Peça 1 – Bolsonaro não governa mais

Ontem publiquei o artigo “Xadrez do novo período em que Bolsonaro não mais governa”. Nele mostrava que Bolsonaro perdeu o controle sobre o governo.

  • A Saúde não mais obedece a ele, inclusive questiona suas atitudes.
  • As Forças Armadas, através de seus comandantes, vieram a público reforçar as ordens de confinamento para enfrentar a doença.
  • Não tem nenhuma ascendências sobre a economia.
  • Perdeu completamente e ascendência sobre o meio empresarial, com seu apoio ficando restrito a figuras desmoralizadas.
  • A tentativa de uma campanha a favor da flexibilização da quarentena foi derrubada pela Justiça.
  • Suas declarações a favor da flexibilização foram publicamente questionadas pelos presidentes da Câmara e do Senado e por Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
  • A frente dos governadores se impôs nos Estados, inclusive com a adesão até de recalcitrantes, como os governadores de Santa Catarina e de Minas Gerais.

Hoje em dia, há certeza de que nenhuma loucura a mais será tolerada pelas instituições. A ameaça de Bolsonaro, de uma Medida Provisória liberando os trabalhadores da quarentena, nem chegou a ser levada a sério.

Peça 2 – a estratégia derrotada

Bolsonaro se espelha totalmente em Donald Trump. Quando começou a peste, Trump fez duas apostas:

  1. Levantou a bandeira anti-quarentena recorrendo a dois argumentos: seria uma gripezinha qualquer, sem consequências maiores; e a economia não podia parar.
  2. Quando aumentou a incidência de afetados, levantou a tese de que haveria vacinas prontas para debelar a peste.

Bolsonaro repetiu a tática em tempo real.

Só que Trump perdeu as duas apostas. O coronavirus invadiu os Estados Unidos de forma avassaladora, como ocorreu na Itália e Espanha, dois outros países que minimizaram os riscos. E, mesmo depois de descobertas as vacinas corretas. É um maratonista enfrentando um sprinter, em uma corrida de 100 metros.

Quando percebeu o tamanho do tsunami, Trump recuou, deixando Bolsonaro com a broxa na mão. Já isolado dentro do próprio governo, e tendo feito apostas excessivamente altas, não soube como recuar.

Peça 3 – a derrota nas redes

Perdendo o controle sobre o governo, Bolsonaro manteve a bandeira da anti-quarentena recorrendo aos dois únicos instrumentos de que dispõe:

  1. A palavra do Presidente, inclusive o poder de convocar redes nacionais.
  2. A estrutura de mobilização montada pelos filhos e praticada pelo chamado Gabinete do Ódio.

Mas está perdendo a batalha. De um lado, pelo trabalho exemplar de algumas redes de TV – especialmente a Globo, através do Jornal Nacional e do Fantástico. O jornalismo apresentou não apenas estatísticas e informações sobre o caos em outros países, como os dramas individuais de pessoas afetadas. Os depoimentos de vítimas ou familiares de vítimas tiraram a discussão do campo das versões e levaram para dentro das casas dos telespectadores o mundo real.

Nas redes sociais, o bolsonarismo refluiu. No Pará, um tracking encomendado pelo governo do Estado – que agiu prontamente contra as carreatas – mostrou 60% de desaprovação às atitudes de Bolsonaro.

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A direita desembarcou do bolsonarismo. Os empresários que se apresentaram contra a quarentena foram publicamente desmoralizados pelos fatos, e se recolheram.

Perdendo em todas as frentes, Bolsonaro aumentou a aposta.

Está sob suspeita forte de ter contraído o vírus de forma assintomática – isto é, sem apresentar os sintomas. Prova disso é a contaminação de quase 30 pessoas no seu entorno e o fato do hospital de Brasília, onde foram feitos os testes, ter liberado todos os resultados, menos dois. Mesmo assim, saiu a campo, visitou a periferia de Brasília, provocou aglomerações, provavelmente contaminou dezenas de pessoas que estiveram com ele.

Peça 4 – a estratégia final

Qual seria a estratégia final de Bolsonaro? Ele criou uma situação sem retorno: se for apeado do poder, será julgado e condenado criminalmente, com toda a família, pela morte de milhares de pessoas.

Não se trata mais de mera disputa política entre Bolsonaro e os governadores. Há uma intenção deliberada de espalhar o caos e atribui-lo à quarentena.

Ontem mesmo, Flávio Bolsonaro divulgou fake News, com cenas antigas de saques apresentadas como recentes, E atribuiu à quarentena. Ao mesmo tempo, o bolsonarismo convocou carreatas em diversos estados, de pessoas convenientemente protegidas dentro dos carros ou por máscaras seguras.

A estratégia de espalhar o caos está nítida em uma mistura de intenção e/ou incompetência.

As medidas antidesemprego de Paulo Guedes

Paulo Guedes sumiu das aparições em público, assustado com o coronavirus. As medidas que anunciou, visando minorar o desemprego, terão efeito mínimo na economia.

As PMEs (Pequenas e Microempresas) não tomarão financiamento para garantir dois meses de trabalhadores em casa, sem serem dispensados. É uma tolice criminosa supor que uma empresa, em dificuldades para manter sua folha, vai se endividar sem saber o que ocorrerá com a economia daqui a dois meses.

As liberações de recursos para os bancos

Do mesmo modo, o dinheiro do compulsório liberado para os bancos não reverterão em crédito para as empresas. O principal fator de travamento é o risco de crédito. A liberação não resolve em nada esse risco, principalmente porque persistem as incertezas sobre a retomada da economia.

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Nem seria preciso recorrer às iniciativas dos países centrais, bancando o custo do desempregado e definindo estratégias de liberação de crédito – disponibilizando recursos para os bancos emprestarem, assumindo 85% do risco. Bastaria um mero exercício de lógica.

No caso brasileiro, simplesmente de jogaram os recursos nos bancos, sem nenhuma exigência de contrapartida e sem nenhuma redução de riscos.

Ninguém vai emprestar.

Os recursos para informais e vulneráveis

Até hoje não começou a ser operacionalizada a remessa da merreca de 600 reais para os desassistidos. O dinheiro mínimo, abaixo do salário mínimo, não está chegando nas favelas, nas periferias, para informais, favelados, população de rua. Some-se a extrema insensibilidade até de governos estaduais com a população carcerária.

É evidente que nos próximos dias começarão os saques.

PMs e seguranças

Considere-se que a base das Policiais Militares de todo o país é constituída de classe baixa, moradora de periferia. Eles são os aliados preferenciais de Bolsonaro e estão sendo bombardeados pela propaganda bolsonarista, de que a fome e os saques são decorrência do confinamento. Eles têm seu soldo garantido. Mas em breve estarão atingidos pelo coronavirus sem acesso aos hospitais. O que será disso?

É questão de dias para explodir o caos social.

Guedes tornou-se figura patética. Em pleno tiroteio sumiu por uns dias no Rio de Janeiro e só aparece em seminários virtuais para instituições do sistema financeiro.

Não se soube de nenhuma reunião dele com a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), de nenhuma conversa com técnicos do Banco Central, para discutir formas do crédito chegar na ponta, nenhuma reunião com técnicos do Bolsa Família e IPEA, para saber como chegar nos desassistidos.

É uma galinha morta.

Peça 5 – os recursos não utilizados

O Estado brasileiro possui todas as condições para uma guerra eficaz contra o coronavirus. Tem quadros de primeira nas áreas da saúde, planejamento, Banco Central, BNDES e demais bancos públicos. Tem know-how para essas transferências, através do Bolsa Família, do Cadastro Geral. O IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) desenvolveu estudos sobre como chegar nos demais vulneráveis. Na área de crédito, tem toda o sistema bancário familiarizado com as operações de repasses do BNDES.

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Nada é feito.

Como demonstraram os casos italiano, espanhol e norte-americano, cada dia de atraso na implementação dos programas significa dezenas de milhares de infectados.

O Brasil está pronto para o grande pacto de sobrevivência. Há boa vontade da parte das empresas, sociedade civil, movimentos populares, governadores. Falta só governo.

Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF) tem a obrigação de atuar rapidamente, tirar os Bolsonaro do poder e assumir um papel de coordenação do grande pacto nacional.

Peça 6 – os sociopatas

Repito o óbvio: não estamos tratando com pessoas normais. Não há nenhuma forma de paralelismo com todos os governos pós-Constituinte. Aos demais, se podia atribuir erros, omissões, defeitos e virtudes. Agora, o país está nas mãos de uma família de sociopatas. DSM-5 (Manual de diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – 5ª edição), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e que se tornou padrão para a identificação de transtornos mentais.

Retirei as informações do blog Vittude:

Os sociopatas são socialmente irresponsáveis, apresentam desrespeito pelos outros, falsidade e manipulação para obter ganhos e vantagens pessoais.

O DSM-5 diz que a característica principal dos indivíduos que apresentam transtorno de personalidade antissocial é a sua disposição em desconsiderar ou violar os direitos dos outros. Isso é, o sociopata busca dominar e manipular o outro para obter vantagens para si próprio, como bens materiais, dinheiro, parceria para negócios, sexo, reputação, e assim por diante. Mas os sociopatas podem também querer dominar o outro apenas pela sensação de poder e controle.

Os sociopatas não têm consciência de que estão fazendo algo negativo, seus impulsos os levam a praticar atos que a maioria das pessoas nunca fariam. 

Muitas vezes, os sociopatas podem apresentar comportamento agressivo e se irritam facilmente. Em geral, os antissociais não sentem empatia pelo outro e nem mesmo remorso das suas ações e conduta.

Quem apresenta transtorno de personalidade antissocial tende a ser muito autoconfiante, arrogante e teimoso. Por isso, podem ser charmosos, desenrolados verbalmente e espontâneos, exercendo fascínio e encanto nas suas vítimas. Apresentam também distinta capacidade de argumentação e articulação para conseguirem o que querem.