DA POLÍTICA E ARTE À TV VIOLÊNCIA DOS IRMÃOS SOUZA

É sabido que as produções humanas não têm origem. Não têm um ponto (espaço) e um momento (tempo) definido para emergirem. Assim como afirma o filósofo Spinoza, o homem não foi criado, mas engendrado; assim também todas as objetividades são produtos dos entrelaçamentos de forças que escapam ao homem. Idéias tornadas objetividades por um processual singular de atualização. Assim, emergem e desaparecem realidades.

Foi assim que no final da década de 70, talvez mais precisamente (sem precisão) no começo da década de 80, na ordem da “distensão gradual e restrita” — enunciação imposta pela ditadura em seus últimos estertores —, que o jornalismo brasileiro compôs uma jornada democratizante, assumindo uma forma livre de tratar os fatos nacionais. Foram inúmeras análises sobre as condições em que vivia o país, e inúmeros artigos tratando do tema política e liberdade social. E neste quadro, de novas cores democráticas, a televisão Bandeirantes começou a mudar sua forma de fazer televisão. A dita televisão pasteurizada, ou gastronômica, a TV do entretenimento doméstico inútil, própria para embalar bocejos, deu lugar a uma rede de programação, como se diz, de qualidade. A qual, por ironia, neste momento lhe falta.

DE GLAUBER ROCHA À TV VIOLÊNCIA DOS IRMÃOS SOUZA

Aproveitando os ventos da liberdade que começava a soprar no Brasil, e contratando Walter Clark, que deixara a direção geral de programação da TV Globo, a TV Bandeirantes passou a produzir programas considerados engajados na nova realidade.

Nesta linha, saltaram Abertura, apresentado pelo cineasta provocante Glauber Rocha e seu auxiliar Severino, Outras Palavras, apresentado por Caetano Veloso, Variety, apresentado pela filha do amazonense Ramaiana de Chevalier, Scarlet Mon, companheira de Lulu Santos, e, principalmente, Canal Livre, apresentado por José Augusto Ribeiro. Estava montado a rede do entretenimento cidadão.

Todavia, como diz o dito popular, “o que é bom dura pouco”. Em pouco tempo, em desentendimento com os proprietários da Bandeirantes, por querer fazer outras experimentações, Clark se demitiu, afirmando que os donos da emissora não pensavam alto. Mas nem tudo foi perdido: permaneceu o Canal Livre, com suas entrevistas turbulentas, de Brizola a Darcy Ribeiro, passando por Lula, e outros outsider da cena brasileira. Um programa democratizante jamais assistido na história da TV do Brasil.

Com as Diretas Já!, a redemocratização do país e a expansão empresarial do Grupo Bandeirantes para outras capitais, Manaus entrou na rede, através do empresário Francisco Garcia, como retransmissora de sua programação, com direito de produzir um Canal Livre local. Assim, depois de algumas tentativas, surgem os irmãos Souza. Como não possuíam nenhum engajamento político e atributos intelectuais similares ao do apresentador de São Paulo, o Canal Livre manauara transfigurou em uma corruptela perversa o seu original. Os irmãos Souza, aproveitando o modelo dos programas vampirizantes da miséria popular que eram “sucessos” no eixo Rio/São Paulo, de apresentadores como Valter Franco, Wagner Monte, entre outros, outorgaram-se representantes do povo na TV para concretizarem seus objetivos parlamentares.

De Canal Livre, passou a canal do aprisionamento da dor. Tudo sob o olhar do responsável pela concessão pública do sinal da TV: Francisco Garcia. Mas os irmãos Souza não ficaram só nesta transfiguração midiática. Se auto-denominaram “Irmãos Coragem”, por que perseguiam os desamparados pelo Poder Público, alcunhados por eles de “galerosos”, sem sequer desconfiarem da força histórica da palavra galera. Perversa ironia. “Irmãos Coragem” é corruptela dos Irmãos Coragem, tele-novela de Janete Clair, primeira esposa do comunista Dias Gomes, voz ativa do teatro moderno, e autor da peça O Pagador de Promessas, transposta para o cinema e premiada no Festival de Cannes. Força da ironia, é que Dias Gomes era estudioso do Teatro de Brecht, como todos da década de 60 e 70 que militavam no teatro de vanguarda. Como brechtiano, conhecia todas suas peças, inclusive a peça de onde fora tirado o nome para a tele-novela Irmãos Coragem: Mãe Coragem e Seus Filhos, escrita em 1939. Uma crônica da Guerra dos Trinta Anos. Além de seu conhecimento da obra Mãe, do escritor russo Górki. Literatura trans-escrita, em 1930-2, para o teatro, por Brecht, com o nome A Mãe: Vida da Revolucionária Pelageya Vlasova de Tver.

Hoje, os irmãos Souza, que nunca foram coragem, segundo Dias Gomes, Brecht, Górki e o pensamento social da democracia constitutiva, encontram-se, enquanto representação na consciência coletiva, como aqueles que em nenhum momento de suas práticas televisivas funestas tiveram qualquer relação com o jornalismo do Canal Livre, a arte e a política de vanguarda libertária. Foram meros personagens tristes da mídia capitalista em sua expressão mais violenta. Aquela onde não passa a dignidade da condição humana. E tudo acontecendo diante da indiferença dos “doces poderes”.

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