LUIS NASSIF: JOSÉ RAMOS TINHORÃO, PESQUISADOR E JORNALISTA, MEU MALVADO FAVORITO

 

Pegava no pé de Tom Jobim, sem dó, mas gostava de João Gilberto – embora não admitisse publicamente. Um de seus exercícios preferidos era identificar supostos plágios de Tom Jobim, como no “Samba de Uma Nota Só”, baseado em um tema de Cole Porter.

Conheci José Ramos Tinhorão no meu primeiro emprego, de estagiário e, três meses depois, jornalista da revista Veja. Muito ligado em música, ele e Tárik de Souza, crítico de música da revista, tornaram-se meus referenciais maiores de início de carreira.

Tinhorão era meu malvado favorito. Dono de língua ferina, tornara-se uma lenda dos textos curtos, como titular da seção Gente. Além disso, tinha sido personagem de alguns textos de Nelson Rodrigues, trabalhara em grandes jornais históricos e se tornara uma pedra no sapato da bossa nova. A gente minimizava essa implicância para beber no seu conhecimento de samba.

Tornaram-se históricas suas discussões com Leo Gilson Ribeiro, gay, internacionalista, ele, Tinhorão, machista até a medula e tradicionalista do fundo da alma.  Como o dia em que Tinhorão, magro, com boa forma física, subiu em uma escrivaninha, começou a fazer prancha e a zombar de Léo:

– Léo, te ofereço meu infarto.

Doutra feita, indignado com as gozações de Tinhorão, Léo subiu na escrivaninha e ameaçou jogar um livro nele. E Tinhorão:

– Léo, você só consegue jogar brochura.

Pegava no pé de Tom Jobim, sem dó, mas gostava de João Gilberto – embora não admitisse publicamente. Um de seus exercícios preferidos era identificar supostos plágios de Tom Jobim, como no “Samba de Uma Nota Só”, baseado em um tema de Cole Porter.

Na verdade, Tom recorria a um estilo de composição, de se basear em pequenos trechos de outras músicas para desenvolver obras próprias, recurso legítimo ao qual recorria Jacob do Bandolim. Uma vez participei de um seminário na Academia Brasileira de Letras e, nele, o grande violinista nordestino Cussy de Almeida contava uma conversa com Baden. Magoado com Tom (que, segundo Baden me reclamou certa vez, nunca tinha reconhecido seu valor), Baden contou a Cussy que, certa vez, Tom lhe pediu um tema para desenvolver uma melodia. Compôs Sabiá, que venceu o Festival Internacional da Canção, e nunca mencionou Baden. Cussy pediu que Baden lhe mostrasse o tema. E mostrou que, por sua vez, o tema de Baden era inspirado em Chopin.

Essa é uma das características da música popular. É possível montar um algoritmo que compõe músicas, porque a produção popular, no fundo, é a montagem de vários temas previamente conhecidos. A diferença entre as músicas está na maior ou menor capacidade de montar as partes.

Para Tinhorão pouco importava. O que queria, mesmo, era zoar a bossa nova, e zoava como ninguém. E tinha um belíssimo senso de humor quando zoado.

Naquele início de carreira, eu gostava de aplicar trotes. Certa vez, a Última Hora publicou uma série de artigos com especialistas em música brasileira e, por engano, trocou o nome de Rogério Duprat – o grande maestro do tropicalismo – com Tinhorão. Embora fosse mais Duprat que Tinhorão, telefonei para o maestro e o cobri de elogios por suas posições no artigo de Tinhorão. E ele, embaraçado, não conseguiu retrucar. Tinhorão morreu de rir.

Tempos depois, na volta dos tropicalistas do exílio londrino, houve um show de Gilberto Gil na TUCA. Fui comprar ingressos, no dia anterior, e encontrei, na fila, o fotógrafo Dirceu Leme, unha e carne com Tinhorão. Perguntei para quem ele estava comprando ingressos, e era justamente para Tinhorão.

No dia seguinte, cheguei cedo à redação da Veja. A revista era dividida em baias – como chamávamos os espaços entre editorias. Eu ficava na baia maior, da Geral. No lado, a baia de Artes e Espetáculos. Nela, àquela hora, apenas Tinhorão estava trabalhando.

Por aqueles dias, a Abril tinha lançado a revista Exame, dirigida por Paulo Henrique Amorim. Para a chefia de reportagem foi indicado Talvani Guedes da Fonseca, meu antigo chefe na Veja. Talvani queria indicações de jovens repórteres e indiquei meu amigo José Roberto Alencar, de Santa Rita de Caldas, que eu conhecera em Poços de Caldas. De Alencar, até então, conhecia apenas o texto saborosíssimo que publicava na Retorta, o jornalzinho do grêmio da Maçonaria. Com o tempo, Zé Grandão, como o chamávamos, se tornaria um dos melhores textos da imprensa brasileira.

Chamei Zé e combinei um trote com ele. Foi até o saguão, ligou para Tinhorão, apresentou-se como Guilherme Araújo, produtor dos baianos.

– Tinhorão, você sabe que o Gil sempre foi ligado nas raízes. E, esse período em Londres, longe das raízes, fez com que não conseguisse mais compor. Está desesperado e disse que sua única salvação será uma longa conversa com você.

Tinhorão ouviu e aceitou trabalhar na recuperação de Gil.

– Mas com uma condição, sem oba-oba. Iremos só eu e o Dirceu Leme, o Gil e você.

Desligado o telefone, fingi ir atrás de café fresco na baia de Artes e Tinhorão me chamou, entusiasmado:

– Menino! Menino! (Era assim que me tratava), você não sabe o que aconteceu!

E me contou toda a história. Voltei para minha baia e estava me divertindo com o Zé, quando Tinhorão começou a ligar para Deus e o mundo, contando do telefonema. Aí fiquei preocupado. Chamei o Zé e pedi para desfazer o trote. Zé foi para o saguão, ligou, Tinhorão atendeu e Zé foi rápido:

– Tinhorão, não sou o Guilherme Araújo. Era trote!

E desligou o telefone. Seguiu-se enorme silêncio na baia das Artes. Simulei buscar café e entrei lá. Tinhorão me chamou:

– Menino, vem vá.

E explodiu:

– Pensa que não sei? Vai dar trote na sua mãe!

E xingou bonito. Procurei, meio desesperado, uma saída:

– Sabe, Tinhorão. Tenho um amigo que veio de Brasilia (e era verdade), estudava no jornalismo da UnB (verdade), é apaixonado por seu trabalho (verdade) e queria te conhecer. Como é muito tímido, bolamos esse trote para quebrar gelo.

Tinhorão abriu-se em um sorriso:

– Não era necessário! Chame ele aqui.

E lá veio o Zé, com mão no bolso, apavorado, sem entender nada do hospício em que se metera, escolhendo aquela profissão.

Tinhorão era, também, um namorador incorrigível. Certa manhã, eu estava sozinho na redação, toca o telefone do Tinhorão. Atendo e uma voz feminina pergunta se era do consultório do dr. Tinhorão. Estranhei, disse que não, que Tinhorão era jornalista.

Quando ele chegou, contei sobre o telefonema estranho e Tinhorão desesperou-se:

– Falo que é médico para ela driblar a família e você me entregou!

Tempos depois, Tinhorão deixou de ser apenas o jornalista folclórico que pegava no pé da bossa nova, ao lançar um livro sobre as raízes da música brasileira, com amplo sucesso aqui e em Portugal. Firmava-se, ali, o pesquisador detalhista, dono de um arquivo precioso sobre a música e a cultura brasileira.

Voltei a encontrar Tinhorão quando montei a Agência Dinheiro Vivo e aluguei um predinho na rua Maria Antonia. Era em frente o apartamento de Tinhorão. Um dia ele me convidou para tomar um café por lá. Sua cama ficava quase embaixo da escrivaninha. Todo o restante era ocupado por livros e discos.

Meu último encontro com ele foi três anos atrás, na comemoração de seus 90 anos, em um boteco na General Jardim, cercado de sambistas de vários naipes, uma homenagem à altura de um dos maiores pesquisadores da história da música brasileira, o ranheta Tinhorão, e seu personagem preferido, “meu malvado favorito”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.