IRMÃ DOROTHY ABRE ESPAÇO NO FÓRUM MUNDIAL DE TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO — BELÉM — 2009
Para todos que acompanharam o trabalho de irmã Dorothy, freira norte-americana que desde a década de 70 desenvolvia projetos de diminuição da miséria física e existencial das pessoas submetidas à violência e exploração de grupos dominantes, e também para aqueles que conheceram seu nome inscrito na luta comunitária construtora de novas possibilidades no mundo, novas possibilidades de mundo, tentando implantar o PDS – Projeto de Desenvolvimento Sustentável, quando foi assassinada por pistoleiros no dia 12 de fevereiro de 2005, numa estrada em Anapu (município do estado do Pará), a mando de fazendeiros, madereiros e políticos que estavam apavorados com a potência da luta de Dorothy em minar seus falsos poderes e a implantação do PDS como uma ação preventiva à depredação e à exploração promovida/promotora de seus torpes negócios, três questões são constantemente colocadas em todo o mundo após seu assassinato: a primeira diz respeito a este acontecimento — Os assassinos ficaram impunes? Os verdadeiros assassinos irão ao banco dos réus? A segunda é sobre as pessoas que caminhavam com Dorothy no seu trabalho, sua luta — Diminuíram as perseguições e ameaças após o assassinato? A terceira, sobre como ficaram os trabalhos nas comunidades após o assassinato — Que trabalhos continuam realisados e quais seus alcances enquanto vetor de transformação social e política?
No III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, encontramos o pessoal do COMITÊ DOROTHY, e conversamos com duas pessoas maravilhosas por suas ações no mundo, e que compartilham aqui neste bloguinho sobre notícias (novidades) sobre essas e outras questões: uma é irmã Júlia, companheira de muitos anos de Dorothy nos trabalhos comunitários; a outra é Lu, uma jovem freira maranhense que trabalha com o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, com jovens de Anapu…
A VIVACIDADE DE IRMÃ JÚLIA
Irmã Júlia — Meu nome é irmã Júlia, sou irmã de Notre-Dame, e faço parte do Comitê Dorothy. Moro aqui em Belém, no bairro Guamá. Sobre a situação de Dorothy, como todo
mundo diz: ‘Como está a questão?’. Pois por enquanto, nós não sabemos realmente como a justiça vai agir no Estado do Pará. Nós sabemos que o julgamento de Bida foi exatamente do jeito que deveria ter sido feito, e no segundo, o homem sai da cadeia, completamente absolvido. E todo o povo faz a pergunta: por quê? Por que no primeiro a pena máxima, e no segundo, absolvido? Algo aconteceu. E nós decidimos, nós do comitê, as irmãs, o povo, não podemos lutar com este tipo de justiça do Estado, de que ele foi absolvido porque é inocente, isto é besteira. O que nós decidimos foi direcionar todas as nossas forças para não deixar a memória de Dorothy morrer. No dia do enterro de Dorothy, nós dissemos: ‘nós não estamos enterrando Dorothy, nós estamos plantando Dorothy’. E nós não controlamos, não fomos nós que espalhamos isso: “Ah!, eu quero escrever um livro”. Não. Foi o povo, emocionado com o trabalho dela, é por isso que eu digo: “Nós todos somos voluntários do comitê Dorothy, nós trabalhamos junto com o povo de Anapu, as irmãs lá, padre Amaro, e nós queremo fazer de tudo para que a memória de Dorothy nunca morra.” Eu não sei, tem muita coisa para falar sobre Dorothy, eu não sei se Lu gostaria de falar, ela morou em Anapu depois da morte de Dorothy.
A JUVENTUDE ENGAJADA DE IRMÃ LU
Irmã Lu — Com o assassinato da Dorothy o governo prometeu mil coisas, e que poucas dessas coisas chegaram realmente até o povo da floresta, e hoje eles continuam passando por ameaças dos grandes fazendeiros, os grandes fazendeiros não fugiram, eles estão presentes, ao redor de Anapu, o desmatamento em certas partes continua, os incentivos para que o povo possa realmente trabalhar n
a terra muitas vezes é lento por parte do governo, tem toda esta conjuntura, mas também tem o lado muito bom que é o da organização do povo, que a princípio, quando Dorothy foi assassinada, todo mundo ficou com medo, meio desesperado, o que é normal. Mas agora, após o momento de desespero veio a esperança, aquilo que Júlia falou, que nós plantamos a semente, que é a sustentabilidade da floresta, viver dentro da floresta sem destruir, viver de forma sustentável. O povo está lá, lutando para sobreviver de forma sustentável. Os fazendeiros diziam que o povo só ia comer casca, hoje tem 200 pés de cacau na roça, tem arroz, tem feijão, tem batata doce, e não é batata pequena não, é batatão que eles estão colhendo, o povo tá colhendo aquilo que está plantando, e a memória dela continua muito viva, a gente sente Dorothy muito viva no PDS Esperança, PDS Virola, na organização e na animação do povo mesmo com todos contra. No último 08 de novembro, houve uma audiência pública onde mais de 700 pessoas de todas as comunidades ao redor de Anapu vieram, falaram para o governo o que está faltando, pediram seus direitos, pressionaram o governo, foi uma atitude muito bonita que nasceu partir da organização do povo, se mobilizando em favor de seus direitos. Reforçar isso: o povo quando quer, ele pode conseguir. E Anapu, um educador social, logo que ela foi assassinada, foi lá conosco e deu uma oficina, foi o Ranulfo, e ele disse: ‘o grande só é grande porque nós estamos de joelhos’. E o povo de Anapu está aprendendo a se levantar. É um local meio que esquecido, em plena Transaamazônica, local de difícil acesso, principalmente em meses de chuva, agora com violência contra a mulher muito forte, contra menores também, a questão do tráfico e tudo mais. Porém, ao mesmo tempo em que existe esta realidade dura e cruel, é um povo corajoso, e que não esquece de Dorothy.
Afinsophia — Como os governos têm reagido a estas pressões sociais?
Irmã Júlia — Bem, eu posso dizer que eles são obrigados a pelo menos respeitar. Mas que temer, não temem. E o que está acontecendo em Belém, e por causa de Dorothy está nascendo, é que criou um grupo chamado MOVIDA, que se mobilizou em torno de famílias que estão tendo membros assassinados, e a impunidade cala a boca dos governantes. Mas o interessante é que enquanto são os pobres, tudo fica calado. Mas agora, quem está morrendo aqui é foi procurador, foi o Dr. Salvador, pessoas da alta sociedade, e agora eles estão compreendendo a seriedade da impunidade que existe não só aqui em Belém, mas principalmente no restante do Estado do Pará. Eu acho que alguma coisa tem que acontecer, porque nós sabemos: a violência, a impunidade, geram violência. Tem crianças com revólveres, e ninguém faz nada. Eu acho que o jeito que eles estão tratando as crianças não está ajudando essas crianças. E são mais e mais crianças envolvidas nesses roubos, e nós descobrimos que os grandes estão colocando as crianças para fazer, porque eles não são punidos.
Afinsophia — E a questão da repercussão do caso fora do país?
Irmã Júlia — Eu posso dizer porque nós somos uma congregação internacional, e a reação do mundo inteiro sobre a absolvição de Bida foi perguntar: ‘que tipo de justiça vocês têm no Brasil?’. Bem, eles podem falar assim, mas todo mundo está bem nivelado nesta questão de justiça. Mas o mundo reagiu muito forte. E o que é que eles podem fazer, quando os
próprios governos têm todo o poder? O povo mesmo agora está começando a reagir. A Ana Júlia disse que antes dela não havia segurança. Bem, aqui é aquela briga de políticos. Mas podemos colocar um milhão de carros, e se não tem um policial formado, entendendo que a arma não é só para matar, mas que ela também é para proteger, que nós temos que fazer um treinamento melhor. Uma senhora estava aqui no fórum, e ela veio da Holanda, e ela disse: ‘ninguém tem medo da polícia. Todos sabem que a polícia é para nos proteger’. E desde que ela chegou aqui, está horrorizada, ela já assistiu a três pessoas implorando por ajuda e a polícia fica parada, ninguém faz nada. Ela diz que ficou escandalizada. Ela escutou uma mulher gritando, e olhou pela janela, e ela disse que ninguém, claro que o povo tem medo de ser morto, mas havia polícia na rua e ninguém fez nada. E todo mundo gritando: ‘ladrão, ladrão…’. E é isso, os policiais são deste tipo. Será que estão recebendo dinheiro do outro lado, para calar a boca? Será que quem domina a polícia agora são os traficantes? Por exemplo, os celulares dentro das prisões, alguém está permitindo isso. Será que os salários para policiais bem treinados não deveriam ser melhores? Mas para os policiais bem formados, não para os corruptos. Alguém soube que eles estão colocando muitos policiais nas ruas durante este encontro, mas que os policiais estão exigindo aumento de salário, e se não receberem o aumento de salário, no primeiro dia do Fórum Social Mundial, vai ter greve. Imagine a confusão. Estão exigindo, pressionando, só para receber mais dinheiro. Que tipo de voto ou compromisso eles estão assumindo quando se formam policiais? Não sei.
Afinsophia — Vocês têm contato com grupos no Amazonas que trabalhem contra a grilagem de terras?
Irmã Júlia — Eu acho que grupos que nasceram depois da morte de Chico Mendes, grupos assim, certos sindicatos, eu sei que existem grupos que querem que este mundo seja melhor. E é possível, se nós juntarmos as forças. Agora, Obama está tentando dar um outro recado, mas será que ele vai ter força para isso? Eu acho que ele vai lutar pela
igualdade, e a batalha que ele ganhou, de ser presidente negro num país onde seu pai foi discriminado pela cor. E vai ser muito difícil, talvez quem nunca morou nos EUA não possa entender o quanto é difícil. Mas olha, foram 2 milhões de pessoas na rua, em Washington, com temperatura de sete graus abaixo de zero, que é muito frio, e nada de sinal de violência. Tem alguma coisa aí, o povo talvez estivesse perdendo a esperança, e talvez esteja recuperando um pouco. No Fórum Social Mundial, terá a nossa passeata, que vai iniciar na Escadinha e na Igreja Anglicana, e nós vamos caminhar até São Braz, e tem pessoas dentro do grupo que acha que violência é a maneira correta de agir. Nem todos, mas nós estamos com medo porque não podemos impedir ninguém de participar: quem fez a inscrição tem o direito de participar, mas temos medo do que vai acontecer quando estivermos em frente ao Mc Donald`s, não só ele, mas outros, mas é que ele fica naquela rua, e ficamos pensando se irão jogar pedras, se haverá quebra-quebra, na Vale do Rio Doce, e todo mundo sabe o que esta empresa está tirando, e nossas autoridades permitem. A gente pode falar muito e eles dizerem ‘façam alguma coisa’, mas não é tão fácil assim. Mas eu acho que o povo tem que começar a escolher melhor em quem votar. Porque nós estamos colocando senadores e deputados que nem estão aparecendo no Congresso, e a coisa está assim…
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O ESPAÇO: IRMÃ DOROTHY STANG continua no Centro de Artes Tancredo Neves – CENTUR, até o próximo domingo (25/01), fazendo parte do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação.
E, no dia 28/01, será inaugurado na Universidade Federal do Pará – UFPA, no espaço POEMA – Programa de Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia, às 10h da manhã, já constando no III Fórum Social Mundial.
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Cinema: MATARAM IRMÃ DOROTHY
No mesmo dia 28/01, será exibido o documentário Mataram Irmã Dorothy, de Daniel Junge, que ocorrerá às 16h, na Casa da Pan Amazônia (Prédio Central da UFRA).







