FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: MANAUS DO MERCADO ADOLPHO LISBOA E DO MARCONDES DO MEL: REFLEXÕES BENJAMINIANAS
Manaus do Mercado Adolpho Lisboa e do Marcondes do Mel:
reflexões benjaminianas
José Alcimar de Oliveira *
01. No vídeo abaixo aparece a minha sobrinha Jamyla de
Oliveira Mussa Dib, filha de minha irmã Dulce Enilde de Oliveira,
cearense de Jaguaruana, Ceará. Ambas trabalham no Mercado
Adolpho Lisboa, em Manaus, no recanto Dulce das Ervas, bem visível
e situado à esquerda do final do corredor para quem entra pelo pórtico
principal do conhecido Mercadão. Comparada à degradada arquitetura
da dita Feira da Manaus Moderna, a bela construção do Adolpho
Lisboa ainda assoma como um restrito oásis na Manaus maltratada
pelo arrivismo do capital.
02. Nesse Mercado nosso pai Marcondes Pinheiro de Oliveira
foi assassinado em 09 de julho de 1989, em sua pequena banca de
produtos regionais e de onde tirava o sustento da família, de minha
mãe Ana Nilda de Oliveira e de seus 12 filhos. Ali ele vendia andiroba,
copaíba, mel de abelha jandaíra, mel de cana, frutas e outros produtos
de nossa Amazônia. Para os demais feirantes ele era o Marcondes do
Mel, um cearense prosador, alegre, privado da cultura letrada, mas
cheio da sabedoria da cultura popular.
03. A vida verdadeira de uma cidade está nas Feiras e nos
Mercados, jamais nos Shopping Centers, que são todos iguais e
artificiais. Em Manaus ou em Hong Kong, as mercadorias são sempre
as mesmas. Até o comportamento dos consumidores é igual e
padronizado. Diferença, beleza, variedade, sabores originais,
iguarias, produtos regionais, só encontramos nas Feiras e Mercados.
Nesses espaços, públicos e livres, não há lugar para a discriminação
de pessoas, menos ainda para a boçalidade do consumo conspícuo.
04. Sempre gostei de perambular de forma socrática pelas
Feiras e Mercados. Registro, ainda, que de 1972 a 1974, antes de
entrar no Seminário Franciscano da Terceira Ordem Regular (T.O.R.)
no Bairro Jardim dos Barés, em Manaus, trabalhei com o meu querido
e saudoso Pai Marcondes no Mercado Adolpho Lisboa. Às cinco da
manhã estávamos lá, meu pai e eu, começando o dia com um
delicioso mingau de banana e tapioca.
05. Lá me dei conta, diante da desenvoltura e do faro de
pequeno negociante de meu velho, que eu não levava jeito para a
atividade comercial. Seu tino de vendedor, sempre alegre e destituído
do espírito de acumulação, cativava a muitos. Quanto a mim,
desatento ao devir das vendas, mais lia do que vendia. Mas nunca
ouvi de meu pai a menor reprimenda. Até se orgulhava do filho que
transformara o Mercado em recanto de leitura. Lembrei-me, mais uma
vez da bela definição de Walter Benjamin sobre Paris: um imenso
salão de biblioteca atravessado pelo Sena. Comparado ao rio Negro, o
Sena, no máximo, alcançaria o estatuto de um igarapé açu.
06. Marcondes Pinheiro de Oliveira era um narrador na melhor
definição de Walter Benjamin. Seus registros e contas eram feitos de
memória. Um itinerante da tradição oral. Gostava de caminhar. Mas
os narradores desapareceram. No tempo da pressa on line não há
lugar para a prosa desinteressada. Marcondes era um prosador. Prosa
e pressa se excluem. A ele bem se destinavam as palavras do
itinerante Jesus de Nazaré: “Eu te louvo, Pai, porque escondeste
essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”
(Mt 11,25).
07. Seria impensável ver o meu velho pai Marcondes
trabalhando num Shopping Center. Aliás, ele foi arrancado do nosso
convívio em 1989, dois anos antes da inauguração do primeiro
Shopping Center de Manaus, o Amazonas Shopping Center, em 1991.
A vida falsa e assepsiada dos Shopping Centers, das figuras bem
arrumadinhas, jamais iria fazer falta ao Marcondes do Mel, que fez do
Adolpho Lisboa a sua segunda casa, de domingo a domingo.
Marcondes Pinheiro de Oliveira é constitutivo ontológico, mesmo que
anônimo, da memória do Mercado Adolpho Lisboa.
De seu filho, José Alcimar de Oliveira. Teólogo sem cátedra, professor do Departamento
de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e filho do cruzamento dos rios
Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 07 de dezembro do ano coronavirano de
2020.