DELEGADA DA PF REGISTROU DEPOIMENTOS DE TESTEMUNHA QUE NÃO FOI OUVIDA, MOSTRAM DIÁLOGOS DA LAVA JATO

Procuradores Deltan e Martello discutem estratégias para evitar que delegada da PF fosse averiguada por falsidade, segundo conversas obtidas pela Operação Spoofing

 

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Uma delegada da Polícia Federal lavrou o depoimento de uma testemunha no âmbito da Operação Lava Jato que nem sequer chegou a ser ouvida. Com medo de que ela tivesse problemas administrativos por falsidade, procuradores da Força-Tarefa da Lava Jato de Curitiba discutiram como evitar que ela fosse averiguada por falsidade.

É o que indicam novos diálogos entre procuradores da Lava Jato enviados pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (22). Eles foram obtidos por meio da Operação Spoofing

A conversa entre Deltan Dallagnol e Orlando Martello Júnior dá a entender que esse procedimento de forjar depoimentos já tinha sido feito em outras ocasiões.

O diálogo foi mantido no dia 26 de janeiro de 2016. Ele começa com o relato de Deltan de que a delegada Erika – provavelmente Erika Marena, que atuou junto com a força-tarefa – teria entendido que era pedido dos procuradores. Dessa forma, lavrou o termo de depoimento. “Como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada…” Ele se mostra preocupado com o que pode acontecer com ela: “Dá no mínimo falsidade”. Erika Marena foi a delegada da PF que comandou o inquérito que acusou reitores de corrupção em Santa Catarina. Ela prendeu ilegalmente Luiz Carlos Cancellier, então reitor da UFSC. Ele se suicidou depois de uma humilhação pública com acusações de corrupção na universidade.

Orlando Martello Júnior, então, responde que os depoimentos podem ser refeitos com a delegada junto com os procuradores, de maneira a validá-los. Ele ainda indica que o procedimento dos depoimentos forjados já tinha sido feito antes: “O mesmo ocorreu com padilha e outros. Temos q chamar esse pessoal aqui e reinquiri-los”.

Para Martello, os procuradores tinham sido “displicentes” nesse aspecto. “Era uma coisa óbvia q não vimos. Confiamos nos advs e nos colaboradores.” E avalia que, ao adotar a estratégia que ele sugere, os “colaboradores vão recuar”.

E Deltan responde, mostrando que sua preocupação é com a delegada Erika, não com a veracidade dos depoimentos colhidos. “Concordo, mas se o colaborador e a defesa revelarem como foi o procedimento, a Erika pode sair muito queimada nessa… pode dar falsidade contra ela… isso que me preocupa”.

 

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

 

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