FILÓSOFO VICTOR LEANDRO*: EU, UM DELÍRIO
Por Victor Leandro
Não há frase mais mentirosa e farsesca do que “eu sou”. Não que estejamos sendo, o sartrianismo está um tanto otimista quanto a isso. Mas ocorre que o que há tão somente um corpo que vive e uma mente que pensa, de modo que o tão alardeado EU não passa de uma fantasia ou confusão, puro norte simbólico para tentarmos escapar à incerteza subjetiva, de modo que o repetirmos não faz mais do que perpetuar a escalada de nossos enganos.
Mas não só isso. Como qualquer outra coisa, há consequências político-sociais também. Na verdade, todo o aparato da vida burguesa encontra-se sustentado por sua crença, pois é a partir de sua ideia que surge a defesa débil da unidade indissolúvel do sujeito. Do EU, então, surge assim o MEU, aquilo que me pertence exclusivamente, no que subtraio o que é articulado no mundo. Minha liberdade, meu juízo, meu desejo, meu direito. Tudo isso perde sua dimensão coletiva. Resta a idiota idiossincrasia.
Também só pode haver magnificação do EU em vista de sua prévia confirmação. Logo, uma sociedade menos pretensiosa, estúpida e hierarquizada só é possível mediante seu desaparecimento. Mas quem está disposto a tal feito? Não é mais gratificante achar que tem a medida metafísica da superioridade em seu essencialismo?
De todo modo, podemos protestar. Portanto, quando alguém diz que é algo – aqui mesmo está um que o faz sempre – respondo de pronto, e digo veja, tudo bem, você fala isso por hábito ou comodidade, mas esteja certo de que suas proposições não passam de um simples delírio.
Romper com a primeira mistificação, o mais que o último desígnio.
Victor Leandro é filósofo, poeta, analista político, escritor, doutor e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).