…Amazonino se comportou como geralmente se comporta nos debates: irrequieto, inseguro, temeroso. Mostrando que não tem mesmo o que dizer, se segurou em alguns clichês, na tentativa de eliminar os argumentos do adversário.

No afã de capturar o eleitor-telespectador pelo complexo de inferioridade, tentou dar a todos os assuntos um aspecto de “dificuldade”. Para justificar a inexistência de idéias para o turismo ou o saneamento básico, por exemplo, conjurou a “complexidade” do assunto. Em outras palavras, subestimou a inteligência do eleitor. Em determinado momento, seu nervosismo permitiu o ato falho de chamar o prefeito de “Presidente Serafim”, talvez vendo no adversário materializados os seus medos e inseguranças. O verniz intelectual que tenta dar ao seu empobrecido discurso não vai além de algumas palavras colhidas no dicionário, na maior parte das vezes anos-luz distantes do seu significado real, ou no máximo bem delimitadas pela significação banal, do senso médio. Ao ponto de afirmar, sobre as invasões que povoaram a cidade (especialidade do seu governo, aliás) que “Manaus foi invadida pelas invasões. Tautologia mais que linguística, no caso de Amazonino.

Quase sem voz, não por rouquidão, mas dislálico, “engolindo” as últimas palavras, mal terminando a maioria das frases. Optou, como sempre, por tentar desestabilizar emocionalmente o adversário a apresentar improváveis argumentos – improváveis por não saber articulá-los, e pelos fatos que acompanham a sua trajetória política. Em alguns momentos, o tom de voz dava a impressão de quem estava prestes a chorar.

No plano das propostas, foi engolido por Serafim. Enquanto pensava em uma frota de caminhões a rodar pela cidade a debelar as emergências, Serafim falava em fortalecer presença da rede de atenção básica de saúde nos bairros. Enquanto falava que o turista só quer saber de selva, e não liga para a cidade, Serafim mostrava que, do aeroporto aos hotéis de selva, o turista gasta – e muito – dentro da cidade. Enquanto tentava convencer a população de que a privatização da água foi uma decisão acertada, Serafim mostrava que, não fosse isso, o governo federal poderia investir muito mais do que tem investido na resolução deste problema.

Serafim equivocou-se somente em dois momentos: quando permitiu que Amazonino saísse do debate afirmando que não ficou com o dinheiro da privatização, dando abertura para que ele anunciasse aos quatro ventos que não subtraiu o erário público sem contestá-lo, e no momento em que deixou a guarda aberta para que Amazonino decantasse as vantagens de ser prefeito na administração de Lula. Amazonino, que foi duas vezes governador na época do presidente FHC – de quem Amazonino é amigo, e que “ajudou” na aprovação da emenda da reeleição, e a quem o Farol de Alexandria chamava de “Imperador do Amazonas” – não podia reclamar de falta de atenção do governo federal, e mesmo assim, o Estado não foi beneficiado como o é no governo atual e com a prefeitura atual. Mesmo com Amazonino fazendo parte da tropa de choque do governo FHC-PSDB, o Amazonas sofria diuturnamente ataques ao modelo Zona Franca de Manaus por parte do governo federal, e jamais teve sequer um décimo dos recursos federais que ora chegam na atual parceria Serafim-Lula.

Afora estes deslizes, Serafim esteve seguro, tranquilo, soube argumentar com clareza e colocar didaticamente os pontos positivos e as dificuldades que teve nos quatro anos em que administrou Manaus. Sobrou, e engoliu o adversário.

As considerações finais, ao olhar de um eleitor atento, seriam suficientes para pontuar a diferença entre os candidatos: um, pautando-se no imaginário supersticioso, apelou ao misticismo teológico, citando zil vezes Deus, e “endeusando-se”, enquanto o outro delineou a sua proposta de governo, sublinhando os pontos positivos e conclamando a vitória no domingo. Detalhes de uma eleição que não escapam ao eleitor teologicamente atento, que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir.

A nota funebre – desta forma mesmo, sem o acento no u – foi a ausência da democracia no final do debate. A mediadora não esperou o desligar das câmeras para mostrar que, na prática, a emissora não está na média, mas pende para um lado. Enquanto Serafim aproximou-se para cumprimentá-la, fazendo com a mão o gesto do “40”, ela desviou o caminho, e apertou a mão do outro candidato. Acrescente-se que Daniela Assayag, para um telespectador mais atento e informado, aparece como uma mediadora insípida, sem lucidez e dinamismo para mediar um debate, talvez porque, ainda que conste a mediocridade do caso, é necessário ao menos um míonimo de inteligência para coordená-lo. Mesmo os telespectadores/videotas, acostumados a ver Danielinha cobrindo alguma matéria sensasionalista, como um naufrágio ou uma “festa” de boi-bumbá no Sambódromo, perceberam uma aparente diferença. Não que os “jornalistas” que vieram de Rio/São Paulo sejam melhores, afinal a diferença é apenas aparente e todos são iguais, o mesmo, Redundância, clone. Talvez se queira dizer que ainexpressividade da medíocre mediadora seja decorrência da postura séria condigna a um debate eleitoral; mas a parcialidade dela no aperto de mão só revela o que todos já sabem: que ela e a emissora da qual faz parte são realmente muito sérias para a democracia.

1 pensou em “DEBATE NA TV? NÃO, MAS…

  1. O debate não existiu,foi um massacre.

    Aeh pessoal da afin, postei no textobr.com umas considerações hipotéticas sobre o Renato Janine Ribeiro, filósofo da USP, e duas teses defendidas por ele recentemente. Deem uma olhada, grande abraço!!!

    Gerson Severo Dantas

    PS: O textobr.com é uma afinshophia do pessoal do jornalismo e letras, deem uma olhada

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.