FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: O CÂNTICO FRATERNO, SPINOZISTA E ANTIBURGUÊS DE FRANCISCO DE ASSIS
A misericórdia é o amor à medida que o homem é afetado de tal maneira que se enche de gáudio com o
bem de um outro e, contrariamente, se entristece com o mal de um outro (Benedictus de Spinoza,
1632-1677)
José Alcimar de Oliveira*
01. Francisco de Assis (1182-1226), que não nasceu Francisco, mas
Giovanni, filho de Pietro di Bernardone, teve seu nome mudado para
Francesco, que no italiano da época seria francesinho, talvez uma
homenagem de seu pai à França, país que integrava o circuito de suas
atividades de rico comerciante de tecidos. Quando Francisco nasceu, na
ascendente e próspera burguesia da cidade de Assis, na rica Itália Central,
seu pai encontrava-se na França. Não foi vítima, portanto, da miséria
pensada por Gramsci, em seu texto inacabado, A questão meridional, em
que problematiza a existência de duas Itálias num mesmo país presidido
pela autocracia capitalista. No caso do Brasil a questão meridional
implicaria discutir contraditórias mediações sociais. Francisco de Assis,
por sua origem de classe, escapou à miséria da Itália do Sul, àquela época
ainda longe de ser unificada. Nasceu em berço dourado e desfrutou da boa
vida dos jovens ricos de seu tempo. Com pouco mais de 20 anos, ao se
identificar com a Boa Nova Samaritana de Jesus de Nazaré, entrou em
conflito com suas origens burguesas, rompeu relações familiares com o pai
e assumiu a pobreza evangélica como modo de vida e posição de classe.
Sei que a terminologia classista aqui referida e tanto mais o método da luta
de classes não têm a aprovação do Mouro de Trier. Creio que Alain Badiou
(com a ajuda de Le Goff, Chesterton e Boff), poderá mediar um possível
diálogo entre o Mouro de Trier e o Chico de Assis.
02. Letrado, Francisco tinha conhecimento dos movimentos de
contestação que muitos jovens em sua época organizavam contra a
hegemonia do regime da cristandade medieval. Mesmo que não aderisse ao
modo de vida transgressor dos goliardos, com sua crítica aos abusos do
mundo clerical, Francisco também percebeu e se inquietou diante de uma
Igreja rica, cercada e mantida pela miséria em que vivia a maior parte da
população da chamada Idade Média. Foi um tipo de Gandhi medieval.
Tomou abuso pelos excessos e cretinice da posse do ascendente modo de
vida burguês e decidiu se fazer pobre com os pobres. Por volta de 1206
estava ele cuidando dos leprosos na cidade de Gubbio, perto de Assis. No
meu tempo de seminário menor franciscano, aqui em Manaus, década de
1970, por volta dos 20 anos, nos deslocávamos a cada domingo, pela
manhã, até a Colônia Antônio Aleixo, para a celebração da missa com os
nossos irmãos segregados pela lepra. Exatamente naqueles anos,
precisamente em 1976, celebrávamos os 750 anos da morte daquele a quem
chamávamos de Nosso Seráfico Pai Francisco. Com aqueles irmãos postos
à margem da Manaus Zona Franca, embalada pelo capitalismo industrial de
montagem e montada na exploração da abundante força de trabalho
indígena e caboca, na distante Colônia Antônio Aleixo, moravam as irmãs
Franciscanas Missionárias de Maria, as saudosas FMM, religiosas
brasileiras e de diversos países, como França, Espanha, Itália, Suíça, que,
com devotado espírito missionário, deixaram seus países de origem para
cuidar dos mais empobrecidos entre os empobrecidos.
03. A Colônia Antônio Aleixo, em Manaus, fazia parte de nossa
“questão meridional” ainda sem o estatuto teórico gramsciano. As ditas
doenças tropicais não foram produzidas pela natureza. Menos ainda, como
era difundido no Medievo, resultavam de castigo divino. Não tínhamos
leitura nenhuma de Gramsci nem de outros teóricos críticos para perceber
no capital, com suas estruturas de desigualdade, a origem dos
dilaceramentos sociais. Para ser sincero, até nos deslumbrávamos diante da
fria e excludente luminosidade do consumo. Mas era viva a nossa
identificação com o mundo dos pobres. Nosso deslocamento até a Colônia
Antônio Aleixo dava-se por estrada de chão batido e a que hoje é a Zona
Leste, a mais populosa de Manaus, ainda tinha sua geografia marcada pela
vastidão verde e aquática, com poucos e esparsos moradores. Marcados
pelo ímpeto da juventude, tal como o Francisco medieval, os seminaristas
íamos e voltávamos à e da Colônia Antônio Aleixo sem nenhum medo de
contaminação. Muitos de nossos colegas nos advertiam sobre o perigo do
contato com aqueles irmãos. De nossa parte, o que restou na memória não
foi o medo, mas a alegria de a cada domingo voltar à Colônia Antônio
Aleixo e ser recebido com alegria por seus moradores em regime de
confinamento e pelas Irmãs Franciscanas.
04. Por minha condição de teólogo sem cátedra, ou mais afinado com
a heterodoxia, que imagino tenha movido Jesus de Nazaré e Francisco de
Assis, arrisco-me a considerar o Poverello medieval um gramsciano avant
la lettre em seu esforço teológico de traduzir para os pobres e desde o
mundo dos pobres o Evangelho como Boa Notícia. O talvez mais
renomado pesquisador e historiador do mundo medieval, ex-presidente da
prestigiosa École de Hautes Études em Sciences Sociales, Jacques Le Goff,
cujo discipulado historiográfico se deu com ninguém menos do que
Fernand Braudel, afirmou numa fascinante biografia de São Francisco de
Assis que “a novidade da mensagem de Francisco, a novidade de seu estilo
de vida e de apostolado abalaram em primeiro lugar seus contemporâneos”.
Abalaram sobretudo a seus pais. O ímpeto transformador de Francisco de
Assis, ainda que depois muito do que viveu e projetou tenha sido
desidratado pela instituição, foi o de tentar revolucionar as estruturas da
Igreja a partir de dentro. Bem ou mal, já havia de forma embrionária
intuído o conceito hegeliano de Aufheben, que inclui os movimentos de
afirmação, negação e superação. Afirmava o projeto de Jesus de Nazaré.
Negava o modo de vida de uma Igreja que se protegia dos pobres. Superava
pelo testemunho de vida o status quo, bem estabelecido, da nada evangélica
cristandade medieval.
05. Ter-lhe-ia sido mais cômodo e funcional fundar uma Ordem
segundo o modelo canônico já estabelecido pela Igreja Medieval, com seus
suntuosos mosteiros beneditinos. Se assim tivesse feito, a aprovação
pontifícia de sua proposta de vida evangélica teria sido célere. Francisco
optou por outro devir, radical e originário, porque para ele, como vai dizer
depois o Mouro de Trier, agir radicalmente implicava tomar as coisas pela
raiz. Sem afrontar com discurso a normalidade do vigente paradigma
beneditino de vida religiosa, Francisco de Assis opta por escrever uma
breve Regra de Vida inspirada na itinerância do Evangelho de Jesus de
Nazaré. Em 1209, mesmo que verbalmente, e não sem inconfessável
desconfiança papal, obteve a aprovação de seu projeto de vida pobre e
itinerante pelo Papa Inocêncio III. Estava fundada a Ordem dos Frades
Menores, OFM. Comparado a Comte, seu conceito de Ordem não teria a
aprovação do fundador do positivismo, com seu lema “Amor, Ordem e
Progresso”: amor por princípio, ordem como fundamento e o progresso por
fim. Conflito e luta de classes não faziam parte do projeto positivista de
ordenação social. Em Francisco de Assis a Ordem (Ordo) implicava
introduzir desordem evangélica na velha ordem da cristandade medieval,
muito bem instalada no sedentarismo dos grandes mosteiros. Os Frades
Menores, no máximo, deveriam habitar tendas, jamais suntuosos
conventos. Mas como até o Diabo reconhece no filme A Encruzilhada,
“nada nunca é como a gente quer que seja”. As tendas itinerantes deram
lugar a grandes conventos e igrejas.
06. Seria muito difícil, tenso mesmo, um diálogo entre Francisco de
Assis e Thomas Hobbes. Francisco era habitado e movido de forma
antecipada pelo conceito spinozista dos bons afetos, da alegria, da
misericórdia, da comunhão fraterna dos homens entre si e destes com a
natureza. Ao contrário do homem lobo do homem – homo homini lupus –
base autoritária do Estado-Leviatã hobbesiano, Chico de Assis preferia a
solidariedade, o diálogo e a alegria ao egoísmo, ao autoritarismo e ao
medo. É célebre em Francisco o episódio do Lobo de Gubbio, pequena
cidade perto de Assis, na região da Úmbria, cujos moradores, sobretudo os
pastores e seus rebanhos, viviam atormentados pelos ataques de um lobo
feroz. Presididos pelo medo, os eugubini, como eram chamados os
moradores de Gubbio, se organizaram com as armas de que dispunham
para dar cabo do perigoso lobo. Conforme atestam os I Fioretti (um belo
florilégio sobre os primeiros tempos do modo de vida franciscano),
Francisco tomou conhecimento do que ocorria e foi ter com o lobo –
fratello lupo – e logrou um acordo de paz entre a besta cruel e os citadinos.
A única condição imposta para o acordo era que os habitantes da cidade se
comprometessem a alimentar o lobo. Segundo os registros, o lobo ainda
viveu por dois anos em Gubbio, e sempre bem alimentado, andava com
civilidade de porta em porta, sem fazer mal a ninguém e sem que ninguém
lho fizesse, nem mesmo os cães.
07. Inspirado em Francisco de Assis, cuja festa celebramos a cada 04
de outubro, o Papa Francisco, o mais franciscano dentre os jesuítas, lançou
no dia 03 de outubro de 2020 a Carta Encíclica Fratelli Tutti, sobre a
fraternidade e a amizade social. Igualmente inspirada no ideário de
Francisco de Assis foi também sua Carta Encíclica, de 2015, Laudato Si’,
Louvado Sejas, sobre o cuidado da casa comum. No início do século XIII,
antes da emergência da questão ambiental, Francisco de Assis já
protagonizava uma forma de vida orientada pelo cuidado e relações de
simbiose entre cultura e natureza, entre o ser social (dito humano), o ser
orgânico (flora e fauna) e o ser inorgânico (ar, água e terra). Tratava a todas
e todos como irmãs e irmãos. Há muito de spinozismo antecipado em seu
belo Cântico das Criaturas. Há mais convergência do que oposição entre o
Deus feito criatura de Francisco e o Deus sive Natura de Spinoza.
Francisco de Assis não pode ser responsabilizado pelo que se fez depois do
seu projeto. Se tivesse chegado à Amazônia indígena no tempo em que
viveu, na virada decisiva do século XII para o XIII, ele estaria entre aquelas
e aqueles que logo estabeleceriam relações de empatia e de fraternidade
com os povos originários da Grande Amazônia e da Pátria Grande. São
Francisco é o mais universal dos santos, de Assis, na Itália, de Canindé, no
Ceará ou de Anamã, no Amazonas. Junto com Santo Antônio, está entre os
santos mais populares do povo brasileiro. Talvez por ser franciscano, Santo
Antônio é único santo igualmente popular e Doutor da Igreja. Uma
belíssima exceção. São Francisco, que fraternalmente conviveu com Santo
Antônio, o chamava de “meu bispo”.
*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Aos dez dias de outubro do ano do morticínio de 2021.