FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR:* DIA DA FILÓSOFA E DO FILÓSOFO: MANTER A VIGILÂNCIA DO PENSAMENTO DIANTE DO FASCISMO COGNITIVO

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José Alcimar de Oliveira *

É preciso destruir o preconceito, muito difundido,
de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser
a atividade intelectual própria de uma determinada categoria
de cientistas especializados ou de filósofos
profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto,
demonstrar preliminarmente que todos os
homens são filósofos (Antonio Gramsci).

 

 

01. Nesse 16 de agosto de 2021 comemoramos o dia
de quem cultiva a Filosofia. Com modificações e redução
textual, reproduzo artigo publicado em 2020, nesta mesma
data. Mais do que comemorar o dia, importa manter a
vigilância do pensamento nesses tempos de desinibido
fascismo cognitivo. Para ser fiel à epígrafe acima,
devemos incluir com igual estatuto de filósofas e filósofos
todas e todos que cultivam a sabedoria, do jardineiro ao
pós-doutor, do pajé indígena, do pai ou mãe de santo,
trovador e trovadora do povo, cordelista, benzedora e
benzedor, até aqueles que foram convidados a proferir sua
aula magna no renomado Collége de France, como
Foucault e Barthes. E as mulheres? Para pensar em três
mulheres de militância prática e teórica, nesse Brasil que
parece naturalizar o ódio ao pensamento, trazemos à
memória Carolina Maria de Jesus, Elizabeth Teixeira e
Marilena de Souza Chauí (as duas últimas ainda vivas).

 

02. A Filosofia é a democracia do pensamento. O
requisito básico do filósofo é o cultivo da sabedoria, seja

por meio de conceitos acadêmicos, seja pelo manejo sábio
das palavras de quem, mesmo diante da interdição de
entrar nos templos acadêmicos, sem acesso às mediações
da cultura letrada, exercita de modo altivo a arte de falar e
de narrar numa sabedoria construída no chão da vida e
passada na casca do alho, como diz o saber do povo. Estas
e estes são mestres da narração e da arte da tradição oral.
Mas nas Academias dominam os funcionários da ciência.
Estão mais para letrados do que propriamente intelectuais
e, dentre estes, poucos sábios, e menos ainda intelectuais
das classes subalternas. O que há, em excesso, são
intelectuais subalternos das classes orgânicas. Milton
Santos, a propósito dessa contradição (explicável), já
denunciava que no Brasil aumenta o número de letrados e
diminui o número de intelectuais.

 

03. Não cabe o reconhecimento de filósofo a quem
impede ou trava a democracia do pensamento. A quem
impede o acesso às letras. A quem conjura o iluminismo.
Aqui, peço que leiam com atenção as sábias palavras do
incontornável Immanuel Kant (1724-1804), reproduzidas
ipsis litteris: “Uma época não pode se aliar e conjurar para
colocar a seguinte em um estado em que se torne
impossível para esta ampliar seus conhecimentos
(particularmente os mais imediatos), purificar-se dos erros
e avançar mais no caminho do esclarecimento
[Aufklärung]. Isto seria um crime contra a natureza
humana (grifo nosso), cuja determinação original consiste
precisamente neste avanço”. Por mim, não consideraria
exagero nenhum que esta declaração kantiana se
espalhasse nos muros dos becos, das ruas e nas praças, não
na forma de outdoors, mas de panfletos e intervenções
artísticas e emancipatórias.

 

 

04. Sem filosofia não há democracia. Não falo de
democracia burguesa, nem da justiça burguesa, sempre
seletiva e cega para o povo. Democracia é poder do povo,
povo livre e sem medo. Do povo-multidão, de todas as
cores e credos. Da liberdade de pensar. Bem o diz
Espinosa no Tratado Político: “Porque a multidão livre
conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo
que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo
que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta
procura somente evitar a morte”. São realidades
excludentes: de um lado, oficialmente, quase 600 mil
mortes e, de outro, uma democracia discursiva e vazia.
600 mil mortes indicam necrocracia. Viver sob o poder da
morte. Da política da morte. Da necropolítica, segundo
Achille Mbembe. Democracia é política a serviço da vida
05. Se filosofia é a democracia do pensamento,

 

outra coisa ela não pode ser senão saber do povo livre e
sem medo. Santo Agostinho, esse monumento do saber
teológico e filosófico da Antiguidade Cristã, afirma que a
sabedoria é que é, portanto, a medida da alma (modus ergo
animi sapientia est). Essa medida, esse modo de ser, não
se confunde com o saber acadêmico. É saber da vida,
saber viver. Conviver. Não excluir. Não discriminar. A
filosofia não pode vicejar fora do cultivo do canteiro
democrático, do jardim de mil plantas e flores. Habermas,
hoje aos 92, nos apresenta esta bela equação filosófica: “A
filosofia e a democracia não só partilham as mesmas
origens históricas como também, de certo modo,
dependem uma da outra”. No primeiro período do Curso
de Filosofia na Universidade Federal do Amazonas, em
1980, aprendi que a Filosofia é filha da cidade, da pólis.
Mas é na cidade também, sobretudo quando a cidade é
governada por malfeitores, que mais se conspira contra a

filosofia. Isso não se iniciou hoje. Voltem a Sócrates e sua
condenação à morte na, assim propalada, democracia
ateniense.

 

06. Hoje, no prevalente regime da semiformação ou
semicultura (conforme o fecundo conceito do velho
Adorno, conceito mais fecundo hoje do que nos tempos do
autor da Dialética Negativa), virou regra acusar de
esquerdopata, esquerdista, comunista, quem se recusa a
rezar pelo catecismo da mediocridade cognitiva (ou
ausência de pensamento) que infesta as redes (pouco)
sociais. Quanto a mim, muito agradeço à Ave de Minerva
pelo trabalho de desinfestar minhas redes, inclusive a de
dormir, de ler e de pensar. Além do mais, a Ave generosa
de Minerva me faculta excelentes filtros cognitivos e em
vários modelos: de Heráclito a Paulo Arantes, de Epicuro
a Dom Pedro Casaldáliga, de Agostinho a Carolina Maria
de Jesus, de Pedro Abelardo a Karl Marx, de Paulo
Apostolo a Alain Badiou, de Epicuro a Elizabeth Teixeira,
de Platão a Espinosa, de Jesus de Nazaré a Lênin, de
Aristóteles a Kant, de Parmênides a Hegel, do Filósofo
Operário Joseph Dietzgen a Marilena Chauí. E são muitos
os fecundos afluentes do caudaloso rio da Filosofia.

 

07. Para ficar apenas em sete parágrafos, concluo
chamando à ágora das ideias mais três mestres do
pensamento filosófico: Epicuro, Karl Jaspers e Paulo
Freire. O primeiro, Epicuro, foi tema do TCC de Karl
Marx em Filosofia. O segundo, Karl Jaspers – e
preventivamente adianto que ele está isento do “periculoso
pensamento de esquerda”, bem como da “terrível ameaça
do marxismo cultural”, é autor de uma conhecida, ao
menos nos meios filosóficos, Introdução ao pensamento
filosófico, apresentada inicialmente na forma de
comunicações radiofónicas há mais de 50 anos na

Alemanha. E o terceiro, Paulo Freire, cujo centenário de
nascimento celebramos neste 2021, é o mais conhecido e
mundialmente reconhecido filósofo da educação
brasileiro.

 

7.1. Epicuro: “Nunca se protele o filosofar quando
se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois
que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado
maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a
hora de filosofar ainda não chegou ou já passou,
assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já
passou a hora de ser feliz”. É o mais belo elogio à filosofia
já escrito.

 

7.2. Karl Jaspers: “Muitos políticos veem facilitado
o seu nefasto trabalho pela ausência de filosofia. Massas e
funcionários são mais fáceis de manipular quando não
pensam, mas tão-somente usam uma inteligência de
rebanho”. Karl Jaspers, professor de uma desconhecida
aluna chamada Hannah Arendt, nunca esteve no Brasil e
publicou esse texto em 1965.

 

7.3. Paulo Freire: “A educação é um ato de
conhecimento. Uma aproximação crítica da realidade”. “A
prática de pensar a prática é a melhor forma de pensar
corretamente”. “Certa vez, em conversa com o autor, um
médico, dr. Orlando Aguirre, diretor da Faculdade de
Medicina de uma universidade cubana, disse: ‘A
revolução implica três ‘P’ – Palavra, Povo e Pólvora. A
explosão, continuou, aclara a visualização que tem o povo
de sua situação concreta, em busca, na ação, de sua
libertação’. Pareceu-nos interessante observar, durante a
conversação, como este médico revolucionário insistia na
palavra, no sentido em que a tomamos neste ensaio (A
Pedagogia do Oprimido, no caso). Isto é, palavra como

ação e reflexão – palavra como práxis”. No Brasil de
2021, Paulo Freire, que nos deixou em 1997, tem sido
vítima de um segundo e ainda mais perverso exílio.

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical das e dos
docentes da UFAM e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 16 dias de agosto do ano do morticínio de 2021.

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