EM ESTUDO PRELIMINAR, DROGA “MILAGROSA” DOS DOUTORES TRUMP E BOLSONARO MATA MAIS DO QUE SALVA, MOSTRA LEVANTAMENTO NOS ESTADOS UNIDOS
Parece estar indo muito, muito bem e vai ser distribuída, temos 10 mil unidades e vamos começar a distribuir amanhã. Donald Trump, em 23.03.2020, sobre a hidroxicloroquina
Se o elemento — o homem, mulher ou idoso — chega em um estado complicado e faz o teste e tem o coronavírus… aplica logo. Jair Bolsonaro, em 26.03.2020
É uma droga muito forte, muito poderosa, mas não mata as pessoas. Já temos alguns resultados muito bons e alguns testes muito bons. Donald Trump, em 05.04.2020
O que você tem a perder? Tome! Donald Trump, em 07.04.2020
Hidroxicloroquina como tratamento para COVID-19 não mostra benefícios e registra mais mortes em estudo da Veterans Administration (VA)
Um medicamento contra a malária amplamente elogiado pelo presidente Donald Trump para tratar o novo coronavírus não mostrou benefícios em uma grande análise de seu uso em hospitais de veteranos de guerra dos Estados Unidos.
Houve mais mortes entre aqueles que receberam hidroxicloroquina versus tratamento padrão, relataram os pesquisadores.
O estudo em todo o país não foi um experimento tão amplo quanto o desejável.
Mas, com 368 pacientes, é o maior teste até agora da hidroxicloroquina, aplicada com ou sem o antibiótico azitromicina para COVID-19 — doença que matou mais de 171.000 pessoas no mundo até agora.
O estudo foi publicado em um site on-line para pesquisadores e submetido ao New England Journal of Medicine, mas não foi revisado por outros cientistas.
Dinheiro dos Institutos Nacionais de Saúde e da Universidade da Virgínia financiaram o levantamento.
Os pesquisadores analisaram registros médicos de 368 veteranos do sexo masculino hospitalizados com infecção confirmada por coronavírus nos centros médicos da Veterans Health Administration, que morreram ou tiveram alta até 11 de abril.
Cerca de 28% dos que receberam hidroxicloroquina mais os cuidados habituais morreram, contra 11% daqueles que receberam apenas cuidados de rotina.
Cerca de 22% dos que receberam o medicamento mais azitromicina também morreram, mas a diferença entre esse grupo e os que receberam apenas os cuidados habituais não foi considerada grande o suficiente para descartar outros fatores que poderiam ter afetado a sobrevida.
A hidroxicloroquina também não fez diferença para reduzir a necessidade de os pacientes usarem respiradores.
Os pesquisadores não acompanharam os efeitos colaterais, mas observaram sinais de que a hidroxicloroquina pode ter danificado outros órgãos.
Sabe-se que a droga tem efeitos colaterais potencialmente graves, incluindo a alteração dos batimentos cardíacos de uma maneira que pode levar à morte súbita.
No início deste mês, cientistas no Brasil interromperam parte de um estudo com hidroxicloroquina após o desenvolvimento de problemas no ritmo cardíaco de 25% dos pacientes, na maior das duas doses testadas.
Muitos médicos desconfiam da droga.
Na Universidade de Wisconsin, Madison, “acho que estamos todos bastante decepcionados” com o que foi visto entre os poucos pacientes que experimentaram o medicamento, disse Nasia Safdar, diretora médica de controle e prevenção de infecções.
Pacientes passaram a pedir o tratamento com hidroxicloroquina logo depois que o presidente Donald Trump começou a promover seu uso, e um casal no Arizona tomou o fosfato de cloroquina como preventivo com consequências desastrosas, “mas agora acho que as pessoas perceberam que não sabemos se a hidroxicloroquina funciona ou não” e que o assunto precisa de mais estudos, disse Safdar, que não participou da análise da VA.
O NIH e outros centros de pesquisas têm testes mais rigorosos em andamento.