso da máscara, essa é a medida mais efetiva e importante para combater a covid-19 no momento de retomada das atividades.
É preciso ter atenção ao equipamento de segurança principalmente no transporte público e em ambientes fechados com grupos maiores de pessoas. Nos escritórios, fábricas, estabelecimentos e outros locais de alta circulação, o uso é essencial.
“Ainda que a gente esteja vendo essa redução da transmissão, não é um sucesso garantido para orientar o abandono do uso da máscara. É uma ferramenta de barreira que é simples e barata”, afirma a médica Nathália Neiva.
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Segundo ela, o vírus ainda está em circulação o que exige cuidados, “O Brasil não está mais no momento de lockdown. A gente já excluiu essa medida de saúde neste momento atual da pandemia. De fato, usar a máscara vai ser importantíssimo para os ambientes fechados”.
Mesmo que a higiene de superfícies não seja mais fortemente recomendada pelas autoridades de saúde para conter a covid, a limpeza das mãos segue como medida de segurança importante.
Também podem ser considerados, quando possível, ajustes na rotina – como percorrer trajetos a pé ou de bicicleta para evitar exposição no transporte coletivo ou manter espaços maiores entre trabalhadores e trabalhadoras dentro do ambiente de trabalho.
“Vale a criatividade e ir analisando a cada caso a possibilidade de mais exposição em ambientes ao ar livre. Vai das condições das pessoas – tem muita gente que mora a duas horas de distância do trabalho – mas também avaliando os riscos e avaliando não abandonar o que é fundamental, que é colocar uma máscara no rosto”. Finaliza a médica.
Edição: Vinícius Segalla