DUAS NOTAS DO DUO BUSH-HARRY

Notas Musicais

PRIMEIRA NOTA – LA: Olha só quem chama os outros de “tirano”. Aquele que, freudianamente, se deu bem, pois deu continuidade e superou a obra encaminhada por por seu pai: a sanha justiceira/dominadora para apropriação do mundo. O mesmo que apóia à força e à bala o estado de Israel no meio da Palestina a massacrá-la. O mesmo que é aliado do ditador militar Musharaf, que comandava o Paquistão. O mesmo que tem imposto duras leis de imigração desde que assumiu. Que mantém oficializadas as torturas nas prisões de Abu-Ghraib e Guantánamo. Que promoveu, com seus erros em todos os setores, a derrocada da economia norte americana, e seu desgaste político mundial. Que vai contando mais de 4000 soldados mortos no Iraques, e vai fazendo visível que aí, assim como no Afeganistão, a presença dos Estados Unidos só faz aumentar e prolongar os conflitos no Oriente Médio. E que, enquanto isso, por onde passa vai deixando a marca dos anseios totalitários sob a estapafúrdia “guerra ao terrorismo”. Para quem a lembrança ao tribunal de Nuremberg e ao código de Genebra, serve apenas para os inimigos. E por isso junta técnicas pós-moderníssimas de destruição em massa com métodos medievalescos utilizados pela inquisição, como a tortura por afogamento denominada waterboarding. É para este que, imbuído do desejo (vejam só!) de “auxiliar a democracia em Cuba”, Fidel era um ditador e agora Raul Castro é um tirano. Mas enquanto ele vai tentando levar adiante “o processo do século”, como analisou na Carta Capital Wálter Fanganiello Maierovitch sobre a armação incondicional para a condenação à morte dos seis envolvidos no 11 de setembro. Pois é, enquanto isso, Felipe Pérez Roque, ministro das Relações Exteriores de Cuba, na sede da ONU, em plena Nova York, assina dois tratados internacionais, que dizem respeito à “liberdade de expressão e associação” e o “direito de viajar ao exterior”, que Fidel não assinara devido ao controle que os Estados Unidos sempre mantiveram sobre a ONU. Um personagem da peça Entre Quatro Paredes, do filósofo da liberdade, Sartre, enuncia que “o inferno são os outros”. Por que Bush também não dá uma passadinha ali na sede da ONU e assina a proposta de moratória da pena de morte, que ficaria suspensa até a próxima convenção da ONU? Talvez porque pra ele tirano são os outros, porque é através deles que me percebo no mundo. Não, Bush não possui os elementos necessários para perceber o outro.

SEGUNDA NOTA – SOL#: O passeio acabou. Harry, “the nazi”, filho da princesa Diana e o príncipe Charles, queria tanto ir ao Iraque. Mas o general não deixou, porque havia muitas ameaças de morte contra ele. Oh!, quão desprotegido! Mas se, mesmo entre um bando de seguranças, ele teve a cara rachada por um fotógrafo que atacara histericamente. Embora sendo apenas pose pra fotografia, de qualquer forma, melhor não. Mas ele precisava dissipar a imagem de falsa rebeldia à la Jovem Guarda; era preciso esquecer o quadro roubado dos aborígenes australianos que apresentou como trabalho final do curso de educação artística. A professora ainda tentou cumprir seu papel de forma imparcial, mas foi rapidamente demitida de uma das mais sérias escolas inglesas. E olha que a seriedade da coroa inglesa é séria mesmo. Tão séria que ele foi obrigado a trabalhar três meses como vaqueiro, ganhando salário de vaqueiro, e depois praticar humanitarismo (sem humanismo) na África. Mas tão séria que parece que não se contentou com o uniforme nazista vestido pelo principesco numa festinha e resolveu que ele iria ao Afeganistão, dessa vez, na surdina. Dizem que ele reclamava muito da falta de uma boa ducha, e que por isso passava até três dias sem tomar banho. Dizem também que detestava a comida. Mas como ele teria apenas que matar uns trinta afegãos para tornar-se “herói” diante das câmeras. “É muito bom ser como uma pessoa normal pelo menos uma vez”, disse ele. Aos afegãos anormais e paranormais, ninguém perguntou se estavam armados ou amarrados. Ninguém perguntou quantas crianças, mulheres, velhos, pessoas. Não contam. O que importa é que os sérios ingleses esqueçam que ele fumou um baseado, que ele apalpou aquela loira enquanto a namorada viajava, que ele bebeu vodka, enquanto a foto mostra que ele cheirava alguma coisa. Para nós que não somos da divisão de entorpecentes, não o discriminamos pelo método que ele empregava para suportar o vazio da família real britânica, era melhor do que matar afegãos. Mas eram apenas afegãos, e “uns trinta afegãos” nada quer dizer na ordem simbólica do genocídio. Como diz Jean Baudrillard: “se um indivíduo morre, sua morte é um acontecimento considerável, enquanto que se mil indivíduos morrem, a morte de cada um é mil vezes menos importante”.

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